Recomendações de bancos estrangeiros: entenda a polêmica

Conclua se é certo ou não os bancos estrangeiros alterarem suas recomendações de Brasil, principalmente perto de eleições

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SÃO PAULO – Muito tem se falado nos últimos dias sobre os comentários e mudanças de recomendação de alguns bancos estrangeiros em relação ao Brasil. A questão certamente tomou uma proporção muito maior do que o esperado, tanto em função da postura inconsistente de algumas instituições quanto da falta de um entendimento maior sobre o que estas recomendações significam.

Bancos não têm posição única

Em primeiro lugar é preciso entender como funciona o mecanismo de análise dentro dos bancos internacionais. Estas instituições, em função de seu tamanho e área de atuação, têm diversas áreas analisando um país ou ativos, como ações ou títulos de renda fixa, emitidos pelo governo ou empresas do país em questão.

Os bancos analisam o desempenho e as perspectivas da economia não somente para uso interno, ou seja, para os profissionais do banco cujas atividades dependem do que acontece na economia, como as áreas de tesouraria, crédito, etc. Muitos bancos, principalmente os chamados bancos de investimento, atendem também a clientes, tais como administradores de recursos, fundos de pensão, seguradoras e outros, que investem nos ativos analisados.

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Praticamente todos os bancos estrangeiros com forte presença no Brasil têm um economista chefe, que é o responsável pela análise macroeconômica do Brasil, ou seja, aquele que acompanha mais de perto a situação da economia brasileira. Este profissional presta tanto serviços internos no banco, como, por exemplo, para as áreas de tesouraria, como também para cliente do banco, geralmente grandes investidores.

Em geral não cabe ao economista avaliar se a melhora ou piora da situação econômica está refletida ou não no preço dos ativos, tanto de renda fixa como variável. A visão deste profissional é muito mais no sentido de analisar se está “bom” ou “ruim” do que se está “caro” ou “barato”. A avaliação do que é “caro” ou “barato” é feita por outros profissionais, os chamados analistas de mercado, cuja atuação vamos discutir à seguir.

Recomendações são em geral produzidas por áreas independentes

Além dos economistas, outros profissionais dentro das instituições financeiras também analisam a situação e perspectivas da economia. Por exemplo, podemos isolar a área que lida com a venda de títulos de renda fixa. Em geral, os bancos de investimento têm uma área exclusivamente para este “produto”, ou seja, especializada em discutir e analisar quais ativos de renda valem a pena.

Estes profissionais trabalham tanto para áreas internas, ou seja, comprando ou vendendo títulos para o banco, com o objetivo de aumentar a rentabilidade da instituição, como também para clientes externos do banco. O trabalho básico é determinar quais ativos valem a pena, tanto para o banco como para os clientes. Este trabalho envolve analisar muitos ativos e é neste processo que as recomendações aparecem.

Estes grupos em geral trabalham de forma relativamente independente, já que também atendem a clientes externos. Isso significa que eles não podem simplesmente recomendar um ativo em função das atividades do banco no país, pois com isso perdem credibilidade junto aos clientes. Para estes profissionais, dizer que o Brasil é melhor recomendação só por que o banco tem grandes atividades aqui representaria adotar uma postura parcial, pois deixariam de ser objetivos e acabariam direcionando seus clientes a realizar um investimento que talvez não fosse lucrativo.

Com funcionam as recomendações

Entre os ativos analisados estão os títulos da dívida externa brasileira, principalmente na forma de bônus globais e Brady bonds. Estes papéis nada mais são do que obrigações do governo brasileiro no exterior, nos quais o governo obtém recursos junto ao mercado e paga juros por isso. Assim como o Brasil, vários países também adotam esta estratégia, de forma a complementar a captação de recursos que é realizada também no mercado doméstico.

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Ao analisar os títulos brasileiros, os analistas se focam na combinação entre risco ou retorno, ou seja, quanto os papéis pagam em relação ao risco assumido. Portanto, mudanças em qualquer uma destas variáveis podem levar a uma alteração na recomendação. Em geral, estas recomendações caem em três classes: vender, manter ou comprar.

O que aconteceu nos últimos meses com os papéis brasileiros ilustra bem este processo. Como conseqüência dos problemas na Argentina, os preços dos títulos brasileiros caíram muito no ano passado. Com isso, em função dos menores preços e da percepção de que o Brasil havia se “descolado” da Argentina, muitos bancos elevaram a recomendação dos títulos brasileiros. O que eles queriam dizer é que os ativos brasileiros estavam “baratos”, ou seja, a relação entre risco e retorno não era adequada, de acordo com suas análises. Daí muitos terem aumentado a classificação do Brasil para “compra”.

O que aconteceu nas últimas semanas foi basicamente o contrário. Além dos preços dos títulos terem atingido patamares elevados, a variável risco aumentou para os bancos, com o crescimento da candidatura Lula e com as dificuldades na aprovação da CPMF. Assim, muitos bancos reduziram a classificação dos papéis brasileiros de “compra” para “manter”, enquanto outros chegaram à categoria “vender”. É isso que chamamos de rebaixamento de classificação.

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O mecanismo, deste modo, é bastante simples. Os analistas seguem o mercado e recomendam a compra de ativos nos quais acreditam que haja potencial, geralmente de curto prazo, de alta. Caso contrário, eles reduzem suas recomendações. No fundo é o mesmo que um analista de ações faz no mercado brasileiro, quando ele coloca uma recomendação de venda em uma ação do setor elétrico, por exemplo, pois acha que os papéis desde setor estão caros ou porque o risco da empresa aumentou.

Bancos pecam por falta de objetividade

Porém, além da falta de entendimento dos mecanismos de funcionamento das recomendações por parte do público em geral, muitos bancos adotam posturas inconsistentes. O grande problema é o conflito entre seus interesses próprios e de clientes. Além disso, infelizmente algumas instituições utilizam estes relatórios para ganhar mais no mercado, tomando posições para depois comprar ou vender após a divulgação das análises.

O conflito entre interesses próprios e de clientes é mais sério, mas difícil de ser eliminado. Com a consolidação do sistema financeiro mundial, as grandes instituições têm áreas internas com objetivos diferentes. Por exemplo, o gigante norte-americano Citigroup tem atividades de banco comercial no Brasil através do Citibank e também de bancos de investimento, através de sua subsidiária Salomon Smith Barney (SSB).

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Ao mesmo tempo em que é natural para o analista do SSB recomendar a compra, venda, ou manutenção de ativos brasileiros, pois este é o seu trabalho, pode ser difícil para os altos executivos do banco no Brasil explicar porque a instituição pode, hipoteticamente, estar investindo mais na sua subsidiária ao mesmo tempo em que seu analista mandar “vender” ativos brasileiros.

Esta é uma questão difícil, mas que vai continuar gerando controvérsias. Cabe aos bancos adotarem uma postura de bom senso, ao mesmo tempo em que o sensacionalismo com os anúncios de bancos estrangeiros, principalmente em anos de eleição, também deve diminuir.