Real fraco é bom? CNBC discorda e aponta benefícios de um câmbio forte

Michael Ivanovitch, economista com passagens pela OCDE e Fed de Nova York, diz que valorização da moeda ajudaria a controlar a inflação

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SÃO PAULO – Em meio a uma “guerra cambial”, termo cunhado pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, o dólar comercial disparou 9,4% sobre o real em 2012. Mas, para Michael Ivanovitch, presidente da empresa de pesquisa MSI Global e com passagens pela OCDE (Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico) e pelo Federal Reserve de Nova York, o Brasil deveria, pelo contrário, valorizar o real.

Em artigo publicado pela CNBC, o economista diz que entre os maiores benefícios estaria um melhor controle da inflação. Quanto mais caro o dólar, mais caro são os produtos importados e os preços repassados ao consumidor final. O mercado projeta um IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de 5,7% em 2012 e de 5,5% neste ano, bem acima do centro da meta do governo, de 4,5%, mostra o Relatório Focus publicado nesta manhã.

“O que acontecerá com a inflação quando o impacto total da desvalorização se refletir nos preços domésticos, e quando a economia começar a acelerar nos próximos meses como resultado dos pacotes de estímulos, grandes projetos de infraestrutura (para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016) e custos de empréstimos em mínimas históricas?”, questiona o economista.

Uma moeda mais forte também melhoria os termos de troca do país, uma vez que a demanda externa pelos produtos brasileiros – alimentos, energia e matéria prima – é menos sensível às mudanças nos preços. Ele lembra que os preços dos alimentos avançaram 9% no último ano, contra a alta de 4% nos produtos industriais. Entretanto, vale lembrar que estes possuem um valor agregado mais alto.

Ivanovitch diz que seria mais benéfico para o setor industrial se o país se esforçasse em reduzir os custos de produção, como trabalhar para aumentar os ganhos de produtividade, impor menos impostos, menos exigências regulatórias e promover a inovação tecnológica. “Assim como a Embraer (EMBR3) fez.”

“Casos de desequilíbrios constantes entre demanda e oferta de uma moeda em particular são sempre sinais de uma necessidade de mudança de política (…) Apenas uma mudança de política apropriada pode restaurar a estabilidade do câmbio”, complementa.

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Dilma em conversas com líderes empresariais
Mas, para suportar um câmbio mais forte, o país precisaria aprender a conviver com esse novo cenário. Nesse cenário, um crescimento balanceado, sem inflação, seria possível com reformas estruturais, de modo a criar um mercado de trabalho e de produtos mais competitivos, e melhorando a infraestrutura.

O economista norte-americano lembra que algumas dessas medidas já vêm sendo tomadas pela presidente. Ele diz que ela continua a se consultar com líderes empresariais sobre as mudanças que gostariam de ver, e crava ser possível que mais anúncios para aumentar a eficiência econômica ocorram em breve.

Ele prega, ainda, uma aproximação mais forte do Brasil com a China e a África. “Uma linha de swap cambial de US$ 30 bilhões com a China irá facilitar o comércio e aliviar problemas nas relações comerciais”, escreve.

O governo brasileiro diz que é preciso desvalorizar a moeda para manter a competitividade das exportações, ao compensar as políticas monetárias expansionistas nos EUA e na Europa, que são responsáveis pelo “tsunami monetário”, isso é, uma grande injeção de recursos na economia, desvalorizando as suas próprias moedas. Esses países, por sua vez, se justificam ao afirmarem que as medidas são necessárias para evitar ou sair de uma recessão.