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A alta do petróleo em meio à nova escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã impôs uma leitura mais seletiva à Bolsa brasileira nesta quarta-feira (8), separando os papéis que podem se beneficiar do barril mais caro daqueles mais expostos à pressão de custos, dólar e juros.
No fechamento, o Ibovespa encerrou em queda de 0,79%, aos 170.665 pontos, enquanto o Brent fechou com alta de 5,2%, cotado a US$ 78,02. O movimento refletiu o aumento do prêmio de risco geopolítico, em meio ao temor de novas restrições à oferta global e de eventual impacto sobre o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz.
De um lado, empresas ligadas à produção e exportação da commodity, como petroleiras, tendem a capturar parte do efeito positivo de um Brent mais alto. De outro, companhias intensivas em combustíveis, fretes, energia, importações ou crédito podem sofrer mais em um ambiente de custos elevados, câmbio pressionado e juros altos por mais tempo.
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Para analistas, porém, a alta do petróleo não deve ser lida como um fator positivo para a Bolsa como um todo. Embora ações de óleo e gás possam ajudar a amortecer parte da pressão sobre o índice, o choque no barril também reacende preocupações com inflação, câmbio, política monetária e margens corporativas.
Petroleiras aparecem entre as beneficiadas
O efeito mais direto de um petróleo mais caro tende a aparecer nas empresas produtoras e exportadoras da commodity. Nesse grupo, Petrobras (PETR4; PETR3), PRIO (PRIO3), Brava Energia (BRAV3) e PetroReconcavo (RECV3) estão entre os nomes mais acompanhados pelos investidores.
No fechamento desta quarta-feira, PETR4 subiu 3,15%, PETR3 avançou 2,79%, PRIO3 teve alta de 0,34%, BRAV3 ganhou 0,05% e RECV3 encerrou o pregão com valorização de 6,04%.
Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, exportadoras de petróleo, como a Petrobras, podem se beneficiar do aumento das receitas com exportação. O ganho, porém, depende da persistência da alta do barril e da capacidade de o movimento se traduzir em melhora de caixa e resultado para as empresas do setor.
André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, também avalia que ações ligadas ao petróleo podem ganhar em um cenário de barril mais caro. Ainda assim, ele pondera que esse efeito positivo não elimina os impactos negativos mais amplos para a economia brasileira, já que combustíveis, transporte, alimentos, indústria e expectativas inflacionárias também são afetados.
Distribuidoras e energia têm leitura mais ambígua
Entre as empresas expostas à cadeia de combustíveis, a leitura pode ser mais mista. Vibra (VBBR3), Ultrapar (UGPA3) e Cosan (CSAN3) podem ter parte das receitas favorecida por maior movimentação na cadeia de energia e combustíveis, mas também ficam expostas a volatilidade de preços, necessidade de capital de giro, câmbio e eventual impacto sobre demanda.
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No fechamento, VBBR3 avançou 2,56%, UGPA3 teve alta de 4,11% e CSAN3 encerrou o pregão com queda de 2,34%.
Esse grupo tende a exigir uma leitura mais cuidadosa do investidor. Diferentemente das produtoras de petróleo, que têm relação mais direta com o preço do barril, distribuidoras e empresas integradas à cadeia de energia podem sentir efeitos positivos e negativos ao mesmo tempo, dependendo da dinâmica de margens, estoques, demanda e repasses de preços.
Aéreas, transporte e logística ficam na ponta oposta
Na outra ponta da Bolsa estão os setores mais sensíveis ao custo do combustível. Companhias aéreas, empresas de transporte, logística, petroquímicas, indústria química e negócios dependentes de fretes tendem a sentir primeiro a pressão de um petróleo mais caro.
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No setor aéreo, Azul (AZUL) entra no radar entre os nomes mais sensíveis ao choque do petróleo. A companhia tende a ser afetada principalmente pelo custo do combustível de aviação, além do efeito indireto de dólar mais forte, juros altos e maior aversão ao risco.
Entre empresas ligadas a transporte, logística e mobilidade, Rumo (RAIL3), Motiva (MOTV3), Vamos (VAMO3) e Localiza (RENT3) também devem ser monitoradas. No fechamento desta quarta-feira, RAIL3 recuou 1,85%, MOTV3 caiu 1,23%, VAMO3 encerrou com queda de 2,77% e RENT3 fechou em baixa de 0,64%.
Lima, da Ouro Preto, cita transporte rodoviário, companhias aéreas, logística, petroquímica, indústria química e empresas com alta dependência de combustíveis fósseis como segmentos mais vulneráveis. Segundo ele, o impacto pode aparecer tanto no custo direto dos combustíveis quanto no aumento de fretes, insumos industriais e despesas operacionais.
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Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, também avalia que o petróleo mais caro tende a deixar a Bolsa mais seletiva. Para ele, empresas ligadas à cadeia de óleo e gás, com receita dolarizada e maior geração de caixa, podem se beneficiar no curto prazo. Já setores mais dependentes de combustível, frete e energia, como aéreas, transporte, varejo e indústria, tendem a sofrer pressão de custos e margens.
O problema é que nem todas as companhias conseguem repassar integralmente esses custos aos preços. Em um cenário de demanda mais fraca ou crédito mais caro, o aumento de despesas pode pressionar margens e reduzir a previsibilidade dos resultados.
Petroquímica e indústria também sentem custos
A alta do petróleo também pode pesar sobre empresas com insumos ligados à cadeia petroquímica. Nesse grupo, Braskem (BRKM5) aparece como um dos nomes mais diretamente expostos à combinação de petróleo, câmbio e custos industriais. No fechamento, BRKM5 fechou em alta de 2%.
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Para Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, empresas com margens reduzidas, elevado consumo de energia, forte dependência de importações ou maior alavancagem financeira tendem a sentir primeiro os efeitos de um ambiente de juros elevados e custos crescentes. Em momentos de incerteza global, diz ele, liquidez, geração consistente de caixa e qualidade de crédito se tornam fatores ainda mais relevantes.
Juros e crédito ampliam a lista de perdedores
O impacto do petróleo mais caro não se limita ao custo operacional. Como a alta do barril pode pressionar inflação, dólar e expectativas, setores mais sensíveis a juros também entram no radar negativo.
André Matos, da MA7 Negócios, afirma que setores mais sensíveis a juros, como bancos, varejo e construção também podem ser prejudicados. Isso porque um petróleo mais caro tende a pressionar a inflação e alimentar a percepção de juros elevados por mais tempo, especialmente às vésperas da próxima decisão do Copom.
No varejo e consumo, Magazine Luiza (MGLU3), Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Azzas 2154 (AZZA3) e Vivara (VIVA3) aparecem entre as empresas mais sensíveis a um ambiente de crédito caro, inflação pressionada e renda disponível menor. Na construção civil, setor diretamente afetado pelas expectativas para os juros, MRV (MRVE3), Cyrela (CYRE3), Cury (CURY3) e Direcional (DIRR3) também entram no radar.
Não por acaso os papéis dos dois setores estiveram entre as maiores quedas: CEAB3 encerrou com variação de -0,88%, AZZA3 fechou em -1% e VIVA3 registrou -2,21%. Enquanto isso, MRVE3 variou -5,84%, CYRE3 teve queda de -4,10%, CURY3 encerrou com variação de -7,85% e DIRR3 fechou em -6,19%
Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike, destaca que um barril mais caro chega ao Brasil por dois canais. O primeiro é o encarecimento de combustíveis e fretes, que dificulta a trajetória de queda da inflação. O segundo é o aumento da procura global por proteção, que pressiona o câmbio e sustenta o argumento de juros altos por mais tempo.
Esse ambiente tende a pesar sobre empresas alavancadas, companhias dependentes de capital de giro, setores de consumo e negócios cujo valor de mercado depende mais fortemente de expectativas de crescimento futuro.
Bancos e B3 entram pela via dos juros e do risco
Os bancos não são impactados diretamente pelo preço do combustível, mas entram na leitura por outro canal: juros, crédito, inadimplência e aversão a risco.
Em um cenário de inflação mais pressionada e menor espaço para cortes da Selic, nomes como Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4; BBDC3), Banco do Brasil (BBAS3), Santander Brasil (SANB11), BTG Pactual (BPAC11) e B3 (B3SA3) podem refletir mudanças nas expectativas para atividade, crédito e fluxo de capital.
No fechamento, ITUB4 variou -1,27%, BBDC4 teve queda de -0,73%, BBAS3 encerrou com variação de -1,01%, BPAC11 fechou em -1,10% e B3SA3 registrou -2,00%.
A leitura, porém, deve ser feita com cuidado. Bancos podem se beneficiar de juros mais altos em algumas linhas, mas também tendem a sofrer se o ambiente de incerteza elevar inadimplência, reduzir concessão de crédito ou aumentar a aversão a ativos de risco.
Ibovespa sente aversão ao risco
Além da leitura setorial, a escalada no Oriente Médio também afeta o fluxo para ativos brasileiros. Rebecca Nossig, analista de investimentos da Nomad, afirma que o Ibovespa recuou em resposta ao colapso do frágil acordo de paz no Oriente Médio e à forte aversão ao risco nos mercados globais.
Segundo ela, a alta do petróleo embute rapidamente um prêmio de risco no barril, mas o fator que puxou o mercado nacional para baixo foi o impacto do cenário de guerra sobre as expectativas de inflação e juros globais. Petróleo mais caro representa um choque de custos na cadeia produtiva mundial e pode levar bancos centrais, especialmente o Federal Reserve, nos Estados Unidos, a manterem juros restritivos por mais tempo.
Rebecca afirma que, diante desse ambiente, investidores globais tendem a fazer uma “fuga para a qualidade”, reduzindo exposição a mercados considerados mais arriscados, como o Brasil, e buscando proteção em títulos do Tesouro americano e no dólar. Esse movimento pode pressionar o real e ofuscar os ganhos isolados do setor de energia.
Quem pode ganhar e quem pode perder com petróleo mais caro
| Grupo de empresas | Ações | Leitura estrutural |
|---|---|---|
| Petroleiras e produtoras de óleo e gás | Petrobras (PETR4; PETR3), PRIO (PRIO3), Brava Energia (BRAV3) e PetroReconcavo (RECV3) | Tendem a se beneficiar de um Brent mais alto, já que a receita acompanha a cotação internacional do petróleo. O efeito é mais direto para empresas produtoras e exportadoras da commodity. |
| Empresas da cadeia de combustíveis e energia | Vibra (VBBR3), Ultrapar (UGPA3) e Cosan (CSAN3) | Podem ter algum benefício com maior movimentação na cadeia de combustíveis e energia, mas a leitura é mais mista. Petróleo mais caro também pode elevar volatilidade, necessidade de capital de giro e pressão sobre demanda. |
| Companhias aéreas | Azul (AZUL54) | Estão entre as mais sensíveis à alta do petróleo, por causa do peso do combustível de aviação nos custos. Dólar mais forte e juros elevados também podem pressionar margens, dívida e demanda. |
| Transporte, logística e mobilidade | Rumo (RAIL3), Motiva (MOTV3), Vamos (VAMO3) e Localiza (RENT3) | Podem sofrer com aumento de diesel, fretes, custos operacionais e financiamento. Empresas com frota, concessões, aluguel de veículos ou logística tendem a sentir o choque de custos de forma mais direta. |
| Petroquímica e indústria química | Braskem (BRKM5) | Fica exposta ao encarecimento de insumos ligados à cadeia do petróleo e ao dólar. Se a demanda não acompanhar, a pressão pode aparecer nas margens. |
| Varejo e consumo discricionário | Magazine Luiza (MGLU3), Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Azzas 2154 (AZZA3) e Vivara (VIVA3) | Sofrem de forma indireta. Petróleo mais caro pode elevar inflação, reduzir renda disponível, encarecer crédito e fretes, pressionando vendas e margens. |
| Construção civil | MRV (MRVE3), Cyrela (CYRE3), Cury (CURY3) e Direcional (DIRR3) | O impacto vem principalmente pelos juros. Se o choque do petróleo dificultar cortes da Selic, o setor pode enfrentar crédito mais caro e menor apetite por compra de imóveis. |
| Bancos e setor financeiro | Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4; BBDC3), Banco do Brasil (BBAS3), Santander Brasil (SANB11), BTG Pactual (BPAC11) e B3 (B3SA3) | A leitura é mais indireta. Juros mais altos podem favorecer margens financeiras em algumas linhas, mas aversão ao risco, menor crescimento, inadimplência e queda no apetite por Bolsa podem pesar sobre o setor. |

