Reajuste do minério de ferro sustenta perspectivas para a Vale

Analistas veem a empresa em um segmento estratégico, com produtos de qualidade e com grande potencial de expansão

Publicidade

SÃO PAULO – Detentora de 15% de toda a carteira do Ibovespa neste trimestre, as ações da Vale (VALE3, VALE5) são bem vistas não só pela sua liquidez, mas também pelos fundamentos e estratégias que estão por trás da maior mineradora brasileira e a segunda do mundo.

Segundo levantamento feito pela Equipe InfoMoney no dia 12 de março, as ações preferenciais (PNA – VALE5) da Vale lideram a lista de recomendações de corretoras para o mês de março, com 21 indicações contra 15 da Petrobras, a segunda colocada, e 11 da Usiminas, a terceira.

Na média, as estimativas de preço-alvo apontam para um potencial de valorização entre 30% a 50% para as ações VALE5, sendo que grande parte deste otimismo com relação à mineradora se sustenta na especulação de reajuste do preço do minério de ferro.

Segundo notícia publicada recentemente no jornal Nikkei, a Vale, juntamente com as gigantes de mineração Rio Tinto e BHP, estariam procurando um aumento de 90% no valor do minério de ferro este ano, porcentagem bem acima da previsão do mercado.

“O grande driver da Vale recentemente é a questão do reajuste do minério de ferro. Está havendo uma resistência com relação a esse número. Mas o papel tem reagido nos últimos trinta dias por conta dessa expectativa de reajuste, já que começaram a falar em 30% e agora falam em 90%”, conta Nicholas Barbarisi, diretor de operações da Hera Investimentos.

Para Barbarisi, notícias sobre a negociação do benchmark do minério de ferro vendido à China serão o centro motor do desempenho das ações da Vale nos próximos dias, apesar de a empresa também apresentar outros pontos positivos muito fortes.

Continua depois da publicidade

“As perspectivas para os papéis, tanto preferenciais quanto ordinários, são positivas, com a retomada da economia global, os principais mercados da empresa, como China, bastante aquecidos e um possível reajuste de magnitude para o principal produto dela, o minério de ferro”, destaca o diretor da Hera.

Reajustes
Nesta sexta-feira (19), o vice-presidente da Cisa (Associação Chinesa de Ferro e Aço, na sigla em inglês), Luo Bingshegn, declarou que a Vale pediu à siderúrgicas chinesas uma elevação de 90% a 100% no preço da commodity e que dificilmente este acordo seria aceito pelas siderúrgicas.

“A perspectiva para os papéis dela [Vale] é muito boa. É sabido que ela está buscando reajuste acima do que o mercado espera. Então já tem gente que precifique a ação com reajuste de 60% a 70% do preço do minério. Eu ainda estou acreditando por volta de 50%, mas cada vez mais esse 50% meu está ficando distante”, comenta o analista Antonio Emilio Ruiz, do Banco do Brasil.

Continua depois da publicidade

Como alerta Ruiz, do BB, a negociação que está sendo feita com as siderúrgicas chinesas não será fácil, uma vez que reajustes dessa magnitude prejudicariam as margens das chinesas.

“Vai continuar tendo uma briga muito grande e, por isso, acredito que alguma coisa diferente esteja sendo desenhada para que os preços não fiquem travados um ano inteiro, descasados com a questão de oferta e demanda que é o que realmente define o preço”, afirma.

Para Ruiz, enquanto não estabelecem os termos definitivos para compra e venda de ferro, as empresas podem optar por um regime de transição, com preços temporários. Além disso, ele prevê que no acordo final as envolvidas poderiam adaptar os termos do contrato à nova realidade.

Continua depois da publicidade

“Contrato com uma nova forma de negociação de preço ou uma periodicidade menor, que passe de anual para trimestral ou até bimestral e que tenha mais ou menos o preço de spot chinês como referência para os contratos de longo prazo”, sustenta o analista do BB.

Em cena
Enquanto os novos valores não são definidos, o mercado opera com base em especulação, a exemplo da corretora Brascan, que no último dia 17 de março elevou o preço-alvo para os papéis VALE5.

“Realizamos uma revisão no nosso modelo da Vale para incorporar, além do último resultado da empresa, um reajuste mais significativo, de 70%, nos preços do minério de ferro em 2010, contra 25% em nossas estimativas anteriores”, explicam os analistas Rodrigo Ferraz e Pedro Montenegro, em relatório.

Continua depois da publicidade

Eles estimam que em dezembro de 2010 o preço para VALE5 é de R$ 60,30, com um potencial de valorização de 27,4% frente ao último fechamento das ações (R$ 47,34). A recomendação da Brascan é de outperform (desempenho acima da média) para os ativos PNA da Vale.

“As expectativas quanto ao reajuste dos preços do minério de ferro têm se tornado cada vez mais otimistas, diante de uma oferta muito próxima de seu limite e uma demanda atualmente crescente não apenas na China, como também na Europa e no Japão”, destaca a equipe da Brascan.

“A Vale já afirmou mais de uma vez que não está conseguindo ofertar todo o minério demandado por seus clientes, enquanto BHP e Rio Tinto batem recordes de produção”, adiciona.

O time de research da corretora também lembra que, ao mesmo tempo em que os preços atingem níveis próximos do pré-crise no spot chinês, o frete está mais barato atualmente em relação àquela época.

“Isso torna o minério de ferro brasileiro mais competitivo na Ásia e, consequentemente, melhora o posicionamento da Vale nas negociações com as siderúrgicas”, afirmam os analistas da Brascan.

Em 2009, o mercado asiático respondeu por 55,6% da receita bruta da companhia, com R$ 27,709 bilhões. Essa participação aumentou em relação a 2008, quando a Ásia representava 40,2% de sua receita bruta, segundo dados do balanço da empresa.

De todos os países que consomem produtos da Vale, a China lidera com a geração de R$ 18,379 bilhões em receita para a empresa no ano passado, seguida pelo Brasil (R$ 7,758 bilhões), Japão (R$ 4,709 bilhões) e EUA (R$ 2,264 bilhões).

Em linha
Também acreditando em reajustes maiores que o previsto anteriormente estão os analistas da Gradual Corretora. Na semana passada, os analistas da corretora elevaram de 10% para 20% o peso das ações VALE5 em sua carteira de recomendações semanais, mantendo a nova fatia também para esta semana.

“A elevação esperada de mais de 30% nos preços dos contratos anuais de minério de ferro em 2010 e o ritmo de crescimento da produção projetado acima de 12% ao ano até 2014 suportam nossa recomendação e elevação da alocação para 20% na carteira recomendada”, explicam.

Eles contam ainda que esperam um ano de 2010 positivo para a companhia, com a retomada sustentada da demanda mundial por minérios puxada pela China e demais economias emergentes, que deverão prosseguir, na visão da corretora, com elevadas taxas de crescimento.

A Gradual projeta um preço-alvo de R$ 57,80 para os papéis da mineradora, o que representa um potencial de valorização de 22,1% frente ao último fechamento. A corretora também embasou sua recomendação de compra nas premissas da empresa.

“O lucro líquido de R$ 10,452 bilhões em 2009 veio em linha com a nossa projeção, refletindo basicamente a queda da produção siderúrgica mundial no 1º semestre de 2009. De qualquer forma, acreditamos que a Vale tenha saído fortalecida após a crise financeira mundial”, afirmam os analistas.

Investimentos
Eles falam ainda que por causa de sua situação financeira sólida, a Vale conseguiu manter seu plano de investimentos no ano passado e também avançou na diversificação dos seus produtos, adquirindo ativos estratégicos no setor de fertilizantes, com a compra de ativos da Bunge Fertilizantes e da Fosfértil.

“A conclusão da negociação com a Bunge para a aquisição de ativos de fertilizantes representa ganhos estratégicos, à medida que seu portfólio de produtos se torna mais diversificado. Entretanto, alertamos que o setor em questão apresenta volatilidade significativa em seus fundamentos”, comentam os analistas da Brascan.

Na carteira
Os papéis VALE5 também são vistos como interessantes pelos analistas da Socopa Corretora. As ações PNA da mineradora brasileira estão presentes da carteira de recomendações para março da corretora, com projeção de desempenho “acima do mercado” e preço-teórico de R$ 61,00 – potencial de valorização de 28,85%.

Em sua visão, mesmo com os resultados operacionais da mineradora vindo menores no quarto trimestre que no anterior – impactados pela queda no volume de exportações e do preço médio dos produtos – a companhia deve se beneficiar das novas expectativas.

“A geração de caixa (Ebitda) decepcionou, ficando abaixo do consenso de mercado. Apesar do resultado mais fraco que o esperado acreditamos que as boas perspectivas tanto para o preço do minério de ferro quanto para a demanda global pelas commodities, devem sustentar nosso otimismo com relação ao desempenho da empresa”, falam os analistas da Socopa.

Preço-alvo
Empresas VALE3   Upside*   VALE5 Upside*
Brascan Corretora R$ 69,34 29,00%  R$ 60,30 27,40%
Socopa Corretora R$ 70,80  31,70% R$ 61,00 28,85%
 Gradual Investimentos  – –  R$ 57,80 22,10%
Bradesco Corretora R$ 72,80 35,44% R$ 62,40 31,80%
Link Investimentos R$ 72,00 34,00% R$ 62,00 31,00%

Companhia
Apesar de o assunto mais comentado sobre Vale ser o reajuste do minério de ferro, como já dito por Nicholas Barbarisi, da Hera Investimentos, o case de investimentos da companhia não se baseia apenas nisso.

O analista Antônio Emilio Ruiz, do BB, também traça perspectivas otimistas para a empresa baseado na perspectiva de crescimento econômico do Brasil e de toda a gama de negócios da mineradora.

“O estrangeiro vai ver economia doméstica e o cenário para a empresa. As duas pontas tendem a continuar puxando o preço da empresa e valorizar os papéis da Vale. Por isso para curto, médio e longo prazo continuo indicando buy [compra] com bastante confiança no desempenho da empresa”, fala Ruiz.

Para o analista, o grande ponto positivo da Vale é a sua posição estratégica em mercados com grande potencial de crescimento, como o de matérias-primas básicas, fornecendo em especial minério de ferro, mas também alumínio, níquel, cobre, entre outros.

“O minério de ferro é extremamente importante para qualquer economia que precise crescer. Então não estamos falando apenas de um cenário dos próximos dois a três anos muito bom por causa de China; estamos falando de uma dependência constante do crescimento das economias. Para que haja o crescimento econômico, o principal produto dela vai ser extremamente importante”, explica Ruiz.

Em paralelo, o analista do BB conta que o plano da empresa de estar constantemente de olho em novas oportunidades além do minério de ferro, tais como os minerais não-ferrosos (níquel, cobre, alumínio, entre outros) também rende frutos para o case de investimento da companhia.

“No ano passado ela estava avaliando melhor os efeitos da crise. Parece que o foco agora não é em aquisições, mas em parcerias estratégicas, joint-ventures e também utilizar o conhecimento que ela já tem no mercado de minérios para estender esse conhecimento para outros minerais”, conta o analista.

Diversas frentes
Neste aspecto o analista Pedro Galdi da corretora SLW comenta que a companhia deve ter um desempenho de vendas melhor este ano que teve em 2009 em seus diversos mercados.

“A Vale fez investimentos expressivos durante a crise, enquanto muitas mineradoras lá fora, como Rio Tinto e Anglo American, se viram pressionadas e tiveram que vender ativos. E a Vale não, ela fez a sua lição de casa”, conta o analista.

Galdi explica que com a demanda por minério mais forte em 2010, a Vale vai conseguir ampliar os volumes vendidos e com um preço muito melhor que em 2009. Por isso, o analista estima que também uma melhor geração de caixa do negócio de minério de ferro para este ano.

“A Vale terceirizou o pessoal das usinas de níquel, o níquel está US$ 21 mil a tonelada, e deve ter uma geração de caixa forte, apesar de a greve nas plantas do Canadá ainda estar sendo negociada”, fala Galdi, apontando outras fontes de ganhos para a empresa este ano.

Ele comenta ainda que os negócios de carvão e cobre, assim como o de fertilizantes também devem render bons números para a empresa este ano.

“A Vale também deve se beneficiar do negócio novo de fertilizantes. Ela já tem algumas minas de potássio e comprou ativos da Bunge, que devem criar valor e geração de caixa positiva. Vai ser um ano muito positivo, especialmente se comparado com 2009″, afirma.

A SLW tem recomendação de compra para VALE5 e preço-alvo de R$ 54,37, sem considerar ainda um reajuste de 70% nos preços do minério de ferro, como acredita.

Preferência
Apesar de suas ações PNA (VALE5) liderarem o levantamento da InfoMoney de recomendações para março, segundo o analista Antônio Emílio Ruiz, do BB, atualmente não há tantas diferenças em termos de trajetória de valorização entre as preferenciais e as ordinárias (VALE3).

“Em geral, eu sempre prefiro mais a preferencial, em virtude de ter um pouco mais de liquidez. Mas no caso da Vale, esse prêmio pela liquidez está ficando cada vez menos relevante”, fala.

O analista explica que os papéis ordinários da Vale também possuem alta liquidez na BM&F Bovespa, caminhando, em geral, lado alado dos preferenciais no dia-a-dia dos pregões.

“Na maior parte do tempo elas caminham juntas, apenas em alguns momentos que elas se descolam. Se eu tivesse que escolher apenas uma das duas, eu escolheria a PNA, mas as duas têm bastante liquidez que justifica o investimento”, completa.

Riscos
Ao mesmo tempo em que a China e a perspectiva de forte demanda para o minério de ferro ditam o otimismo do case de investimento da Vale, uma decepção em torno do crescimento das economias mundiais – em especial as asiáticas – e consequente queda na procura pela commodity pode pesar negativamente.

“O setor siderúrgico mundial pode desacelerar caso a economia mundial apresente sinais de um novo enfraquecimento. Assim, a demanda por minério pode cair novamente nos próximos meses”, falam os analistas da Brascan sobre os riscos de investimento em Vale.

Além disso, a própria ausência de um consenso na questão do reajuste do preço do minério pode prejudicar o desempenho dos papéis da companhia, ao aumentar a volatilidade do fluxo de caixa da companhia.

Câmbio
Outro ponto negativo apontado como limitador de ganhos para a Vale é o câmbio. Por ser uma empresa dependente de exportações – apenas 15,6% de sua receita provém do Brasil, e sendo estas ligadas ao dólar, a apreciação do real acaba prejudicando suas contas.

“É uma empresa que, por ter uma forte exposição no mercado internacional, tendo grande parte das suas receitas em moeda estrangeira, e os custos em reais, sempre que há uma apreciação do real, ela tem impacto negativo em suas margens, o que pode ser um fator de risco para a empresa”, afirma Nicholas Barbarisi, da Hera Investimentos.

Para Barbarisi, outro fator que pode impactar no balanço da empresa e no setor de commodities como um todo é um aperto monetário mais profundo na China, importante importador de matérias-primas.

“Isso aconteceria caso o governo tomasse medidas para conter o crescimento econômico e isso pode ser negativo para a Vale. É um fator de risco”, fala.