Rating dos EUA: embora atrasado, um sinal de alerta mais do que previsível

Possibilidade de rebaixamento da classificação de risco dos EUA reflete fatos e abre novo foco de discussão

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SÃO PAULO – A notícia mais importante desta segunda-feira (18), sem dúvida alguma, foi o anúncio de que a agência de classificação de risco Standard & Poors colocou o rating soberano dos EUA em perspectiva negativa. Como analisar este fato, tanto a curto quanto longo prazo?

Primeiro um comentário sobre as agências de rating. A notícia pode soar novidade, mas se as agências realmente fizessem uma análise 100% objetiva, o rating dos EUA já deveria ter sido rebaixado há algum tempo. As críticas de que elas nunca são proativas é verdadeira. Basta ver o caso da Europa, onde países de situação fiscal insustentável ostentaram classificações de risco irrealistas por muito tempo. Nestes casos, as agências somente “acordaram” quando a possibilidade de default de países como Grécia, Irlanda e Portugal, já era significativa.

Rating objetivo para os Estados Unidos
Estamos vivendo o mesmo caso nos EUA? A resposta é categórica: não. A possibilidade de os EUA não cumprirem suas obrigações é muito reduzida. Mas isso não significa dizer que o mundo não mudou e mudará ainda mais se a maior economia do mundo perder seu status de AAA, a mais alta classificação de risco. Uma coisa é entrar em default, outra diametralmente oposta é ser referência.

Aprendemos na teoria financeira de que existe uma taxa de juro de uma ativo isento de risco, que serve de patamar para que todas as outras taxas sejam definidas. E, quando falamos do mercado internacional de capitais, esta taxa, nas últimas décadas, tem sido aquela paga pelo governo dos EUA. Ao precificar um papel do governo brasileiro em dólares, por exemplo, se fala em um diferencial, ou spread, em relação aos títulos dos EUA.

Mas como podemos usar agora esta taxa como referencial, se as agências parecem começar a considerar o que o mercado já sabe a algum tempo: os EUA e, por consequência, sua moeda, não podem mais ser usadas como referência da forma que sempre foram usadas. Para ser referência, o perfil de risco não pode mudar. Seria como usar como referência do sistema métrico uma barra de metal que mudasse de comprimento, de acordo com a estação do ano!

Mais um mito que pode cair
Desde a crise de 2008, muitos mitos caíram. Um exemplo pouco explorado foi o do mercado norte-americano de hipotecas, onde Fannie Mae e Freddie Mac eram vistas como “proxi” dos títulos do Tesouro norte-americano. Pagavam um pouquinho a mais, apesar de não serem garantidas por Washington. Mas 2008 mostrou que o “achismo” e as tradições têm pouco lugar em um mercado como o atual.

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As ações das duas praticamente viraram pó e os detentores de títulos somente não tiverem rumo semelhante porque o governo dos EUA lançou um programa de ajuda emergencial a estas instituições, que estavam tecnicamente quebradas.

O mundo em transformação
A situação atual do governo norte-americano não é de nem de longe tão grave, mas também não é tão fácil como muitos seguem apontando. O principal argumento é de que não há para onde fugir, ou seja, não existe nenhum mercado que possa absorver o gigantesco volume de títulos do governo dos EUA, sobretudo na Ásia e nos países emergentes. Isso é verdade, mas uma variável vai ter que mudar: preço.

Faz sentido comprar títulos em dólares (que não para de cair), de um emissor que pode ser rebaixado, dentro de um cenário incerto de inflação (para onde irá toda a liquidez injetada no sistema)? Muitos investidores já notaram isso, daí não ser surpresa a cotação da onça de ouro estar próxima de US$ 1.500 e o fato do euro já ter subido quase 7% no ano frente ao dólar, mesmo no contexto da maior crise de confiança da história da moeda comum europeia.

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Sem catastrofismo, mas com muita atenção
Por mais que a notícia seja preocupante, não será o fim do mundo. Mas o caminho não será fácil. Mesmo que o rebaixamento do rating dos EUA não ocorra, ou aconteça em um ou dois anos, a simples menção desta possibilidade muda a forma na qual o mercado enxerga risco. Já vimos no passado situações complicadas, como guerras, por exemplo, que levaram a capacidade de financiamento de potências ao limite.

Mas, em geral, estas situações resultaram em mudanças significativas no equilíbrio e na nas condições do mercado financeiro internacional. E estamos no meio de uma delas. Não temos que olhar somente para as cotações do Euro e do ouro. Os fluxos de capitais para mercados emergentes, como China, Brasil, Índia e outros, já evidenciam este fenômeno.

Se toda mudança é traumática, esta possivelmente não será exceção. Sem pânico, mas com muita volatilidade.