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Postura rígida do novo homem forte do BC começa a mexer nas expectativas para Selic

Mais rígido e ortodoxo do que o diretor antecessor, Luiz Awazu é personalidade ascendente na política monetária brasileira

luiz awazu, bc

SÃO PAULO - Quando falamos em Banco Central e Selic, o primeiro nome que nos vem à cabeça é o do presidente da autoridade monetária, Alexandre Tombini. No entanto, um novo nome vem ganhando protagonismo nas últimas semanas e o impacto já começa a ser visto no mercado, com as projeções dos economistas apontando para uma taxa de juros superior aos 13,5% ao ano. 

Esse personagem é Luiz Awazu Pereira da Silva, o novo diretor de Política Econômica do Banco Central. Ph.D. em economia pela Universidade de Sorbonne, Awazu foi diretor de Assuntos Internacionais e de Regulação desde abril de 2010, até ser convidado a substituir Carlos Hamilton Araújo na diretoria econômica do BC.

Com uma linha de pensamento mais austera e mais ligada à escola monetarista ortodoxa do que seu antecessor, suas opiniões têm ganhado respaldo em meio aos agentes econômicos. Na opinião do economista da Austin Ratings, Alex Agostini, a principal diferença entre Awazu e Hamilton era que este último era mais flexível às intenções de Tombini, que estavam em certa medida contaminadas pelas próprias indicações do governo federal. "Com Awazu, a área econômica ficou mais rígida", explica o economista da agência de rating brasileira.

Awazu falou, mercado "comprou"
E esse respeito ficou evidente na semana passada, quando 
Awazu participou de duas reuniões com analistas do mercado financeiro - no dia 18 em São Paulo e no dia 19 no Rio de Janeiro. Na capital paulista, Awazu disse repetidamente que o BC "permanecerá vigilante" em relação ao avanço da inflação e, o que é mais importante, que "o que foi feito até agora não é o suficiente", segundo um analista que esteve na reunião disse à Agência Estado. Ele ainda enfatizou que o BC vai trabalhar para manter os impactos dos ajustes dos preços administrados - como tarifas de energia e de transporte, além do preço da gasolina - circunscritos ao ano de 2015.

De maneira semelhante, no Rio de Janeiro, a opinião geral foi de que, mais do que nunca, o BC parece disposto a perseguir a meta de inflação, dando mais peso para a estabilidade de preços do que para o produto, disse ao InfoMoney o economista Ignácio Crespo, da Guide Investimentos. Ignácio diverge um pouco da análise de Agostini e explica que não vê tanta diferença na mera troca de Hamilton por Awazu. "A mudança de postura é da instituição como um todo", opina.

Ao que parece, as falas do diretor do BC tiveram efeito: os contratos futuros de DI - uma das formas que o mercado precifica as expectativas para a taxa básica de juros no futuro - negociados na BM&F têm mostrado alta da semana pra cá, sobretudo aqueles com vencimento mais curto. Na segunda-feira passada, os contratos com vencimento em janeiro de 2016 e janeiro de 2017 subiram forte, embora tenham caído desde então.

O efeito não foi visto apenas no mercado futuro: o boletim Focus, que compila as previsões de economistas e instituições financeiras para os mais importantes indicadores macroeconômicos, mostrou, na sua última versão, que a mediana das projeções para Selic ao final de 2015 subiu de 13,5% para 13,75% ao ano, além de indicar que o mercado espera uma alta de 0,5 ponto percentual na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), agendada para a quarta-feira, dia 3 de junho.

Rigidez e ortodoxia juntas fazem a combinação que torna o novo diretor do BC um forte interlocutor com o mercado financeiro - principalmente em tempos em que a palavra "austeridade" soa como música aos ouvidos dos investidores. É bom sempre ficar atento aos próximos discursos de Awazu.

 

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