Recuperação do petróleo pode beneficiar ações latinas duplamente; entenda por quê

O banco projeta estabilização do Brent no curto prazo e avanço gradual até o fim do ano

Felipe Moreira

Ativos mencionados na matéria

Imagem mostra uma plataforma de petróleo.
Imagem mostra uma plataforma de petróleo.

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O Bradesco BBI avalia que uma recuperação gradual dos preços do petróleo pode beneficiar a América Latina em duas frentes: pelo impacto positivo sobre a macroeconomia e pela elevada exposição das bolsas regionais ao setor de energia. Diante desse cenário, o banco adicionou a PRIO (PRIO3) ao seu portfólio modelo para a América Latina, citando alta sensibilidade do lucro ao Brent, crescimento robusto da produção e custos baixos.

O banco projeta estabilização do Brent no curto prazo e avanço gradual até o fim do ano, com possibilidade de aceleração caso haja revisões para cima na demanda global, restrições à produção de xisto nos EUA ou uma rotação mais forte para ativos cíclicos e de valor. Apesar do excesso de oferta no mercado global, liderado por Brasil, Guiana e Argentina fora da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), o setor de energia segue subponderado nos índices e negociando a múltiplos deprimidos, o que, na visão da casa, cria oportunidades.

América Latina é uma das regiões mais sensíveis à alta do petróleo

O BBI destaca que o Brasil, Colômbia e Argentina têm forte exposição tanto via exportações e contas públicas quanto pela participação elevada do setor de energia nos índices acionários.

Oportunidade com segurança!

No Brasil, empresas de exploração e produção como PRIO, Brava (BRAV3) e PetroReconcavo (RECV3) seriam as maiores beneficiadas, com impacto de até 91% no lucro por ação para cada alta de US$ 10 por barril no Brent.

No agronegócio, São Martinho (SMTO3) e Jalles Machado (JALL3) também ganham com preços mais altos, enquanto companhias aéreas e empresas intensivas em insumos, como Alpargatas (ALPA4) e cimenteiras, tendem a sofrer.

Impacto econômico

Do ponto de vista macroeconômico, o relatório mostra que preços mais altos do petróleo ajudam as contas externas e fiscais do Brasil, mas têm efeito limitado sobre o PIB e pressionam a inflação.

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Na Argentina, a principal consequência é a capacidade de acumular reservas, enquanto na Colômbia a alta do petróleo tem impacto expressivo sobre atividade, arrecadação e exportações. Já México e Chile aparecem como perdedores líquidos em cenários de petróleo mais caro, por serem importadores de combustíveis.

No cenário fundamental, o Bradesco BBI estima que o mercado seguirá com excesso de oferta em 2026, mas vê riscos assimétricos para cima por fatores geopolíticos ligados ao Irã e à Venezuela. A casa trabalha com preços médios do Brent de US$ 63 em 2026 e US$ 65 em 2027. Mesmo assim, mantém postura cautelosa com Petrobras e Ecopetrol, citando potencial limitado de valorização após a alta recente das ações.

No portfólio recomendado, a PRIO passa a ser prioridade. Segundo o banco, a companhia combina elevada alavancagem operacional ao Brent, produção em forte expansão — estimada em 173 mil barris por dia em 2026 — e o menor custo de manutenção por barril entre as petroleiras da região. A ação negocia a cerca de 4 vezes EV/Ebitda e substitui a Suzano (SUZB3) na parcela defensiva dolarizada do portfólio brasileiro.

Setor aéreo

O BBI avalia que os preços do petróleo têm um efeito misto sob as empresas sob sua cobertura do setor de Transportes. As companhias aéreas são as mais impactadas, já que o combustível representa cerca de 30% da base de custos total.

No geral, o banco comenta que uma variação de 15% nos preços do Brent impactando o LPA (Lucro por Ação) estimado para 2026 em 13%, 7% e aproximadamente 53%, respectivamente, para LATAM, COPA e Volaris. Assumimos que as companhias aéreas repassam cerca de 50% do aumento de custos. No caso da Volaris, devido à pressão sobre o LPA, a sensibilidade é maior. Além disso, isso introduz pressão sobre os preços, à medida que as empresas tentam repassar os valores mais altos/baixos para os rendimentos.

Para o segmento de rodovias com pedágio, segundo o BBI, os impactos são marginais, visto que as tarifas de pedágio são ajustadas anualmente pela inflação, mas o tráfego tende a multiplicar o crescimento do PIB. Nos demais segmentos, o banco espera que o impacto seja pequeno, já que os ajustes de PIB/inflação têm um impacto relativamente pequeno no LPA (Lucro por Ação), devido à sua repasse contratual ou ao impacto compensatório nas linhas de receita e custo.

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A maior exposição do lucro por ação (EPS) da Simpar (SIMH3) é uma função de sua baixa margem de lucro e, portanto, de sua altíssima sensibilidade a qualquer mudança nas perspectivas – neste caso, o aumento indireto da inflação e do PIB decorrente dos preços mais altos do petróleo.

Mineração e celulose

Para mineradoras e produtoras de celulose, as flutuações do preço do petróleo têm impacto direto sobre os custos, já que valores mais elevados encarecem os fretes tanto na logística de entrada quanto na de saída. O relatório também aponta a existência de um efeito indireto relevante — embora mais difícil de mensurar — sobre as receitas.

Segundo o BBI, variações no petróleo influenciam os custos globais de produção da maioria das commodities. Quando o barril sobe ou cai, as curvas de custo dos produtores se deslocam, o que tende a se refletir nos preços finais dessas matérias-primas.

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No caso do minério de ferro, por exemplo, a estimativa é que uma alta de US$ 10 por barril eleve os custos dos produtores globais e pressione os preços da commodity para cima. Assim, o impacto negativo do aumento dos fretes ou dos custos de mineração para um produtor tende a ser parcialmente compensado por preços mais elevados do minério.

Com isso, o estudo conclui que o efeito líquido para as companhias analisadas pode ser menor do que o sugerido isoladamente pelos números de queda de 3% a 4% apresentados na tabela de sensibilidade.

Imobiliário e cimento

O BBI destaca que o setor de cimento, que consome muita energia, é o mais impactado pelas variações nos preços da energia. Eletricidade e combustível representam cerca de 16% dos custos da Cemex. Ao assumir 20% disso está relacionado aos preços dos combustíveis (e o restante, principalmente carvão), então cada variação de 15% nos preços do Brent leva a uma variação de 3% em nossas estimativas de LPA. Em perpetuidade, o preço-alvo mudaria em aproximadamente US$ 0,20/CX (cerca de 2% do nosso preço-alvo) para cada variação de 15% nos preços do petróleo a longo prazo.

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Alpargatas (ALPA4)

O BBI comenta que a única empresa com exposição mais direta aos preços do petróleo é a Alpargatas, visto que sua principal matéria-prima é a borracha sintética (cerca de 40% do custo dos produtos vendidos), que está correlacionada aos preços do petróleo. Considerando um aumento de 15% tanto nos preços do petróleo quanto nos da borracha sintética, e sem aumentos de preços, o banco estima um impacto no lucro líquido de aproximadamente 20% por ação, que poderia ser compensado por um aumento de 5% nos preços.

Utilidades

De forma geral, o banco considera que o impacto dos preços do petróleo para as empresas de serviços públicos é marginal. Existe algum impacto através do custo variável (combustível) da geração de energia para as usinas termelétricas (preços do diesel, atrelados ao petróleo).

Os preços da eletricidade no Brasil têm subido devido a uma combinação de fatores, como a piora da hidrologia e uma maior percepção de risco quanto à confiabilidade do fornecimento em função da redução da geração eólica e solar. As variações nos preços do diesel têm tido um impacto muito menor.

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Finanças

Para BBI, o impacto no setor financeiro é indireto, por meio da transferência para a inflação e as taxas de juros. Por exemplo, as ações mais beneficiadas pela queda das taxas de juros incluem as das empresas adquirentes Stone e Pagseguro, as das empresas do mercado de capitais XP (XPBR31), B3 (B3SA3) e BTG (BPAC11), e o banco Santander (SANB11).

Enquanto isso, os mais prejudicados pelas taxas de juros mais baixas (ou beneficiados por taxas mais altas) incluem as seguradoras Caixa Seguridade (CXSE3), BB Seguridade (BBSE3) e Banco do Brasil (BBAS3).

Saúde e Educação

De forma geral, o BBI avalia que os impactos provavelmente serão quase insignificantes para as áreas que abrangemos. As variações nos preços dos combustíveis devem ter impactos mais diretos em farmácias e no CM Hospitalar, devido aos custos relacionados ao transporte de produtos.

De uma perspectiva indireta, os negócios voltados para o consumidor devem ser mais sensíveis às mudanças na inflação, principalmente farmácias e instituições de ensino, considerando nossa área de cobertura.

Telecomunicações e bens de capital

Segundo BBI, não há impacto direto significativo dos preços do petróleo nos lucros das ações dos setores de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações (TMT) ou de Bens de Capital.

Embora a queda nos preços seja potencialmente positiva para as vendas de ônibus e caminhões, esse efeito não é claramente mensurável e está sujeito a muitos outros impactos indiretos, como a redução dos preços do etanol, que poderia diminuir os volumes agrícolas, por exemplo. Isso torna as variações nos preços do petróleo praticamente neutras para nossa análise setorial.