Quebra de patente de canetas emagrecedoras: como pode virar a chave de ações da B3?

Com preços mais acessíveis e aumento da produção, medicamentos podem representar 10% do mercado farmacêutico nacional

Erick Souza

Ativos mencionados na matéria

Injeções de Ozempic, medicamento da Novo Nordisk (Bloomberg)
Injeções de Ozempic, medicamento da Novo Nordisk (Bloomberg)

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Com a nova negativa do Tribunal de Justiça para a extensão do pedido da patente da semaglutida, divulgada na quarta-feira (17), os analistas começaram a especular sobre os possíveis impactos que a mudança pode trazer para o mercado no Brasil.

A semaglutida é o princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, as populares canetas emagrecedoras, usadas, à princípio, para o tratamento do diabetes tipo 2. Sem a extensão, a patente está prevista para expirar em março de 2026, o que pode sacudir com o mercado, especialmente para os varejistas farmacêuticos.

Análises iniciais mostram que grandes farmacêuticas têm uma boa oportunidade de crescimento a partir dessa liberação, como a RD Saúde (RADL3) e a Hypera (HYPE3), de acordo com o Morgan Stanley. A primeira, com liderança de cerca de 35% de participação no mercado. Mais cedo nesta semana, o Itaú BBA também mostrou que, na região sul, a Panvel pode ter participação de em torno de 25-30%.

Viva do lucro de grandes empresas

Com as altas expectativas para a quebra da patente, o Morgan atualizou o preço-alvo para o final de 2026 para o RD de R$ 28. Já para a Hypera, o preço-alvo foi estimado em R$ 31, com potencial para reprecificação nos dois casos, considerando o potencial de alta dos GLP-1.

Dentro das mesmas expectativas, o BBA atualizou o preço-alvo para a Panvel de R$ 13 para R$ 14 até o final de 2026.

Oportunidades de sobra

As análises do Morgan Stanley posicionam a RD Saúde na liderança da corrida pelo mercado de GLP-1 no Brasil, vendendo tanto o medicamento de marca, quanto a versão genérica. A cobertura nacional combinada com a forte presença digital e a relação próxima com a indústria criam um ambiente propício para a companhia poder surfar na oportunidade.

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O banco desenha bons resultados para a companhia, com os GLP-1 podendo representar 11% das vendas brutas até 2026, com aumento para 14% até 2030 com margens do segmento melhorando dos atuais 15% para 20% no mesmo período.

Para o Morgan Stanley, a Hypera depende um pouco mais de como o cenário será definido no próximo ano, mas também tem grande potencial de aproveitar a oportunidade. Segundo os analistas, a produtora de genéricos pode dar alto retorno, caso a aprovação da Anvisa aconteça de maneira rápida.

“Caso a Hypera obtenha aprovação antecipada e figure entre os primeiros entrantes (como esperado em nosso modelo), poderá capturar uma participação relevante e construir forte valor de marca em um segmento em rápida expansão”, explicam. A expectativa é que os GLP-1 representem cerca de 7% da receita da companhia até 2030.

Horizonte promissor

A XP Investimentos vê o anúncio como positivo para as farmácias e pode representar um bom empurrão dos medicamentos GLP-1 no Brasil para os próximos anos, com o potencial dos genéricos ainda não totalmente dimensionado.

Leia mais: Ozempic: STJ decide que patente vencerá em 2026; o que isso muda para o paciente?

O banco Morgan Stanley acredita que a expiração do prazo pode resolver alguns dos principais gargalos do mercado brasileiro de produtos GLP-1. Dentre eles, o relatório prioriza os preços elevados e o baixo estoque, o que diminui a penetração do produto, especialmente em camadas mais populares. O banco prevê que o custo de produção de medicamentos com semaglutida pode cair cerca de 70% até 2027.

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O Itaú BBA endossa a crença de que a entrada dos genéricos vai ampliar o mercado, mas com uma certa vantagem para as grandes redes farmacéuticas, que devem concentrar a oferta, ao menos no início desse processo.

Medicamentos no Brasil

O relatório do Morgan Stanley mostra que, atualmente, apenas 2% da população adulta do Brasil — cerca de 3,5 milhões de pessoas — tem acesso aos GLP-1 no país. Um dos principais motivos é o preço. O valor dos medicamentos podem variar entre R$ 800 e R$ 1.600 por mês.

De acordo com os analistas, a diminuição do preço vai ser o principal catalisador do crescimento desse mercado no país. A estimativa do banco é de que o valor do produto tenha uma redução de 70%, podendo cair para cerca de R$ 300 até o segundo quadrimestre de 2027.

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Para o banco, os GLP-1 estão no caminho de representar, aproximadamente, 10% do mercado de varejo farmacêutico do Brasil até 20230.

Com a queda do preço, mais brasileiros devem começar a acessar o medicamento. A aposta do Morgan Stanley é de que o número de usuários salte de 1,8 milhões para 7,6 milhões até lá. O BBA ainda aposta em um crescimento maior com a entrada de alternativas orais em 2027.

Outros setores

Além do setor farmacêutico, o banco aponta outros setores afetados.

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Em alimentos e bebidas, o Morgan Stanley vê a crescente adoção do GLP-1 tendo efeitos opostos no consumo de cerveja/álcool e proteínas. Em relação às bebidas alcoólicas, evidências dos EUA sugerem que o aumento do uso de medicamentos relacionados ao GLP-1 pode representar um obstáculo estrutural para o consumo de cerveja: o banco estima um impacto negativo potencial anual de 0,8% no volume até 2028. Isso pode afetar as ações da Ambev (ABEV3).

Em relação às proteínas, observa que os usuários de GLP-1 demonstram maior preferência pelo consumo de carne bovina, frango e carne suína. A análise de sensibilidade sobre os impactos potenciais implica em um aumento na demanda de +2,8%, +1,6% e +3,1% para carne bovina/frango/carne suína até 2028.

“Nossos resultados corroboram nossa visão de preços mais altos para proteínas por um período mais longo, especialmente em 2026. Evidentemente, este é um fator positivo de longo prazo para toda a nossa cobertura de proteínas, mas preferimos explorar esse tema com a JBS [BDR: JBSS32] e a Minerva [BEEF3] (ambas com recomendação de compra)”, aponta.

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O risco é limitado para o varejo de alimentos, ventos favoráveis ​​para o vestuário. “Observamos um risco mínimo de queda direta para os varejistas de alimentos devido aos atributos de supressão do apetite do GLP-1, com o consumo total de calorias no Brasil projetado para diminuir apenas cerca de 1% até 2035. A mudança no sortimento para categorias focadas em produtos frescos e saudáveis, incluindo suplementos, deve ajudar a mitigar o declínio nas categorias de ‘alimentos não saudáveis'”, destaca. O banco vê um impacto limitado para o Assai [ASAI3], enquanto que, para o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), sua exposição a consumidores de renda mais alta é equilibrada pelo foco em categorias de produtos frescos.

Para o setor de vestuário, o segmento poderá se beneficiar de um “ciclo de renovação” do guarda-roupa, à medida que os usuários de GLP-1 perdem peso, impulsionando um crescimento real adicional de até 4 pontos percentuais por ano até 2028. A Azzas (AZZA3) parece estar em melhor posição devido ao seu foco em produtos premium, diz o Morgan, enquanto a C&A (CEAB3) e a Renner (LREN3) podem capturar a demanda por roupas esportivas casuais. “No geral, a adoção do GLP-1 introduz mudanças estruturais modestas para o varejo de alimentos, mas cria uma clara oportunidade de crescimento para o vestuário, principalmente entre os consumidores de renda mais alta”, conclui.

Já para restaurantes e academias, o aumento do uso de GLP-1 está começando a remodelar o comportamento em relação ao fitness, com orientações médicas cada vez mais rigorosas incentivando os usuários a se engajarem em exercícios estruturados – principalmente treinamento de força – para compensar a perda de massa muscular magra. Essa tendência favorece um maior engajamento com rotinas focadas em resistência, posicionando a Smart Fit (SMFT3) para se beneficiar de uma base de usuários de academia mais focada em saúde e consistente.

“Para restaurantes, os dados da pesquisa indicam que os usuários de GLP-1 reduzem os gastos em cerca de 8%, o que implica um impacto modesto para as redes de fast food, que estimamos em menos de 0,5%”, avalia. Para a Arcos Dorados, maior franqueada independente do McDonald’s no mundo, avalia em um impacto ainda menor, dada a sua base de clientes focada em custo-benefício.

“À medida que a penetração do GLP-1 se expande, acreditamos que a Smart Fit está estruturalmente melhor posicionada para aproveitar o potencial de crescimento, enquanto as redes de fast food podem precisar continuar evoluindo por meio de inovações em seus cardápios para se manterem relevantes”, ressalta.