Rali recente aumenta apostas de recuperação econômica em forma de V

Porém, o desfile de análises com diferentes letras continua; a retomada mais cotada por economistas é em forma de U

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SÃO PAULO – Enquanto os sinais de uma iminente estabilização da economia se acumulam, os últimos meses foram permeados pela discussão sobre a forte alta vista nos mercados acionários globais. Apenas um rali de bear market ou o início de um bull market?

A resposta, na verdade, virá tarde demais, já que a confirmação disso só se dará em uma análise posterior ao movimento. Porém, a discussão deu força às análises acerca da forma como se dará a recuperação da economia global. O comportamento das bolsas apontam para uma retomada rápida, mostrando que os investidores esperam uma recuperação em forma de V.

Apesar dos investidores e de alguns analistas estarem apostando no V, outros indicam que a recuperação não será assim tão rápida ou tão grande. Uma lista de letras pôde ser vista nos relatórios de análise recentemente divulgados. V, U, L, W e até mesmo WW, dependendo do pessimismo ou do otimismo de cada economista.

Por que não V?

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Do lado dos que acreditam que a recuperação será em V está a Merrill Lynch Global Wealth Management. Em entrevista ao jornal britânico The Times, o estrategista da instituição, Bill O-Neill, afirmou que “o mercado tem recentemente descrito uma maior probabilidade de V, mas nossa visão é de que a economia irá formar um ‘V preguiçoso’, onde o crescimento irá se recuperar mas reduzir o ritmo na primavera de 2010”.

Entre os otimistas, o consenso atualmente é de que a recessão termine em meados de 2009, com os Estados Unidos retornando ao crescimento positivo já no terceiro trimestre. Isso significaria que dentro de um ou dois meses o país estaria fora da recessão.

Citando os erros dos otimistas no passado, o professor da Universidade de Nova York, Nouriel Roubini, alerta que novamente as projeções desse grupo estão deslocadas. “Uma análise cuidadosa dos indicadores sugere que ao invés de green shoots [expressão usada para ilustrar os primeiros sinais de recuperação da economia, que literalmente significa aspargos verdes] há diversas yellow weeds [ervas daninhas] tanto no curto quanto no médio prazo”, afirmou.

Provavelmente um U

Para Roubini, é mais provável que a recessão nos Estados Unidos seja no formato de um U prolongado. O professor acredita que o crescimento da economia norte-americana e global continuará lento, abaixo da média e bem abaixo da tendência de crescimento dos últimos dois anos tanto neste ano quanto em 2010 e 2011.

Uma variação do formato em U é a perspectiva trazida pela Moody’s no início do mês. De acordo com a agência de classificação de risco, a recuperação será em forma de gancho: um forte declínio, seguido de uma recuperação penosa e com diversos obstáculos.

“Nós acreditamos que o cenário de recuperação em forma de gancho descreve melhor o processo da penosa recuperação que nós acreditamos que está em jogo”, afirmou Pierre Cailleteau, Chief International Economist da Moody’s. Segundo ele, um dos grandes problemas da recuperação é o processo de reestruturação das folhas de balanços de empresas, indivíduos e principalmente bancos.

Também é possível descrever como W

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Considerando o rali dos últimos dois meses, os economistas não descartam uma recuperação em forma de W. Ou, como explicam os analistas do Deutsche Bank, “depois do pesado declínio, nós estamos agora em uma breve e modesta retomada, que logo – quando o mercado de trabalho e o consumo enfraquecerem – será seguido por um pequeno declínio, antes de em algum momento de 2011 a melhora real e verdadeira se materializar”.

Roubini também acredita que esse é um cenário possível, porém mais para frente. “Nós não podemos descartar uma recessão em forma de W, com a tentativa de recuperação do crescimento em 2010 em risco de ser interrompida no final daquele ano ou em 2011 por uma união da elevação dos preço do petróleo , dos impostos e das taxas de juros nominais e reais”.

O L: o pior cenário

Embora já pareça um cenário ruim, o W não é a pior das preocupações. Apesar do número de economistas que preveem uma recessão em L ter diminuído desde o início do ano, ainda há temores de que isso possa acontecer. Nesse caso, o cenário pode se parecer bastante com a “década perdida” do Japão, nos anos 1990.

A Moody’s é uma das instituições que levantou essa possibilidade. Os riscos que os governos estão tomando com as medidas anticrise e a necessidade de uma desalavancagem das finanças públicas enfraquecem a recuperação, segundo a agência.

“Como resultado, a Moody’s não descarta que o cenário em forma de gancho possa potencialmente se desenvolver em um cenário em forma de L”, alertou Cailleteau, acrescentando que “ainda é muito cedo para a Moody’s adotar esse cenário como central porque os impactos completos dos estímulos do governo ainda precisam acontecer”.