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Até meados de setembro, o principal fator externo afetando o mercado financeiro brasileiro era o agonizante estado da economia na Argentina. Porém, com os atentados nos EUA e seus efeitos sobre a economia mundial, o foco de atenção foi mudado, deixando a situação argentina em segundo plano. Poucos pararam para analisar que, se as conseqüências dos atentados são ruins para o Brasil, o que dizer dos efeitos sobre a já debilitada economia de nosso vizinho. Nos últimos dias, no entanto, o mercado parece ter percebido este fato, e os temores de um colapso da economia de nosso país vizinho aumentaram.
A situação da economia argentina é crítica, e não é necessário conhecer muito sobre teoria econômica para entender. O regime de paridade do peso com o dólar engessou a atividade econômica e o país já se encontra em recessão há quatro anos. Sem um crescimento sustentado, é impossível para a Argentina fazer face aos seus compromissos externos, ou seja, fica cada dia mais difícil evitar um calote da dívida externa.
A economia argentina pode crescer?
A resposta é não, a não ser que a paridade do peso seja abandonada. Os motivos são:
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Neste cenário, resta muito pouco a fazer para tirar a economia argentina do estado terminal em que se encontra.
Quais são as saídas
Em função da gravidade da situação, restam poucas alternativas para evitar o pior. O abandono da paridade deve levar a uma substancial desvalorização do peso, o que terá efeitos dramáticos sobre todos os setores da economia. Boa parte da dívida do governo é em dólares, e ela aumentaria de forma substancial com uma desvalorização, possivelmente levando o país à insolvência.
Muitos analistas mencionam a dolarização da economia como uma solução, ou seja, simplesmente abandonar o peso e adotar o dólar como moeda oficial. Esta alternativa pode ser menos traumática que a desvalorização, mas não resolve os problemas estruturais da economia.
O momento é crítico
Além dos inúmeros problemas na economia, as eleições do próximo dia 14 também trazem mais instabilidade. Considerando a situação econômica, não será surpresa se o governo for derrotado nas eleições legislativas. Mesmo com a trégua política firmada nos últimos meses para tentar conter a derrocada da economia, não está claro se o país escapará do pior. Imagine adicionar mais um componente de instabilidade política neste cenário.
O mercado aguarda ansioso por possíveis medidas que possam ser tomadas após as eleições, porém não muito confiante de que a deterioração da economia possa ser revertida. A percepção quase que generalizada é de que a quebra da convertibilidade é apenas uma questão de tempo.
E a economia brasileira, como fica ?
Por ironia, o melhor cenário para o Brasil é que a situação argentina tenha um desfecho rápido. Um dos principais efeitos de uma derrocada argentina seria o fechamento, ao menos temporário, do mercado internacional de capitais. Isto em prática já ocorre hoje, em função da aversão ao risco resultante dos ataques terroristas nos EUA.
O governo brasileiro já tem se preparado para este cenário. A política cambial considerada “liberal” demais por alguns não é nada mais do que uma forma de amortizar os efeitos de uma possível moratória argentina no tempo, deixando o mercado gradualmente ajustar suas expectativas de risco na taxa de câmbio. Com o dólar mais alto, cai a necessidade de um forte aumento nos juros internos para fazer frente a uma crise. O acordo firmado com o FMI também mostra a cautela das autoridades, criando um balão de oxigênio que permitiria à economia brasileira superar um período de forte turbulência.
Como isso afeta seu bolso
Antes mesmo de uma possível moratória argentina, já estamos sendo afetados pelos problemas no nosso vizinho. Em virtude da dependência da economia brasileira ao mercado internacional de capitais, já estamos pagando o preço, principalmente na forma da valorização do dólar, que já ultrapassa 40% somente este ano. Uma moratória argentina certamente levaria o dólar a patamares recordes, possivelmente acima dos R$ 3,00, mas a cotação deveria ceder logo depois, sobretudo porque a cotação atual da moeda americana já precifica uma alta probabilidade de default argentino.
No curto prazo, os juros também poderiam subir, visando evitar uma contaminação aos problemas de nosso vizinho. Porém, assim como no caso do dólar, isto não deve durar muito, e as taxas devem voltar a níveis próximos aos atuais.
Os efeitos de médio e longo prazo vão depender da seriedade com a qual as deficiências da economia brasileira são atacadas, o que pode incluir um novo ajuste nas contas públicas. Para nós resta a torcer que a Argentina consiga achar uma saída favorável para a crise, mas caso isso não aconteça, o melhor é que o grand finale desta agonia, que já dura vários anos, ocorra no período mais curto possível.