Raízen ameniza e fecha estável, mas a R$ 0,55; consultor destaca 5 motivos para crise

Nos últimos dias, a crise da Raízen voltou ao centro das notícias, com aumento das preocupações do mercado e até rumores sobre um eventual pedido de recuperação judicial

Lara Rizério

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Foto: Divulgação
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As ações da Raízen (RAIZ4) fecharam estáveis nesta segunda-feira (9) com a melhora do mercado em geral, mas ainda assim fecharam a R$ 0,55, depois de uma mínima a R$ 0,50. Nos últimos doze meses, a baixa é de cerca de 69%.

Nos últimos dias, a crise da Raízen voltou ao centro das notícias, com aumento das preocupações do mercado e até rumores sobre um eventual pedido de recuperação judicial. “O que estamos vendo é o desdobramento de decisões estratégicas e financeiras tomadas ao longo dos últimos anos”, avalia José Luiz Mendes, consultor de estratégia e M&A da StoneX.

Para o especialista, a crise não é fruto de um único erro, sendo uma combinação de decisões estratégicas tomadas em um momento de muito otimismo, com alavancagem elevada e alguns movimentos de alocação de capital, que ficaram mais arriscados do que pareciam na época.

Em fevereiro, as agências Fitch, S&P Global e Moody’s Global rebaixaram os ratings da Raízen, o que levou à perda de grau de investimento da companhia. Os relatórios apontaram a frustração do aporte de capital esperado pelos acionistas (Shell e Cosan), que se seguiu nos dias seguintes, um ambiente operacional menos favorável para o açúcar e o etanol, além de uma liquidez pressionada pelo consumo recorrente de caixa e por amortizações relevantes no curto prazo.

Para o consultor, o que aconteceu foi um erro clássico de alocação de capital em ciclo otimista: escalar antes de validar retorno, assumir que juros baixos seriam permanentes e executar dois movimentos transformacionais e alavancados ao mesmo tempo.

Mendes destaca cinco fatores principais:

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  1. A aposta acelerada no E2G
    A Raízen, destaca o consultor, apostou forte no etanol de segunda geração, com a tese de que haveria um prêmio relevante por ser um combustível mais limpo. A tecnologia faz sentido e está alinhada à transição energética.

    “O problema foi a premissa financeira: o mercado não pagou esse prêmio na velocidade esperada. Houve uma desconexão entre a narrativa ESG e a disposição real do cliente em pagar mais, além de um mercado de carbono ainda imaturo. Em outras palavras, escalou-se antes de validar o retorno econômico”, avalia Mendes.
  2. Estrutura de capital muito alavancada
    Mendes ressalta que os projetos de longo prazo financiados com dívida funcionam quando o juro está baixo e, quando o ciclo virou, a conta apertou. “Com alavancagem alta, qualquer choque – clima, preço, custo financeiro – vira crise. A seca e os incêndios foram gatilhos, mas não a causa raiz. Empresas menos alavancadas absorvem esses impactos; empresas muito alavancadas entram em espiral”, aponta o consultor.
  3. Concorrência do etanol de milho
    Mendes ressalta que a Raízen investia em tecnologia de fronteira, enquanto o etanol de milho cresceu rápido, com custo competitivo e execução simples. “A tese ‘verde’ acabou enfrentando uma concorrência pragmática que entregava resultado imediato”, apontou.
  4. Diversificação excessiva
    O consultor apontou que o grupo expandiu para várias frentes ao mesmo tempo — trading, Oxxo, energia solar, internacionalização. Agora vê o movimento oposto, de venda de ativos e simplificação. “O problema é que simplificar sob pressão normalmente destrói valor, porque as decisões passam a ser defensivas”, aponta Mendes.
  5. O papel da Cosan e o investimento na Vale
    O ponto considerado central por Mendes é de que a crise da Raízen não pode ser analisada separadamente da Cosan (CSAN3). A holding fez um investimento relevante na Vale (VALE3) com estrutura alavancada, ao mesmo tempo em que a Raízen demandava capital pesado para crescer.

    “Quando o minério caiu e houve perda de valor, a Cosan perdeu capacidade de apoiar a Raízen. Além disso, parte das estruturas usava participações como garantia, o que aumentou a percepção de risco e reduziu a flexibilidade financeira. No fim, houve uma sobreposição de riscos — tecnológico, operacional, macro, de commodity e financeiro — que se materializaram ao mesmo tempo”, avalia.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.