Regulação do setor e demanda apertada afetam Souza Cruz

Para analistas, apesar de ser boa pagadora de dividendos, empresa sofre com contrabando, carga de impostos e regulação

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SÃO PAULO – Mesmo sendo uma boa pagadora de dividendos e com uma boa gestão, as ações da Souza Cruz (CRUZ3) não entram na lista de compra de analistas para este ano. O motivo, segundo eles, é a queda da demanda e o setor em que a empresa se insere.

Para a equipe de analistas da Link Investimentos, a perspectiva para 2010 é que as ações da Souza Cruz tenham uma performance pouco abaixo do Ibovespa, o que dá à empresa uma recomendação de “underperform”.

“Não é uma venda pura, porque não acreditamos que ela vai cair, mas apenas que ela vai desempenhar abaixo do mercado”, comenta o time de research. O preço-alvo para dezembro deste ano é de R$ 67,40, com potencial de valorização de 9,32% em relação ao último fechamento (R$ 61,65).

“O problema da empresa é com relação ao seu setor, o setor de cigarro, que é muito regulamentado”, destaca a Link. Os analistas explicam que a dependência de decisões do governo acaba prejudicando as margens da companhia, especialmente em dois momentos: leis antifumo e aumento de impostos.

Impostos
Em abril de 2009, ao mesmo tempo em que diminuía o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre automóveis e eletrodomésticos para conter o impacto da crise econômica mundial, o governo federal elevou a arrecadação por parte dos cigarros com o aumento do IPI sobre o produto.

Com isso, a Souza Cruz se viu obrigada a reajustar seus preços e repassar ao consumidor final o crescimento dos custos. “O resultado foi a queda da demanda no terceiro trimestre de 2009 e a perda de market share da companhia”, explica a equipe da Link.

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Eles contam que no terceiro trimestre a participação da Souza Cruz no mercado foi de 61,6%, com recuperação já no quarto trimestre, quando elevou o indicador para 63%. Em 2008, sua fatia de mercado era de 62,1%, pouco acima dos 62% vistos no final de 2009.

“Ao longo dos anos, ela vinha aumentando seu market share, mas de 2008 para 2009 ela apenas manteve sua participação, principalmente por conta do reajuste de preços”.

Contrabando
Ainda segundo a equipe de analistas da Link, outro fator que vem prejudicando o desempenho da companhia é o mercado ilegal de cigarros no Brasil, especialmente entre aqueles produtos de menor valor, de classes de cigarros mais populares.

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“Por não pagar seus impostos, ele, mercado produtor de cigarros contrabandeados, consegue praticar um preço muito mais barato que o da Souza Cruz”, explicam os analistas, que acrescentam o fato de a Lei Antifumo, que proíbe o cigarro em qualquer estabelecimento fechado, também ter sido aprovada em 2009, trazendo ainda mais estreitamento para o setor.

Resultados
Apesar de, no ano passado, a Lei Antifumo ter contraído cerca de 7,3% do mercado brasileiro de cigarros, de acordo com a Link, a receita líquida de vendas da Souza Cruz subiu 9,3% na comparação anual, somando R$ 5,79 bilhões.

Segundo destaca a equipe da Spinelli Corretora, o segmento de cigarros foi responsável por cerca de 63% da receita líquida da companhia, totalizando R$ 3,64 bilhões, 10,4% superior a 2008.

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“A empresa comercializou 72,8 bilhões de cigarros em 2009, 7,4% a menos que em 2008. Em contrapartida, o preço médio dos cigarros aumentou cerca de 23% como forma de compensar os aumentos do IPI e do PIS/Cofins em cerca de 41%”, fala.

No mesmo balanço, a empresa divulgou crescimento de seu lucro líquido de 2009, que marcou R$ 1,48 bilhão, resultado 18,8% maior em relação ao desempenho visto no ano anterior. O Ebitda (geração operacional de caixa) do exercício atingiu R$ 2,03 bilhões (+16,9%).

Na avaliação da corretora Spinelli, os dados apresentados vieram abaixo do esperado, sendo que o impactado negativo se deve ao aumento das despesas, que subiram 10,2% entre os dois anos, ficando em R$ 1,55 bilhão.

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“Vale destacar que o fraco crescimento do mercado de cigarros no País e o aumento do contrabando e da produção ilegal, devido ao aumento de impostos e preços, comprometem o desempenho da empresa”, pontua a equipe da Spinelli, que ainda não possui preço-alvo e recomendação para as ações.

Papel
Do lado positivo, o time de análise da Link vê a demanda constante do setor como um fator a favor da empresa. “Por ser um papel defensivo, com uma forte geração de caixa, uma demanda inelástica e sem necessidade de grandes investimentos, já que ela tem uma operação bem consolidada, a Souza Cruz consegue ser uma boa pagadora de dividendos”, explica.

Os analistas comentam que no momento mais turbulento da crise a empresa conseguiu se manter melhor posicionada em relação a empresas que não tão sólidas ou que dependem mais do setor externo. “Mais de 60% da receita da Souza Cruz vem da divisão de cigarros que é basicamente mercado interno”, fala a Link.

Segundo dados de 2008, além dos negócios com cigarros, a empresa também possui 24% de sua receita advinda da exportação de fumo, que é praticamente toda por sua própria holding, a British American Tobacco.

“Além disso, ela também tem outra fonte de lucro, com a distribuição de cartões telefônicos de operadoras em alguns estados brasileiros, aproveitando de sua boa estrutura logística”, acrescentam os analistas. Este negócio está incluso nos 14% restantes de sua fonte de receita.

Perspectivas
Para a equipe da Link, apesar de a perspectiva da demanda de cigarros para 2010 ser de queda, essa diminuição vai ser menor que em 2009. “Não tendo nenhuma alteração do cenário atual – com elevação de impostos, por exemplo, e reajustes, a demanda deve continuar caindo, mas a taxas menores, em torno de 2% no ano”.

Para a corretora isso acontece porque grande parte da reação dos consumidores para com a Lei Antifumo e os reajustes de preços se deu no ano passado. Os analistas do Citigroup, em seu relatório de análise do resultado da companhia, destacaram inclusive a linha “a boa notícia é que 2009 acabou”.

Contudo, para a Link isso não significa que os papéis da companhia também devam melhorar de recomendação. “Como temos uma previsão otimista para o mercado acionário em 2010, faria mais sentido para o investidor ir para um papel não tão defensivo para tentar pegar esse movimento de recuperação maior”, destacam.

Eles acreditam que as ações CRUZ3 não seriam uma boa opção para este ano e que no mercado há opções melhores para o investidor comprar, como os da Localiza (RENT3), que são considerados os top pick do setor de consumo na visão da Link.

“Eles passam em um setor muito regulado e com uma demanda em constante queda. Quanto à perspectiva para a performance dela para este ano e os próximos anos, nós não vemos muito melhora neste setor não”, conclui.

Já os analistas da Coinvalores reiteram que este ano o mercado deverá ficar de olho no comércio ilegal. “No conjunto dos aspectos comentados, acreditamos que o crescimento da carga tributária poderá elevar a atratividade do comércio ilegal no Brasil prejudicando o volume de vendas da companhia”.

“Desta forma, acreditamos que para os próximos trimestres a dificuldade no repasse de preços deve aumentar”, completam. 

Souza Cruz (CRUZ3)
Corretora Recomendação Preço-Alvo
Link Investimentos Underperform R$ 67,40
Citigroup Compra R$ 72,00
Coinvalores Manter R$ 72,00