Qual o impacto do corte da Selic no seu bolso?

Financiamentos devem continuar caros devido ao risco de inadimplência; re-direcionamento das aplicações ainda deve ser visto com cautela

Publicidade

SÃO PAULO – Contrariando as expectativas da maior parte do mercado, que depois de três meses seguidos já havia perdido as esperanças de um novo corte nos juros em breve, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou nesta quarta-feira que estaria reduzindo a taxa de juros básica da economia, a Selic, em 0,50 ponto percentual.

Este foi o terceiro corte nos juros desde o início de 2002, já que a Selic já havia sido reduzida em fevereiro e março, e agora caiu para 18% ao ano. A pergunta que fica é: qual deve ser o impacto desta decisão no bolso do consumidor?

Financiamentos devem continuar caros

O corte da taxa básica de juros não significa que os juros cobrados no
cheque especial, cartão de crédito ou outros tipos de financiamento devam cair na mesma proporção. Isto porque, ao decidir o nível dos juros que irão cobrar dos consumidores ou das empresas, os bancos e financeiras levam em conta vários fatores, dentre os quais a taxa básica de juros, mas fatores como risco de crédito também são considerados.

Infelizmente para os bons pagadores, o problema é que a inadimplência, isto é, risco de uma pessoa que levanta um financiamento atrasar ou não pagar as prestações, ainda segue elevado. Com isto, os bancos e financeiras acabam optando por manter os juros elevados como forma de se proteger da inadimplência. Para o bom pagador isto significa que você paga a mais para compensar as perdas que os bancos e financeiras têm com os maus pagadores.

Tanto isto é verdade que, mesmo antes deste último corte, os juros básicos da economia já havia caído 0,50 ponto percentual em 2002, enquanto os juros médios cobrados nos financiamentos para pessoas físicas, com base nos dados da Anefac (associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade), passaram de 8,03% em janeiro para 8,07% em junho.

Retorno da renda fixa segue alto

Não é porque os juros básicos caíram 0,50 ponto percentual que você deve correr ao banco e mudar completamente a forma como investe seu dinheiro. Antes é preciso entender seu objetivo de investimento, prazo em que pretende deixar o dinheiro aplicado, etc.

Continua depois da publicidade

Diante das incertezas acerca das eleições presidenciais, para quem investe por um prazo relativamente curto, isto é, de menos de um ano, a melhor opção segue sendo a renda-fixa, que inclui a poupança, os CDBs, os fundos DI e de renda fixa e as letras hipotecárias. A escolha entre uma aplicação ou outra vai depender não só do valor investido, como também do prazo em que você pretende manter seu dinheiro aplicado.

Apesar da redução dos juros para 18% ao ano, o retorno das aplicações em renda fixa continua bastante elevado. Afinal, a inflação deve cair em 2002, e, mesmo que fique nos mesmos 10% do ano passado, o retorno real ainda seria de cerca de 8% ao ano. Pouquíssimas aplicações financeiras garantem este tipo de rentabilidade real sem implicar em riscos, portanto a renda fixa continua apresentando um ótimo retorno ajustado para o risco.

Como a tendência para os juros em 2002 e 2003 é de queda, o melhor é optar pelas aplicações pré-fixadas, como os CDBs Pré-fixados e os fundos de renda fixa, pois em épocas de queda dos juros os fundos que aplicam em títulos de renda fixa pré-fixados têm um desempenho melhor do que os fundos que aplicam em títulos pós-fixados, como é o caso dos fundos DI.

Continua depois da publicidade

Bolsa pode ser beneficiada

A queda dos juros certamente beneficia a bolsa, visto que uma redução nos juros permite um maior crescimento da economia, que por sua vez tem efeitos benéficos sobre o faturamento das empresas. A melhora nas perspectivas de faturamento e, conseqüentemente, de lucros das empresas é que leva a bolsa a subir.

Contudo, apesar do principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, acumular perdas de cerca 20% em pouco mais de seis meses, a opção pelo investimento em bolsa ainda deve ser vista com cautela. Nossa recomendação é que o investimento em ações pode ser uma alternativa interessante de diversificação, para cerca de 10-20% das suas economias, desde que sua intenção seja de investir no médio e longo prazo.

Investimento em dólar pode ser arriscado

O dólar, como pudemos evidenciar nas últimas semanas, tem funcionado como termômetro do nervosismo do mercado, já que quanto mais nervosos os investidores mais o dólar sobe, e vice-versa. Neste sentido, o aumento das incertezas políticas e do risco-país fez com que a moeda disparasse desde o início de junho, chegando próximo dos R$ 3,00.

Continua depois da publicidade

Contudo, diante de uma valorização acumulada no ano de 25% fica difícil recomendar o investimento em dólar, a não ser para pessoas que estejam expostas à flutuação da moeda, seja através do pagamento de dívidas ou gastos. Mas para quem acredita que a vitória de um candidato de oposição será o fim da economia brasileira, então a aplicação em dólar pode ser uma boa opção, pois sob este cenário o dólar certamente irá disparar.

O grande problema é que, em um cenário de caos, todos saem perdendo e esta é uma aposta que sinceramente não vale a pena fazer. Por último, se sua intenção é investir no médio-longo prazo, então colocar cerca de 10% das suas economia pode ser uma boa alternativa de diversificação.

Re-direcionar aplicações exige cautela

Considerando que a tendência para os juros continue sendo de queda, a pergunta que fica é como re-alocar suas aplicações. Para quem tem como horizonte de investimento prazos inferiores a seis meses, não há o que fazer, o jeito é concentrar as economias em aplicações de renda fixa.

Continua depois da publicidade

Contudo, para quem não pensa em sacar antes de dois anos, é possível pensar em re-direcionar as aplicações. Ainda assim, o ideal é manter boa parte, pelo menos 60%, das aplicações em renda fixa com o objetivo de proteger e fazer crescer o seu patrimônio, e o restante para aplicações mais agressivas, que incluem ações, dólar, imóveis, etc.

Quanto mais você tiver acumulado, ou maior for o prazo que você pretende deixar o dinheiro aplicado, então a parcela direcionada para aplicações agressivas pode ser maior, caso contrário seja prudente e direcione no máximo 20% das suas economias para este tipo de aplicação.