Raízen culpa Selic e Argentina por alta da dívida após ciclo de expansão

Em pedido de recuperação extrajudicial, empresa defende que investimentos em expansão foram realizados em ambiente econômico mais benigno

Paulo Barros

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Raízen (Foto: Divulgação)
Raízen (Foto: Divulgação)

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A Raízen afirmou no pedido de recuperação extrajudicial protocolado nesta quarta-feira (11) que a piora do endividamento decorreu de uma combinação entre expansão acelerada, juros altos no Brasil e deterioração macroeconômica na Argentina. Na peça, a empresa reconhece que o ciclo pré-turnaround foi marcado por uma “estratégia de crescimento acelerado”, que elevou endividamento e alavancagem, mas sustenta que essas decisões foram tomadas em um ambiente macroeconômico mais favorável do que o atual.

Segundo a companhia, a expansão dos últimos anos incluiu aquisições e investimentos relevantes em diferentes frentes, como a operação de distribuição de combustíveis na Argentina, a compra da Biosev e outros movimentos de crescimento. A tese da Raízen é que esse avanço passou a pressionar mais fortemente o caixa quando houve “relevante deterioração das condições econômicas no Brasil e em outros países”, com destaque para a escalada dos juros e o agravamento do cenário argentino. 

No Brasil, a empresa aponta a Selic como um dos principais vetores de pressão. O pedido diz que a taxa básica ficou acima de 12% ao ano por pelo menos 20 meses e chegou a 15% ao ano nos oito meses mais recentes, o que teria elevado “de forma significativa o custo financeiro da dívida”, comprometendo a geração de caixa e dificultando a redução orgânica do passivo. 

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No caso da Argentina, a Raízen afirma que a operação local passou a conviver com “inflação persistentemente elevada”, acima de 40% ao ano, além de volatilidade macroeconômica. De acordo com a companhia, esse ambiente pressionou custos operacionais, a dinâmica de preços e também despesas comerciais e administrativas, agravadas pelo efeito da inflação em dólares. 

A empresa sustenta ainda que a crise não decorre apenas do aumento da despesa financeira. O documento aponta queda de margens operacionais e retração de 12% no EBITDA da safra 2025/2026 ante a safra anterior, em meio a uma combinação de quebra de safra, menor produção de cana e queda do ATR (indicador que mede a quantidade de açúcar efetivamente extraível da cana, servindo como referência para o potencial de produção e rentabilidade do setor). A petição cita “eventos climáticos severos no Centro-Sul”, com redução de chuvas, estresse hídrico, temperaturas elevadas e “queimadas sem precedente”.

Além disso, a Raízen menciona a retração dos preços globais de commodities, o aumento da produção asiática de açúcar e o avanço do etanol de milho no Brasil como fatores adicionais de compressão das margens. Na narrativa apresentada, a convergência desses fatores acabou aprofundando a crise de liquidez.

Como síntese do quadro, a companhia afirma que consumiu R$ 7,2 bilhões de caixa entre abril e dezembro de 2025 para manter a operação regular, movimento que levou a alavancagem ao “maior patamar histórico”, em cerca de 5,3 vezes. 

A avaliação da companhia sobre a deterioração financeira encontra respaldo no ambiente enfrentado pelo setor, na visão de Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos. Segundo ela, negócios ligados a energia e biocombustíveis operam com “forte intensidade de capital e ciclos longos de retorno”, o que os torna mais sensíveis a choques macroeconômicos.

“A combinação entre juros elevados, volatilidade internacional no preço de petróleo e oscilações nas commodities agrícolas altera esse equilíbrio”, afirma. Nesses casos, acrescenta, “o serviço da dívida passa a consumir parcela crescente da geração de caixa, pressionando a estrutura financeira antes mesmo de qualquer deterioração significativa da operação”.

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Paulo Barros

Jornalista há quase 20 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve principalmente sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos