Rali épico do S&P 500 é impulsionado por ativos intangíveis

A mudança começou após a crise financeira de 2008 e decola novamente durante as paralisações da pandemia de coronavírus

Bloomberg

(Getty Images)
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(Bloomberg) — Pegue todos os ativos físicos pertencentes a todas as empresas no S&P 500, todos os carros, prédios de escritórios, fábricas e mercadorias. Depois venda todos a preço de custo em uma transação gigante. A soma líquida não chegaria a 20% do valor de US$ 28 trilhões do índice. Muito do que resta vem de coisas que não podemos ver ou contar: algoritmos, marcas e listas.

No sentido mais amplo, é um fenômeno novo. Em 1985, por exemplo, antes de o Vale do Silício dominar as fileiras das maiores empresas dos Estados Unidos, a tendência era que ativos tangíveis fossem mais próximos da metade do valor de mercado.

A mudança começou após a crise financeira de 2008 e decola novamente durante as paralisações da pandemia de coronavírus. O valor de empresas com forte peso de ativos intangíveis, como Google e Facebook, dispara, enquanto ações mais industriais definham. Tudo isso é uma fonte de profunda preocupação para os que se preocupam com fatores como emprego e desigualdade.

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A ascensão dos intangíveis ajuda a explicar por que muitos trabalhadores nos EUA passam por uma situação tão difícil, com salários estagnados e benefícios desaparecendo, e sinais de que a crise pode continuar, de acordo com Baruch Lev, professor da Universidade de Nova York, cujos artigos geraram um debate sobre o assunto entre acadêmicos.

Em resumo, o fenômeno está por trás das críticas contra gigantescas empresas de tecnologia que chegaram ao Congresso. Simplificando, esses ativos não exigem que hordas de trabalhadores os criem e os mantenham da mesma forma que os da velha economia.

Portanto, apesar de toda a preocupação sobre como o rali de ações de tecnologia na pandemia indica uma bolha que está fadada a explodir, a maior preocupação pode ser que isso não aconteça.

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“Quando as pessoas pensam sobre essa crescente desigualdade de renda, muito disso vem da crescente desigualdade no setor corporativo”, diz Lev, diretor de pesquisa contábil da escola de negócios da NYU. “Os que são bem-sucedidos são extremamente bem-sucedidos. E outros que ainda empregam muitas pessoas realmente não podem sair dessa armadilha.”

Em um nível, tudo isso é perfeitamente racional. Investidores de ações estão apenas antecipando e apostando na capacidade dessas empresas de gerar fontes de receita nos próximos anos. A inovação industrial foi considerada anti-humana desde os seus primeiros dias, muitas vezes de forma errada. Mesmo os termos não são claros – atribuir valor de mercado à propriedade tangível e intangível é, em muitos aspectos, uma questão de opinião.

Ainda assim, pesquisadores como Lev aumentam os alertas, preocupados com a influência da Covid-19 na economia e na igualdade.

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Considere uma empresa como a Adobe, cujos programas transformaram a indústria gráfica. Tão valiosas são suas fórmulas e algoritmos que mesmo com valor de mercado de US$ 237 bilhões, a soma de seus ativos tangíveis é virtualmente zero. A Adobe emprega mais de 22 mil pessoas, sob qualquer medida muitas, mas faz parte de uma onda tecnológica que, sob alguns padrões, reduz o emprego em impressão pela metade. Um porta-voz da Adobe não quis comentar.

Se você trabalha em uma empresa que navega nessa onda ou, melhor ainda, é dono de uma, está se saindo bem. As ações da Adobe subiram 50% neste ano, parte de um rali dos papéis de tecnologia que acrescentou US$ 2 trilhões ao valor de mercado combinado do setor mesmo com a piora da recessão. Para todas as outras, as notícias são menos positivas. Uma maneira de pensar sobre o impacto é que, embora a propriedade intelectual favoreça a criação de um pequeno grupo de trabalhadores abastados, muitas vezes substitui um conjunto maior de funcionários que ganham por hora.

“Como todos nós tivemos que mudar para um mundo digital, faz sentido que muitos dos investimentos sejam em um mundo digital, que são intangíveis”, disse Megan Greene, pesquisadora sênior da Harvard Kennedy School. “No entanto, isso ocorre às custas do trabalhador. Esta crise acelerou muitas coisas, e essa é uma delas.”