Análise

Quais são as consequências da saída dos EUA do acordo nuclear com o Irã?

Anúncio feito por Donald Trump vem em linha com expectativas e promessas de campanha, mas indica novo movimento isolacionista norte-americano

arrow_forwardMais sobre

SÃO PAULO – O anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de saída do acordo nuclear firmado com o Irã e a retomada de sanções contra o país persa recebeu ampla cobertura e provocou reações distintas na comunidade internacional. A decisão recebeu duras críticas do presidente iraniano Hasan Rohani, assim como de outras partes envolvidas no acordo, como França, Alemanha, Reino Unido e Rússia. Em outra ponta, houve forte apoio por parte de aliados norte-americanos na região, como Israel e Arábia Saudita. Mas quais são as consequências esperadas deste novo episódio? Para entender melhor os efeitos da notícia, o InfoMoney ouviu dois internacionalistas. Eis os principais pontos das análises:

Pedro Costa Júnior

Professor dos cursos de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e da Facamp

Há uma coerência na decisão do presidente Donald Trump com o que ele prometia durante a campanha eleitoral. Do ponto de vista interno, ele foi um candidato anti-Obama e agora está destruindo o legado de seu antecessor, passando pelo acordo nuclear envolvendo o Irã, que foi construído na gestão do democrata e muito criticado pelo republicano durante a corrida presidencial. Na prática, novamente, Trump está cumprindo o que prometeu lá atrás.

PUBLICIDADE

Do ponto de vista geopolítico, o efeito direto disso é um maior isolacionismo dos Estados Unidos no sistema internacional, movimento já sinalizado em outras situações pela atual política externa do país, como na ausência da Cúpula das Américas ou na saída do Acordo de Paris. Ao final do mandato, a tendência é o país sair diminuído em comparação com o início deste ciclo.

No caso específico de hoje, é importante salientar que o acordo não é com o Irã, mas envolve outros países. O JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global, da sigla em inglês) envolve também os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) — Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China –, além da Alemanha. O anúncio de Trump reforça postura isolacionista, eliminando o soft power norte-americano, seu poder de influência sobre o mundo. Na geopolítica, os espaços existem para serem ocupados, não há vácuo. Alguém vai ocupar esse espaço na era Trump.

Houve fortes críticas na comunidade internacional, mas também é preciso destacar a satisfação de aliados como Israel, com quem o estreitamento aponta para uma relação umbilical, e Arábia Saudita. É preciso refundar o acordo nuclear envolvendo o Irã. Um acordo sem os EUA não é o mesmo. A partir do momento que eles saem, as condições podem mudar. Contudo, ainda é preciso aguardar o comportamento de outros atores e como se desenrolará o delicado processo.

Rodrigo Gallo

Professor dos cursos de Relações Internacionais da FESPSP e da FMU

A ausência norte-americana do acordo tende a provocar um incremento no nível de tensão geopolítica. Nos últimos dias, diversos governos mostraram-se contrários ao possível anúncio de saída por Trump. Isso mostra que reconhecem o peso simbólico dos Estados Unidos, em que pesem todos os gestos isolacionistas da atual gestão. Provavelmente, o que vai acontecer até o início das sanções é mais uma série de trocas de farpas. O acordo pode até continuar existindo na teoria, mas na prática pode ser destruído.

Há claras ambiguidades na política externa de Trump. É muito difícil analisar, no calor do momento, por que isso ocorre de modo tão visível. O país adota isolamento em algumas questões, como as missões de paz da ONU, mas intervém em outras, como o bombardeio na Síria, em resposta a suposto uso de armas químicas por parte do governo de Bashar al-Assad. Há uma seletividade sobre onde se envolver.

PUBLICIDADE

Um dos apoiadores da decisão de Trump foi Israel. Eles esperam mais sanções para limitarem o desenvolvimento mais consistente de um programa nuclear iraniano. Por outro lado, propor aumento de sanções em um momento delicado economicamente e conflito na Síria pode resultar em aumento de tensões no Oriente Médio, em sentido contrário à narrativa do presidente norte-americano. O risco continua existindo e a situação cria conflitos diplomáticos para outros países da região, como a Turquia.

Para se ter uma ideia mais clara dos desdobramentos da questão é preciso observar como se comportarão os mais distintos atores e quais tensões serão formadas em função deste novo evento.

Quer investir em ações pagando só R$ 0,80 de corretagem? Clique aqui e abra sua conta na Clear