Entenda

Profissão analista: entenda o que há por trás de uma recomendação de ação

Analistas de mercado despertam amor e ódio entre os pequenos investidores, mas ganham elogios de quem move a bolsa: os gestores

SÃO PAULO – Embora muitas vozes do mercado digam que a quantidade de empresas listadas na BM&FBovespa é pequena, acompanhar todas elas é uma tarefa impossível para uma única pessoa. É por isso que tanta gente recorre aos relatórios dos analistas para saber o que está acontecendo dentro das companhias de capital aberto.

Conhecidos no mercado com o jargão de “sell-side”, esses profissionais “vendem” relatórios sobre a atual situação da empresa. A partir da análise das condições da economia, do horizonte para o setor e dos números divulgados nos balanços das empresas, os analistas fazem projeções do preço-justo de um papel e, comparando-o com a cotação atual, produzem recomendações de compra, venda ou manutenção.

O cálculo é bastante subjetivo porque, para chegar ao preço-justo, o analista tem que assumir uma série de premissas macroeconômicas e perspectivas para as companhias, que podem ou não se realizar no futuro. “Para quem muda o portfólio com uma periodicidade de seis meses, por exemplo, ter essas informações é o ideal”, diz Paulo Bittencourt, diretor técnico da Apogeo Investimentos.

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Assim como alguém que vai trocar de carro procura dicas de especialistas e consulta sites especializados para decidir por um modelo ou outro, os analistas do chamado “sell-side” também ajudam a guiar o investidor em sua tomada de decisões na Bolsa. Da mesma forma que na compra do carro, a palavra de um único analista não deve ser o único critério do investidor, mas deve ser visto como mais um ingrediente de informação e compreensão. “Os analistas do sell-side representam um importante canal entre os investidores e as empresas”, diz Rodrigo Galindo, gestor da Flag Asset. Esse canal é importante para trazer novas informações e ajudar na interpretação das notícias já existentes.

Outra função bem executada pelo “sell-side” é ajudar a mostrar como a maioria do mercado enxergou um evento. Se a Petrobras tiver divulgado um lucro visto como decepcionante pela imensa maioria dos analistas, por exemplo, é bem provável que o papel seja punido no pregão seguinte. Vale (VALE3, VALE5) lembrar que o que forma preço no mercado é a opinião da maioria – e não a sua própria. É como em um concurso de miss: a vencedora será aquela que a maior parte dos jurados considerar mais bonita, e não aquela por quem você imediatamente se apaixonou durante o desfile.

No ambiente institucional, outro papel fundamental dos analistas é viabilizar a própria existência de muitas casas de gestão de recursos. Rodrigo Goes, sócio e chefe da área de research do BTG Pactual, diz que é excelente para o mercado ter uma ampla oferta de casas de “sell-side” porque muitas empresas de “buy-side” – nome dado àqueles que realmente colocam o dinheiro no mercado, como os gestores de fundos – trabalham muitas vezes com equipes enxutas, com duas ou três pessoas na área de gestão de portfólio, e não teriam condições de analisar sozinhos o mercado como um todo.

Qual seguir?
Como em qualquer instituição financeira, no “sell-side” confiança e credibilidade também são fundamentais. Alguns analista obviamente são mais influentes que os outros. “Para o investidor, cabe selecionar, assim como as empresas em que interessa investir, os analistas respeitados que tenham ‘valor de franquia’ no seu nome”, explica Galindo.

Há analistas com opiniões tão certeiras que seus nomes já são bem conhecidos no mercado, mas geralmente o que pesa mais é o banco de investimento onde ele trabalha. As instituições mais respeitadas vêm tanto do Brasil – como o BTG Pactual, Bradesco BBI e Itaú BBA – como do exterior – como JPMorgan, Credit Suisse, Morgan Stanley, Bank of America e UBS.

Procurados pela Revista InfoMoney, muitos gestores de fundos de ações declararam preferência por essas casas, que contam com maior credibilidade e exposição. Alguns analistas dessas instituições possuem uma reputação tão consolidada no mercado que uma simplesmente recomendação de compra pode mover o preço dos papéis na bolsa.

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Um bom exemplo disso ocorreu no final de janeiro, quando a equipe do Bank of America Merrill Lynch, liderada pelo analista Felipe Hirai, produziu um relatório com boas projeções para as ações da Vale. A recomendação aos investidores, que era neutra, foi elevada para compra. Naquele mesmo dia, sem nenhum fato relevante da empresa, os papéis dispararam quase 4%, com um volume acima da média observada no primeiro mês do ano.

Esse é um contraste com as casas menores, que têm mais influência sobre os pequenos investidores e as pessoas físicas. Não significa que a análise deles é pior do que a dos grandes bancos, mas possuem menor impacto no mercado na data da emissão do relatório, simplesmente porque os clientes têm menos dinheiro a alocar. Seguir as recomendações apenas de grandes bancos também não é garantia de performance. Nos levantamentos sobre o desempenho das carteiras recomendadas realizados pelo InfoMoney mensalmente, é bem comum que as pequenas corretoras apareçam entre as vitoriosas. Os próprios analistas de pequenas corretoras também estão entre os principais leitores dos relatórios do sell-side dos grandes bancos

Muitos pequenos investidores que já perderam dinheiro na Bolsa ao seguir uma recomendação de um analista costumam se queixar desses profissionais. Vale lembrar que chegar ao potencial de valorização de uma empresa aberta não é uma ciência exata e que mesmo profissionais experientes sempre podem cometer erros. Ler sem discriminação os relatórios, portanto pode ser perigoso, destaca Goes. “O investidor individual, que não tem experiência, precisa ser muito bem assessorado, precisa de filtro. Para usar os conselhos do sell-side, ele não pode considerar tudo que é publicado”, destaca o executivo do BTG.

Guardar nomes de analistas com um percentual de acerto elevado é bem importante. Um bom analista do setor de energia, por exemplo, é aquele que relata conversas não apenas com os principais executivos das empresas abertas, mas também costuma divulgar informações obtidas em conversas com o Ministério de Minas e Energia, a Aneel, os parlamentares, os consultores do setor e as empresas de meteorologia, entre outros. São essas reuniões que farão com que o analista consiga levantar as informações necessárias para estabelecer as premissas corretas que serão utilizadas no cálculo do preço-justo de uma empresa – e que realmente garantirão ao investidor lucros na Bolsa.

Também é necessário ser desconfiado e não considerar apenas um relatório de um analista quando a instituição na qual ele trabalha possui outros tipos de negócio com determinada empresa aberta. “É sempre importante, para minimizar eventuais conflitos de interesse, verificar a transparência e a rigidez do ponto de vista de compliance da casa na qual o analista trabalha”, diz o gestor da Flag Asset.

Há quem não siga o “sell-side”

Embora o “sell-side” tenha grande aceitação por parte dos analistas de “buy-side”, há aqueles que optam por não ler os relatórios por acreditar que isto não cabe em suas metodologias de investimentos. Paulo Bittencourt, diretor técnico da Apogeo Investimentos, diz que prefere deixá-los de lado, já que seu interesse é contar com análises mais profundas, para investimentos visando períodos mais longos. 

Ele prefere fazer as próprias análises de empresas, estudar a fundo a companhia ou o setor e descobrir sozinho suas forças e fraquezas. Definidos os papéis que serão comprados, o executivo faz seu acompanhamento de tempos em tempos, com a confiança de uma pessoa que compreende a empresa e a percebe como um bom investimento – e não como uma boa indicação. 

“Tem gestor que não quer nem saber o que a empresa faz, que só quer girar a ação, muda o portfólio 15 vezes por ano. É para essas pessoas que serve o sell-side”, alerta. A metodologia de Bittencourt é justamente a contrária: estudar a companhia e compreendê-la para evitar girar seu portfólio em períodos curtos e passar alguns anos com cada uma das ações.

Essa matéria foi publicada na edição 44 da revista InfoMoney, referente ao bimestre maio/junho de 2013. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.