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Entrevista

Recessão deste ano deve continuar no próximo, diz Martin Wolf

Comentarista-chefe de economia do Financial Times diz que crise é pior do que a de 2008 e que atuais lideranças globais são menos capazes

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O economista e colunista do jornal britânico Financial Times, Martin Wolf (Sérgio Neves/Estadão Conteúdo)

A crise econômica decorrente da pandemia do coronavírus é mais grave que a de 2008, deve durar dois anos e ter efeitos profundos de longo prazo, segundo o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, Martin Wolf.

Em entrevista, Wolf afirma estar preocupado com o Brasil e com outros países emergentes, que terão dificuldade para aumentar os gastos para tentar reduzir os efeitos da recessão que está por vir.

Diz ainda que a atuação dos principais líderes globais é inferior à de 2008, quando os países se uniram para enfrentar o problema. “Na crise financeira, tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Essa imagem é muito diferente da que temos hoje. Então, é fácil tudo dar muito errado.”

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Para Wolf, dada a escassez de recursos, a prioridade no Brasil tem de ser a população mais carente. “Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um.” A seguir, trechos da entrevista:

Que motivos levam o sr. a acreditar que essa crise será pior que a de 2008?

As medidas que estão sendo adotadas para controlar a epidemia vão fechar grande parte da economia. Vimos isso na China. Ninguém sabe ainda o que aconteceu lá no primeiro trimestre, mas deve haver uma contração muito grande do PIB e, provavelmente, no segundo trimestre também. A Europa e os Estados Unidos estão fazendo o mesmo: fechando lojas, restaurantes, entretenimento. Teremos uma interrupção massiva de oferta.

Depois, trabalhadores não serão pagos, empresas ficarão sem receita e vão demitir funcionários. Muitas podem ir à falência. Tudo isso não importaria se voltássemos ao normal em dois meses. Mas não parece que isso vai acontecer. A doença será controlada enquanto ninguém está tendo contato com os outros.

Quando as economias forem reabertas, é esperado que a transmissão volte. É o que está acontecendo na China. Se isso acontecer, teremos uma nova fase de fechamento da economia. Esse processo de abrir e fechar a economia pode continuar até o ano que vem. Pode continuar até que haja uma cura, e os especialistas parecem concordar que não haverá uma cura que possa ser disponibilizada em escala antes do fim do ano que vem. Até lá, muitos negócios vão desaparecer. Esse vai ser um choque de oferta gigantesco, com consequências graves de solvência e de demanda.

Então, é provável que tenhamos uma recessão neste ano e que isso prossiga em 2021. Por isso, acho razoável assumir que esse choque econômico pode ser pior que a crise financeira de 2008. Também pode ter efeitos de mais longo prazo, porque haverá uma grande interrupção de comércio e viagens. Uma consequência pode ser que a estrutura da cadeia de fornecimento e da economia global sejam transformadas permanentemente.

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Mas, claro, tudo isso pode ser muito pessimista e o vírus pode acabar sendo controlado no verão (do Hemisfério Norte). Aí, seria algo menos grave. Mas, neste momento, me parece mais provável que haja uma recessão grave.

Em sua última coluna, o sr. escreveu que precisaremos de líderes fortes e inteligentes para lidar com essa crise. As principais lideranças globais são capacitadas para isso?

O problema é que, ao contrário da crise financeira, as principais economias do mundo hoje são incapazes de colaborar umas com as outras. Trump é um ignorante nacionalista que não entende como lidar com esse tipo de problema. Essa questão está completamente além dele intelectualmente. Por sorte, tem uma ou duas pessoas competentes no seu governo. O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) é eficiente e o Congresso americano está fazendo alguma coisa.

Os europeus estão desmoronando. Muitos países europeus estão respondendo de modo nacionalista, sem solidariedade. O Japão está lidando bem. Isso porque já teve a experiência com a Sars antes. Mas, se olharmos para a Europa e para os EUA, é assustador. Na crise financeira (de 2008), tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Eles produziram um plano comum que funcionou bem para o setor financeiro e em termos de política fiscal. A recuperação pode não ter sido como se esperava, mas havia qualidade de lideranças. Houve muita colaboração nos primeiros encontros do G-20. Essa imagem é muito diferente da que temos hoje.

Então, é fácil tudo dar muito errado. Não sei como essas pessoas vão cooperar. Já pararam de comercializar itens vitais, como ventiladores e máscaras.

O sr. acredita que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está preparado para o desafio?

Não conheço pessoalmente o sr. Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema direita, ignorante e preconceituoso. Como Trump, mas um pouco pior. Apesar disso, sua equipe econômica parece competente e inteligente. São provavelmente muito mais Chicago do que preferiria. Mas as reformas que estão fazendo eram necessárias.

Como eles vão funcionar nessa crise, dado que o Brasil não está numa posição econômica forte e não pode aumentar seus gastos facilmente, realmente não sei. Será um desafio grande para o Brasil. É preciso uma capacidade do governo para gastar mais e rapidamente, o que é difícil para o Brasil, que já está altamente endividado. Vai ser um desafio grande para o Brasil e para muitos emergentes.

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O sr. mencionou que o Brasil já está bastante endividado. E o sr. também tinha escrito que os governos deveriam prover solvência ao sistema. Se o Brasil não pode fazer isso, como fica a situação do País?

Vai ser difícil para o Brasil conseguir financiamento em moeda estrangeira. Talvez a questão seja quanto o governo conseguirá emprestar domesticamente. Provavelmente, precisará da ajuda do Banco Central. Mas, dada a história brasileira de inflação e altas taxas de juros, vai ser muito difícil fazer isso sem criar pânico no mercado financeiro. O Brasil terá de realocar gastos existentes, o que pode ser difícil politicamente. Politicamente, é quase impossível mudar os gastos nessa situação. Mas essa parece ser a coisa lógica a se fazer. Gastar com o que realmente é prioridade.

Mas, para ser honesto, para um país como o Brasil responder de forma efetiva a essa emergência, vai ser um desafio gigantesco. Se você comparar o Brasil com a China, a China obviamente tem vantagens enormes em termos de recursos financeiros e de poder de organização e controle social. A maioria dos países emergentes não tem esses ativos. Os próximos dois anos vão ser muito difíceis para os mercados emergentes.

Uma das medidas que o governo brasileiro anunciou foi a autorização para empresas reduzirem jornadas e salários dos trabalhadores. É uma boa opção?

Na Alemanha, que é um país rico, o governo financia o trabalhador de meio período. O governo diz para a empresa reduzir o número de horas que o funcionário trabalha e cobre a diferença de salário. Mas o governo alemão tem solvência, pode emprestar a taxas de juros negativas. Se o governo brasileiro não tem condições financeiras de fazer isso, então o que está sugerindo me parece fazer sentido. Caso contrário, as pessoas ficarão desempregadas e em um problema terrível. Acho que não é uma má ideia se for algo organizado. Para mim, o problema no Brasil é que a maioria das pessoas não trabalha em uma grande empresa. A maioria tem empregos informais. O que o governo vai fazer para ajudar essas pessoas?

Vai dar R$ 200 por pessoa por mês nos próximos três meses.

Não parece muito. Isso é suficiente para viver no Brasil?

Não.

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O problema é que, em um país pobre como o Brasil, o governo não tem os recursos para proteger as pessoas. No Brasil, a grande questão não é salvar o setor organizado, é proteger a população. É preciso encontrar um jeito que possibilite que as pessoas sobrevivam. Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um.

O sr. já disse também que estamos em uma situação de guerra e que os países devem gastar o quanto for preciso para incentivar a economia. Eles estão agindo nessa direção?

Os Estados Unidos estão fazendo isso. Eu não ficaria surpreso se alguns países tiverem um déficit neste ano e no próximo de 10% do PIB ou mais. Não estou prevendo isso, mas era onde estávamos na crise financeira. Os principais países desenvolvidos, com exceção da Itália, podem fazer isso de forma fácil sem gerar grandes problemas. Se você empresta na sua própria moeda, tem o Banco Central para ajudar e com as taxas de juros da dívida do governo próximas a zero, que é basicamente onde estão agora, não é problema aumentar a dívida. O problema fiscal vai ser negligenciável. Em muitos países emergentes, como discutimos antes, o problema é que vai ser mais difícil conseguir dinheiro no mercado global por causa da aversão ao risco.

Então, os brasileiros devem se preparar para uma recessão profunda neste e no próximo ano?

A economia global vai ter uma desaceleração massiva, possivelmente uma recessão. O Brasil não é superdependente dos mercados globais como outros emergentes, mas obviamente isso vai afetar os negócios brasileiros significativamente. Empresas importantes exportam e têm ativos no exterior. Deve haver um efeito deflacionário. As condições no mercado de crédito para o Brasil ficarão muito apertadas e as empresas brasileiras também terão mais dificuldade para emprestar nos mercados globais. Essa é uma segunda razão para haver recessão. Outra é que, aí, pessoas também vão ficar em casa e haverá um choque de oferta. Esperaria que a economia desacelerasse consideravelmente, e já está em uma taxa de crescimento muito lenta. Se o País for muito bem mesmo, o PIB será próximo de zero. Mas ficarei incrivelmente surpreso se não for negativo.

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