Análise do Credit

Recessão até 2016? O problema do Brasil é muito mais desafiador do que isso

País enfrenta uma grande trava para crescer, conforme destaca o Credit Suisse; o que impede a retomada significativa da economia é a baixa produtividade

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SÃO PAULO – Se, no curto prazo, o Credit Suisse aponta que as perspectivas são sombrias para o crescimento econômico e prevê o primeiro biênio de recessão para a economia brasileira desde 1930-1931 em 2015-2016, as perspectivas para os anos que se seguirão também não são nada positivas. De acordo com a equipe econômica do banco, o PIB do Brasil dificilmente superará 2% por um longo período. 

E uma das travas que impede a retomada significativa da economia é a baixa produtividade. Os economistas destacam, em especial, a produtividade de um trabalhador agropecuário é 36% inferior à produtividade média da economia. 

Já o setor de serviços de alto desempenho é o mais produtivo, seguido pela indústria. Porém, a distância vem diminuindo: o crescimento da produtividade na agricultura tem sido muito expressivo nos últimos anos, diminuindo a distância entre a produtividade do trabalhador na agropecuária e nos demais setores da economia. 

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Para os economistas, o menor ganho de produtividade advém da realocação da mão de obra. A transferência de trabalhadores da agricultura para setores mais produtivos, como indústria e serviços de maior desempenho, foi uma das principais explicações para a alta da produtividade média do trabalhador brasileiro nos últimos anos.

“Esse efeito tende a ser menor nos próximos anos, em função do elevado deslocamento de mão de obra da agropecuária para os serviços de baixo desempenho e do aumento da produtividade da agricultura para um patamar próximo da produtividade dos serviços de baixo desempenho”, avaliam os economistas.

 E, para os economistas do Credit, a retomada expressiva do PIB – definida por eles como a soma da expansão da produtividade do trabalho, da dinâmica dos fatores conjunturais do mercado de trabalho e do crescimento demográfico – nos próximos trimestres requer aceleração da produtividade.

O Credit ressalta que a expansão da produtividade entre 2004 e 2014 explicou quase 40% do crescimento do valor adicionado, que foi de 3,4% ao ano na média do período. A contribuição dos fatores demográficos recuou muito, de 2,5 pontos percentuais entre 2004 e 2006 para 1,5 ponto percentual nos últimos anos.

Sem notícias positivas
Em meio a esse ambiente, o Credit avalia como baixa a probabilidade de que o crescimento do PIB supere 2,0% por um período prolongado.

A menor contribuição dos fatores demográficos para a expansão da atividade nos próximos anos sugere que a produtividade da mão de obra precisaria se acelerar muito para que o crescimento do PIB retornasse para o patamar de 2,0%, avaliam.

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E dois fatores principais dificultam essa recuperação: (i) o peso dos serviços de baixo de desempenho no mercado de trabalho aumentou muito, atingindo quase 60% mais recentemente; e (ii) o espaço para ganhos de produtividade advindos da realocação do emprego diminuiu muito. Esse último fator é explicado pela menor participação da agropecuária no total de empregados e pela convergência da produtividade agrícola para o patamar dos demais setores.

“Nesse sentido, é pouco provável que ocorra uma alta sustentável do crescimento do PIB para o nível que seria compatível com a redução do risco fiscal no curto prazo”, destacam.

Apesar da avaliação de que uma retomada seria explicada pelos efeitos de uma depreciação cambial, em termos reais, é pouco provável a manutenção de uma alta do PIB muito acima de 2,0%, em um ambiente de menor contribuição de fatores de ordem demográfica, avaliam os economistas do Credit. “A retomada mais expressiva da atividade exigiria, por exemplo, medidas de política econômica que envolvessem ganhos de produtividade em todos os setores de atividade, estimulando a realocação da mão de obra para setores mais produtivos”.