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SÃO PAULO – A moeda norte-americana encerrou o terceiro trimestre de 2010 com desvalorização de 5,79% em relação ao real, e manteve o comportamento de queda diante da divisa brasileira em outubro, chegando a renovar, no dia 13, a mínima desde 1º de setembro de 2008, apesar das medidas tomadas pelo governo para impedir que esse movimento se aprofunde.
O mais recente foi o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para investimento estrangeiro em renda fixa e aplicações como fundos multimercado e fundos de ações, que passou de 4% para 6%, de acordo com anúncio feito pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, na véspera.
Perdedores são fáceis de apontar
Além disso, Mantega também anunciou a elevação, de 0,38% para 6%, do IOF cobrado sobre a margem de garantia dos investimentos estrangeiros em todas as operações no mercado futuro. Para grande parte dos analistas que comentaram a decisão, no entanto, esta deve ser uma medida com efeitos pouco importantes na trajetória do dólar em prazos alongados, conforme aponta André Perfeito, da Gradual. O objetivo de tais medidas, aponta o economista, é proteger a indústria nacional – o setor mais afetado pela valorização da moeda, com a perda de competitividade com a entrada de produtos mais baratos importados no mercado doméstico.
De acordo com estudo elaborado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), no primeiro semestre os manufaturados responderam por 81,9% de tudo o que foi importado no Brasil e, com isso, parte do crescimento do mercado interno passou a ser atendido por empresas estrangeiras.
Ainda assim, avalia Cristiano Sousa, economista do Santander, é um exagero falar de desindustrialização por causa do câmbio, já que a base industrial brasileira é diversificada e extensa.
Outro alvo fácil apontado são as empresas que dependem de vendas para o mercado internacional. As exportadoras de produtos alimentícios, especialmente proteínas como frango e carne bovina, por exemplo, viram os fundamentos se deteriorarem no terceiro trimestre, conforme indicam Fernando Ferreira e Isabella Simonato, do Bank of America Merrill Lynch.
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Exportadoras buscam balanço
No caso de Marfrig (MRFG3), Br Foods (BRFS3) e JBS (JBSS3), a apreciação do real impacta as margens dos negócios, além do efeito de pressão causado pelo aumento do preço de insumos, como soja e milho. Empresas do setor agrícola também sofrem impacto, como a SLC Agrícola (SLCE3), indica o BofA.
A Vale (VALE3, VALE5) também é prejudicada em seu faturamento com as vendas no mercado externo. No entanto, a forte posição de competição da mineradora em seu segmento de atuação no âmbito internacional, lembra Martins, fornece a ela a capacidade de reajustar preços em dólar, o que em parte compensa essa perda com as exportações.
Além disso, os preços do minério de ferro e de outras commodities apresentaram expressivas altas desde o início de setembro, o que é justificado tanto pela própria desvalorização do real frente a diversas divisas mundiais, e não apenas ao real, o que aumenta a atratividade de outros investimentos, como pela sazonalidade e a percepção de que a China segue em ritmo de expansão, aponta a LCA.
Ricardo Martins, gerente da área de pesquisa da Planner Corretora, lembra ainda que empresas com recebíveis em dólar, como a Eletrobras (ELET3, ELET6), tendem a ser prejudicadas com uma valorização do real, assim como as companhias que têm operações importantes fora do País, como é o caso da Gerdau (GGBR4), com a Ameristeel. Na hora que internarem esse investimento por meio da equivalência patrimonial, essas companhias irão observar diminuição do lucro obtido, observou o gerente da Planner.
Alguns setores também ganham
Por outro lado, apesar do viés negativo para alguns setores específicos da economia, Cristiano Souza, do Santander, acredita que, na média, existe equilíbrio em termos gerais. Dentre os beneficiários do avanço do real, aponta Souza, estão os importadores que vendem no mercado doméstico, que tende a continuar aquecido, especialmente porque o câmbio apreciado aumenta o poder da população em geral.
“Se os importados ficam mais baratos, o consumidor tem mais dinheiro para comprar mercadorias – inclusive aquelas que não são importadas”. Martins, da Planner, também enxerga um benefício para as revendedoras no mercado doméstico, em que as vendas no varejo, divulgadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apontaram alta de 2% em agosto.
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A Cesp (CESP6), lembra Martins, é outra beneficiada, mas na linha financeira de seu balanço, assim como outras empresas que tenham grande endividamento em dólar – já que, automaticamente, a dívida em reais diminui. O Morgan Stanley também aponta para a Fertilizantes Heringer (FHER3), que acaba beneficiada por ter exposição na moeda norte-americana.
A temporada de balanços, que se iniciou no dia 8 de outubro aqui no Brasil e deve se intensificar na próxima semana, deve trazer em números os efeitos – positivos e negativos – da apreciação do real para essas companhias. No entanto, Ricardo Martins, da Planner, não acredita em ainda mais volatilidade por causa desse efeito, já que, em sua opinião, o mercado já observou quem leva vantagem ou não antes da divulgação. O único efeito que pode ser mais sentido, explica, é naquelas empresas em que houver disparidade excessiva em relação às previsões, o que assusta o mercado, conclui.