Câmbio

Real é a 5ª pior moeda do mundo em 2021 e Copom pode aliviar pressão, mas governo precisa colaborar, dizem analistas

Aperto monetário é visto como algo que pode aliviar as pressões cambiais, mas não há muito que o BC possa fazer sozinho

SÃO PAULO – O real aparece em quinto lugar no ranking das moedas de pior desempenho do mundo na comparação com o dólar, de acordo com levantamento da Austin Rating elaborado pelo economista-chefe Alex Agostini.

A queda da divisa brasileira no acumulado de 2021 é de 7%, considerando a cotação do dólar PTAX até o fechamento da última terça-feira (16), e perdendo apenas para as moedas do Sudão (nova libra sudanesa, com desvalorização de 85,3%), da Líbia (dinar, com baixa de 70%), da Venezuela (bolívar, com baixa de 40,4%) e da Argentina (peso argentino, em queda de 7,7%).

Na última terça, a cotação da PTAX fechou a R$ 5,5851, mas chegou a superar os R$ 5,80 na semana passada, também repercutindo o turbulento noticiário político.

Assim, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (17) é ansiosamente aguardada porque um aumento na taxa básica de juros, Selic, pode levar mais investidores estrangeiros a colocarem dinheiro aqui.

É o fenômeno conhecido como carry trade, que ocorre com a combinação entre fazer uma posição vendida em moeda com taxa de juros mais baixa e outra comprada em moeda com juro mais alto. Além da diferença entre os juros, o investidor também lucra com a variação cambial implícita. Claramente, quanto maior for a diferença entre as taxas, mais rentável fica a operação.

Contudo, para que haja um movimento mais forte de valorização da divisa brasileira, outras variáveis serão acompanhadas de perto pelos investidores – principalmente o fiscal.

O que esperar para o Copom: alta de juros é dada como certa

Os analistas, em geral, esperam por um aumento de juros de 0,5 ponto percentual da Selic segundo dados da Refinitiv, mas há até quem só enxergue espaço para manutenção das taxas (com sinalização clara de que o ciclo de aperto monetário começará na reunião seguinte) e também quem veja como ideal uma elevação de 0,75 p.p..

José Faria Jr., diretor da Wagner Investimentos, faz parte do segundo grupo. Para ele, o BC precisa se movimentar para conter o avanço da inflação, que já chegou a 5,2% em 12 meses segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro. E a única forma de fazer isso, considerando que as principais responsáveis por esse aumento na inflação são as commodities, é atuando de forma a apreciar o real ante o dólar. Faria Jr. tem previsão de dólar a R$ 5, apontando que não mudará a projeção até ter mais certeza sobre o cenário.

“Pela primeira vez na história, a nossa inflação não está vindo dos serviços, que ainda estão sofrendo muito por conta da pandemia, e sim das commodities. O petróleo está se aproximando dos US$ 70, enquanto produtos alimentícios também continuam se valorizando. Para reduzir a inflação só se o real ficar mais competitivo”, avalia.

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Hideaki Iha, operador da Fair Corretora, diz que um aumento de 0,5 p.p. na taxa básica de juros já acalmaria o mercado, mas que 0,75 p.p. seria o ideal para mandar a mensagem de que o BC está firme no combate à inflação e traria mais investimento estrangeiro, o que apreciaria o real.

O diretor da Wagner Investimentos, todavia, apesar de defender um aumento maior, entende que o BC não fará isso para não prejudicar a comunicação com o mercado sobre os rumos da política monetária.

“Se o Copom realizar um choque muito grande nos juros será como passar um atestado de que o BC errou na política monetária antes. Esse ciclo de aumento de juros, para mim, vai levar a Selic para 4% ao ano, mas não deve começar de maneira muito agressiva.”

Sergio Goldenstein, consultor independente da Ohmresearch, disse à Reuters que ser mais agressivo na política monetária agora também poderia levantar dúvidas sobre o conceito de que não há relação mecânica entre as políticas cambial e monetária.

Ele ainda aponta que o início da correção na Selic ajuda na correção do câmbio, mas o câmbio depende de mais do que a Selic: depende do quadro fiscal, termos de troca, comportamento global do dólar, Treasuries e ambiente político. Para o consultor, a normalização da política monetária dará algum suporte ao câmbio, reduzindo o caso, nas condições atuais, de o dólar ir para R$ 6. Contudo, tampouco vê a moeda abaixo de R$ 5.

Bruno Lavieri, economista da 4E Consultoria, ressalta ainda a recente atuação do BC com leilões de swap e venda de dólar à vista, destacando que até agora obedece à ideia de câmbio relativamente flutuante. Há alguma intervenção apenas para conter a volatilidade e oferecer uma saída ao investidor sem que haja uma corrida por dólares agora devido ao temor de que a divisa dos Estados Unidos esteja muito mais valorizada no futuro.

“Isso não é uma situação de manter ou defender patamar. Do contrário, o BC teria que ter atuado antes e com mais força”, explica. Para Lavieri, o Copom deve manter a Selic no patamar atual, mas colocar uma mensagem bem clara de que os juros serão elevados na próxima reunião, de modo a sinalizar preocupação com o nível de preços sem colocar nas costas da política monetária a responsabilidade por impedir uma desvalorização do real.

O fiscal é o que importa

Apesar das divergências sobre o que o Copom fará, os especialistas foram unânimes em apontar que, para o câmbio, não adianta autoridade monetária se movimentar se a política fiscal não vier junto. Na segunda-feira (15), cabe destacar, o real teve o pior desempenho entre todas as moedas globais.

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Hideaki Iha vê responsabilidade do governo nessa situação. “Estamos vivendo um colapso nos sistema de Saúde, uma aceleração nos casos de coronavírus que prejudica as perspectivas para a economia, e ao mesmo tempo vemos os EUA se recuperando com um programa de imunização competente e um pacote de estímulos trilionário do governo Biden”, analisa.

Para ele, se o governo Bolsonaro colocasse uma pessoa competente no Ministério da Saúde e desse condições para esse profissional trabalhar, o mercado melhoraria, mas Iha não acredita que esse será o caso para o novo ministro, Marcelo Queiroga, sobre quem enxerga muita pressão política.

“O principal, que é a vacina, nós não temos em quantidade suficiente. Do jeito que está será necessário mais tempo de auxílio emergencial para ajudar as pessoas que estão sem renda por conta das medidas de isolamento social, e aí as preocupações com o teto de gastos voltarão à tona.”

Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, afirmou à Reuters que o investidor é primordial para a economia do Brasil, e quem vai investir aqui quer ter certezas. “O mercado fica à mercê de medidas mais restritivas (de combate à pandemia), da politização da crise sanitária… E a agenda de reformas está parada; a gente vai ficando para trás.”

Para Galhardo, os leilões de swap do BC se parecem com o ato de enxugar gelo diante do quadro de incerteza fiscal. “[O BC] tem dado a liquidez que a gente poderia estar recebendo do exterior via investimentos caso os investidores estivessem confortáveis.”

Bruno Lavieri, por sua vez, não enxerga muita consistência no ajuste fiscal promovido pelo governo e espera que as reformas Administrativa e Tributária, se forem aprovadas, sejam mais fracas do que os economistas projetavam antes.

Além disso, Lavieri defende que a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, longe de tirar as incertezas fiscais do radar, foi até uma fonte de decepção, pois teve que ser desidratada na Câmara dos Deputados para não ser desfigurada por destaques da oposição.

“Não há sequer consenso interno no governo para passar essas medidas de austeridade”, conclui. Contudo, a expectativa segue a mesma para o dólar desde o início do ano, com a expectativa de que a moeda encerre 2021 a R$ 4,70.

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Com visão mais baixista para o real, os estrategistas do Société Générale preveem que o dólar fechará este ano por volta de R$ 6,40, destacando que a pandemia ainda tem altos custos econômicos, sociais e de saúde, e todos eles sugerem que a recuperação econômica pode estagnar e que as contas fiscais e a dívida pública provavelmente permanecerão sob pressão. “Isso significa um aumento nas vulnerabilidades macroeconômicas do Brasil e em prêmios de risco que eventualmente serão traduzidos em uma moeda mais fraca e curva mais inclinada”, apontam.

(com informações da Reuters)

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