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3 "circuit breaks" em 48 horas: a explosão do DI e como ela mudou o rumo do mercado

Ontem, os contratos de juros futuros dispararam, atingindo a maior alta permitida, com os principais DIs subindo cerca de 5%

SÃO PAULO - Muitas vezes os investidores ficam tão concentrados nos mercados de ações e no câmbio, que esquecem que o mundo dos derivativos traz sempre pelo menos um indicador que deve ser olhado diariamente: os contratos futuros de DI (Depósito Interbancário). Estes últimos dois dias foram sintomáticos disso. Enquanto no mercado de Bolsa os movimentos foram fortes, mas não tão bruscos quando comparados a outros momentos no ano, os DIs acionaram três limites de alta/baixa (similar aos circuit breaks da Bolsa, quando as operações ficam paralisadas para conter um excesso de movimento) em 48 horas. 

Ontem, os contratos de juros futuros dispararam, atingindo a maior alta permitida, com os principais DIs subindo cerca de 5%. O DI para janeiro de 2017 subiu 80 pontos, atingindo os 16,55%, se aproximando da maior alta desde outubro de 2008 e o maior patamar desde novembro daquele ano. Enquanto isso, o contrato de janeiro de 2021 avançou para 16,94%.

Mesmo após o fechamento, o movimento continuou e hoje estes contratos novamente acionaram limite de alta permitida, com o DI para janeiro de 2017 chegando a 17,27% e o DI para janeiro de 2021 tendo atingido a máxima de 17,55%, batendo na trave do nível de limite, que estava estabelecido em 17,60%. Vale lembrar que para os DIs os limites de alta e de baixa são acionados quando a variação supera 80 pontos-base. Quando isso ocorreu, o dólar bateu sua máxima, chegando a R$ 4,24 e o Ibovespa chegou a cair 2,55%. 

No entanto, após pouco mais de uma hora de negociação os DIs viraram e surpreendentemente fizeram o movimento inverso e chegaram a devolver não só os ganhos de hoje, mas os ganhos de hoje somados aos de ontem. Ou seja, fizeram limite de baixa, com o DI de janeiro de 2017 batendo mínima a 15,80% e o DI 2021 atingindo seu menor patamar de negociação a 16,01%. O movimento inteiro dos juros teve portanto, uma amplitude de 140 pontos-base no caso do contrato 2017 e 150 pbs no caso de 2021. 

Por que tanta volatilidade? A resposta disso está no discurso que deu o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, nesta quinta. Depois dos investidores precificarem todo um novo ciclo de alta dos juros para que o Brasil consiga combater a inflação forte - que está ainda mais pressionada por conta do câmbio - e atraia investimento mesmo tendo perdido o investment grade pela Standard & Poor's, Tombini falou que a Selic ia ficar exatamente onde está: 14,25% ao ano. Segundo ele, a atuação da política monetária do governo deve ser tal que não adicione volatilidade ao mercado e a taxa básica de juros deve se manter inalterada por um período prolongado. 

Como os DIs tentam prever a trajetória da Selic, os investidores foram obrigados a reprecificarem suas expectativas em vista da intenção declarada do presidente da autoridade monetária brasileira de não subir juros. Um exemplo disso é o DI para janeiro de 2016, que chegou a bater 15,35% neste pregão, o que significa o mesmo que dizer que o mercado chegou a ver pelo menos mais uma alta de 0,5 ponto percentual e outra de 0,75 p.p. nas próximas duas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária) este ano. Depois da fala de Tombini, o contrato despencou até 14,65%, indicando apostas para "só" mais uma alta de 0,5 p.p. até 2016. 

Como não poderia deixar de ser, o movimento do DI novamente acabou sendo seguido por dólar e Bolsa, que também oscilaram entre extremos hoje. O câmbio comercial foi de R$ 4,2472 para R$ 4,0698 em apenas um pregão. Enquanto o benchmark da nossa Bolsa agora opera em queda de 0,94%, bem longe da mínima da sessão. 

Por que olhar o DI?
O mercado de juros tem o poder de influenciar a própria Bolsa. Isso ocorre, por exemplo, pelo custo de oportunidade. Por ser um mercado de renda variável no qual os rendimentos são incertos e a chance de perder dinheiro não é pequena, só vale a pena entrar para este mundo se a possibilidade de valorização de um ativo for maior do que o que se ganha na renda fixa somado a um prêmio sobre o risco. E o que isso tem a ver com o DI?

O economista da Leme Investimentos, João Pedro Brugger, lembra que os juros futuros antecipam ou tentam antecipar os movimentos da Selic, a nossa taxa básica de juros. A Selic, como muitos sabem, é usada como referência para a rentabilidade de diversos ativos como títulos públicos. 

Além disso, ele lembra que os juros mais altos possuem um impacto para as empresas em si, já que reduz a lucratividade de diversos setores como incorporadoras e shoppings centers, já que são mercados muito dependentes de pagamentos a prazo pelos consumidores. Isso significa que as ações destes setores tendem a cair quando as apostas são de aumento dos juros.

Fora que muitas empresas ainda emitem títulos da dívida lastreados no DI ou na Selic, de modo que um aumento dos juros significa uma maior dificuldade de financiamento para estas companhias. Resultado disso, em última instância é que a empresa pode ficar mais alavancada e ser obrigada a reduzir investimentos ou vender ativos.

Já Flávio Conde, analista da consultoria independente WhatsCall, lembra da relação dos DIs com o dólar. "O DI segue o dólar. Conforme o dólar estressa para cima, o DI segue , porque a inflação tende a ser maior do que o esperado e a necessidade de aumentar juros também volta", afirma. 

Então, toda vez que o DI acionar um circuit break de alta, pode ficar de olho na Bolsa, porque o Ibovespa com certeza vai cair forte, e vice-versa. 

 

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