Reinado do dólar em xeque: quando o yuan se tornará moeda de reserva?

Analista do Deutsche Bank discute possibilidades e traça um longo caminho até a moeda chinesa virar unanimidade nas reservas

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SÃO PAULO – Mesmo com a intensa depreciação do dólar ao longo da última década, com exceção de momentos de crise econômica, a divisa norte-americana não perdeu seu status de moeda de reserva. É a moeda utilizada em quase todas as transações comerciais e financeiras e utilizada como parte principal das reservas internacionais dos países.

Contudo, ao avançar da década e seguidos déficits em conta corrente* contabilizados, economistas e analistas de mercado discutem a hegemonia da moeda norte-americana nos próximos anos. O crescente endividamento norte-americano combinando com a ascensão da economia chinesa não deixa dúvida que em algum momento a moeda chinesa irá emergir como moeda de reserva. Mas, quando isso poderá acontecer? Questão discutida em detalhes pela equipe do Deutsche Bank.

Cenário atual
No segundo trimestre deste ano, as reservas da China em moeda estrangeira subiram US$ 7,1 bilhões, alcançando impressionantes US$ 2,45 trilhões até o final de junho. No mês passado também, o banco central chinês anunciou que aumentará a flexibilidade do yuan, mas não detalhou o processo, ainda uma incógnita para o mercado.

Não podemos esquecer de falar do PIB (Produto Interno Bruto), um dos principais atrativos da economia chinesa. Entre abril e junho deste ano, a economia chinesa cresceu 10,3% na comparação anual. Apesar da desaceleração na passagem trimestral, não há como negar a força econômica da potência emergente.

Mesmo em meio ao cenário macroeconômico favorável do país e o momento delicado da economia norte-americana, em ritmo de recuperação da crise econômica de 2008, Markus Jaeger, analista do banco alemão, vê um longo caminho a traçar até o yuan se firmar como reserva.

Os desafios da empreitada
Para começar, a China, segundo o analista, precisa transformar radicalmente seu mercado de títulos, tornando-o mais líquido e amparado por leis mais severas, a fim de minimizar os fatores de risco intrínsecos.

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Entretanto, a reformulação não se limita ao mercado financeiro. As inúmeras restrições impostas pelo governo são um grande empecilho para o desenvolvimento e ainda afugentam muitos investidores, o que não credencia o yuan ao lugar do dólar norte-americano.

Para que todas essas limitações sejam sanadas, caso algum dia isso aconteça, Jaeger estipula um prazo até 2030. Ou seja, serão 20 anos de intensas mudanças para que a República Popular da China transforme-se República da China e o yuan vire uma moeda conversível. Utópico?

Vantagens e desvantagens
Caso haja tal revolução, o analista do banco alemão vê vantagens automáticas à China. Ao se tornar referência mundial, o status dará ao país senhoriagem, ou seja, receita em função da emissão de moeda, já que terá, teoricamente, o monopólio para financiar seus gastos sem preocupação com a balança de pagamentos.

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Além da senhoriagem, a vantagem em poder controlar com certa tranquilidade seu nível de endividamento, custos de transação e taxa de juro em função da força da moeda, como o nível de liquidez que irá atrair ao mercado, são atrativos interessantes, afirma o analista.

Em contrapartida, a disparidade entre oferta e demanda em tempos de valorização e desvalorização da moeda, como a pressão internacional em função da importância da moeda são desvantagens inevitáveis à China, avalia Jaeger.

*A conta corrente de um país mede entradas e saídas de caixa junto ao estrangeiro, divididas entre balança comercial (exportações e importações), balança de serviços (fretes, juros, lucros, seguro e turismo) e transferências, excetuando-se a conta capital. Quando as entradas são maiores (menores) que as saídas, temos superávit (déficit) em conta corrente.