Fato Real

Protestos: o divórcio do poder e política

A possibilidade de que o governo da presidente Dilma Rousseff prossiga na administração do país diminuiu substancialmente. No máximo, nos próximos sessenta ou noventa dias o destino da presidente constitucionalmente eleita estará selado

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É difícil quem alguém que tenha participado das manifestações deste domingo, dia 13 de março de 2016, admita que os protestos engendrados nas principais cidades brasileiras são mera parte adjacente ou, até mesmo, coadjuvante, do que está a ocorrer e doravante virá.

A possibilidade de que o governo da presidente Dilma Rousseff prossiga na administração do país diminuiu substancialmente. No máximo, nos próximos sessenta ou noventa dias o destino da presidente constitucionalmente eleita estará selado. Difícil imaginar como subsistirá diante da reunião de todos os ingredientes políticos e econômicos reunidos para a sua deposição.

De fato, a força-motriz do golpe final contra a presidente não foi dada pelas manifestações das ruas neste domingo. Relevante mesmo foi o providencial jantar na casa do Senador cearense Tasso Jereissati que reuniu os próceres do PMDB e do PSDB. Naquela ocasião, dia 9/3/2016, foi selado o destino do governo e da presidente. Formou-se, dentro da tradição autoritária do país, a aliança central sob a qual gravitará o largo conjunto de políticos e partidos “fisiológicos”, ávidos para se integrar à “dupla dinâmica” que mandará no Palácio do Planalto nos próximos anos. Esquecerão Dilma, depois de conviver com ela e as mercancias de seu governo petista. Agora vão negociar em outras freguesias. As ruas não levam isso em seus cartazes.

Neste contexto, os vultosos e vistosos cartazes e bonecos que mostravam a indignação da população ao governo nas principais cidades brasileiras são muito pouco frente ao convescote na quarta-feira passada em Brasília.

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Nas próximas semanas a situação para a administração federal deve ser asfixiante. Sem apoio material no Congresso Nacional, o governo melancolicamente tentará reagir. Deve ser inútil. A alternativa seria o de atrair equivalente apoio popular para suportar a estratégia de permanência do governo. A probabilidade disso é baixíssima, senão inexistente. O governo é desastrado: a política econômica é arremedo dos preceitos neoliberais e carece de mínimas características do ideário da esquerda populista latino-americana. Ou seja, Dilma Rousseff caiu na tragédia ao se tornar um “grande nada”. O vácuo não é habitat do Poder, como se sabe.

A reação no curto prazo dos diversos segmentos do mercado e dos agentes econômicos deve ser muito rápida e positiva. As cotações dos ativos devem se elevar velozmente e a volatilidade despencará. Ao menor respiro de confiança diante da trágica política econômica de Dilma Rousseff, os agentes econômicos desmontam as suas posições “vendidas” em ativos brasileiros e ficam com posições “compradas”. Este movimento, de fato, já começou há mais de um mês. O mercado é uma parcela informada da opinião pública. Assim sendo, aproveita-se do cenário para apurar e formar novas posições que lhe pareça mais lucrativas. Dilma Rousseff é o a antítese do que deseja o mercado. A formação do governo Temer sob os auspícios da aliança PMDB-PSDB é o que é possível e útil ao mercado neste momento. O resto é diversionismo das ruas, da gente bem-intencionada (ou não) que não percebe o que ocorre nas entranhas do Poder. Os inocentes são úteis aos pactos dos poderosos, já informou o velho Nicolau ao final do século XV e início do XVI.

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E no médio prazo? Restará ao governo e ao país os tradicionais problemas estruturais. A fome, a miséria, a falta de educação, a calamidade da saúde, a falta de moradia, a endemia da criminalidade, a falta de tecnologia, a infraestrutura deficiente, etc. devem ser colocadas de lado, lugar onde sempre estiveram. O importante será a obtenção do novo equilíbrio macroeconômico. Suspeito que isso será conseguido rapidamente, entre seis e doze meses, no máximo. A economia brasileira está num cenário calamitoso porque falta confiança. Sem este atributo, os agentes travaram o consumo e o investimento. Assim, o PIB despencou e agravou as contas públicas federais e de estados e municípios e tornou o cenário altamente propenso para que em espiral o pessimismo se alastrasse. Ora, reconstituído o governo, a confiança mínima retorna e beneficia o novo poder incumbente. Obviamente, não estou a me referir às reformas estruturais, apenas ao retorno da mínima racionalidade das identidades das equações básicas da economia: déficits externo e doméstico equilibrados, inflação sob controle, juros mais módicos, contas públicas conjunturalmente ajustadas e assim vai.

Quanto às reformas estruturais, estas dependerão do quadro político pós-Dilma. O cenário de reformas mitigadas é, por tradição, o de maior probabilidade. Quem viver, verá.

Por fim e não menos importantes, ficam algumas anotações sobre o momento da política nacional.

Em primeiro lugar não nos esqueçamos que a “Operação Lava Jato” tem a sua lâmina gravitando sobre muitos que farão parte do novo pacto de poder. A imagem do vice-presidente Michel Temer, cercado por Renan Calheiros e Eduardo Cunha, na mesa principal da convenção do PMDB neste sábado (12/3/2016) é significativa. Ali estão três personagens que indicaram apaniguados para as diretorias da Petrobras ao longo dos anos Lula e Dilma. Com efeito, os riscos policiais e judiciais decorrentes desta alocação de “compadres” não são pequenos. Não à toa que o PMDB vergonhosamente deu um “aviso prévio” de 30 dias para se afastar do governo. O partido precisa verificar como evolui o cenário em Curitiba, sede mais importante da “Operação Lava Jato”. A corrupção no Brasil é generosa com as elites políticas e, neste sentido, a coloração partidária não faz diferença: receber benesses privados em troca de concessões variadas no âmbito público é pratica comum da prefeitura mais modesta do país até o mais importante estado brasileiro.

Em segundo lugar, será preciso verificar como reagirão as forças, mesmo que mínimas, que apoiam o governo Dilma Rousseff. Estas podem aguçar mais que o embate de ideias e da política e, quem sabe, adotar a violência como método de ação. Não creio que assim ocorra, mas certamente se ocorrer é difícil prever os efeitos deste processo, sobretudo quando se sabe que PT et caterva não contam com base eleitoral majoritária.

Por último, não esqueçamos que as multidões se comportam como “napoleões perdidos” quando precisam se definir quanto “ao que fazer”. Construir “novas ordens” é muito mais difícil que destruir as velhas. Aqui e agora no Brasil nem sabemos qual será a “nova ordem”, mesmo porque será a “velha ordem” a servir de base para o que há de vir. Não tenhamos ilusões: sair na rua é parte ínfima para formação da verdadeira consciência que transforma um país.

Encerro, citando Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni no magnífico Estado de Crise (Editora Zahar, 2014) que analisa o Estado e a sua crise atual ao redor do planeta:

“(…) a presente crise difere das suas precedentes históricas à medida que é vivida numa situação de divórcio entre poder e política. Esse divórcio resulta na ausência de agências capazes de fazer o que toda a “crise”, por definição, exige: escolher de que modo proceder e aplicar a terapia reclamada por esta escolha. Ao que parece, essa ausência vai continuar a paralisar a busca de solução viável, até que poder e política, hoje divorciados, se casem de novo”.

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Nada tão cabível ao Brasil pré-modernidade que vivemos.