Guerra comercial

Produtos chineses devem invadir Brasil e países para onde exportamos, preveem analistas

Pesquisas mostram que isso já havia acontecido em 2008-2009, após a crise mundial, quando os chineses passaram a exportar mais para países periféricos para compensar a perda de dinamismo das economias centrais

SÃO PAULO – Os efeitos colaterais da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China devem atingir em cheio a indústria brasileira. Com o movimento de desvalorização da moeda chinesa e a imposição de tarifas dos EUA às exportações chinesas – e vice-versa –, a expectativa é de que possa ocorrer uma invasão de produtos Made In China aqui e em países para onde o Brasil exporta, segundo especialistas e associações consultados pelo InfoMoney.

Só para lembrar os últimos capítulos da disputa. No fim de agosto, os EUA passaram a taxar em 15% uma variedade de produtos chineses, como calçados, relógios inteligentes e televisores de tela plana. Além disso, um conjunto de US$ 250 bilhões em importações chinesas deve ter suas tarifas de elevadas em 30%, a partir de 1º de outubro.

Já os chineses, que já haviam afirmado que deixariam de comprar produtos agrícolas dos Estados Unidos, anunciaram, no dia 23 de agosto, que aplicariam uma taxação de 5% a 25% sobre US$ 75 bilhões em bens dos EUA, além do retorno das tarifas para automóveis. Por enquanto, apenas um terço dos cerca de 5 mil itens que a China espera taxar passaram a vigorar. A maioria entrará em vigor no dia 15 de dezembro.

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E o Banco do Povo da China, autoridade monetária do país oriental, decidiu enfraquecer a partir desse mês sua moeda, o Yuan Renminbi (RMB), que ultrapassou a barreira psicológica de 7 por 1 ante o dólar, pela primeira vez desde 2008. A cotação atualmente é de 7,1716 yuan por 1 dólar.

Ao desvalorizar sua moeda, a China torna seus produtos mais competitivos no exterior, abrindo portas em mercados alternativos aos dos Estados Unidos.

Ex-executivo do Banco Mundial, FMI e BID, atualmente membro sênior do Policy Center for the New South e do Brookings Institute, Otaviano Canuto, avalia que, mesmo que o Brasil ganhe espaço no mercado agrícola, com o fechamento da China às importações dos EUA, os efeitos da guerra comercial no médio e no longo prazos devem ser danosos à economia brasileira.

“É um ganho no curto prazo, que não compensa os efeitos deletérios da guerra comercial”, diz, em referência ao efeito da desaceleração econômica global. Para ele, a desvalorização da moeda chinesa traz, como consequência, perda de competitividade em boa parte da economia brasileira. “É evidente que a briga guerra entre EUA e China cria oportunidades, mas também destrói.”

Uma pesquisa do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) apontou que as exportações chinesas de manufaturados na última década afetaram a indústria brasileira pelo efeito concorrência, com a “invasão made In China” não só no mercado interno como nas principais regiões de destino das exportações nacionais de bens acabados.  

Os principais blocos com os quais o Brasil transaciona são Mercosul (Argentina, Uruguai, Paraguai), Aladi (Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela) e Nafta (Estados Unidos, Canadá e México).

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Segundo o instituto, esse efeito passou a ser observado, sobretudo, após a crise econômica global de 2008-2009, quando os chineses elevaram suas vendas aos países periféricos para compensar a perda de dinamismo das economias centrais. 

Entre 2008 e 2012, as vendas chinesas para o Mercosul subiram 74%; as exportações ao Nafta aumentaram 41% e ao Aladi, 115%. Já o Brasil registrou expansão, no mesmo intervalo, de 4,6% ao Mercosul e de 4,3% a Aladi, enquanto as vendas para o Nafta caíram 0,9%. Entre os anos de 2012 e 2015, também houve um maior avanço das exportações chinesas. Apenas no período entre 2015 e 2017, “o efeito concorrencial” foi atenuado.

Com o acirramento da guerra comercial, acredita o IEDI, a tendência é de os números a partir de 2019 se assemelhem com os vistos há dez anos, de crescimento da China. “Isso é um indicativo do que deve ocorrer com a guerra comercial, gerando uma invasão chinesa, o que é preocupante no médio e longo prazos”, diz Rafael Cagnin, economista do IEDI.

José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil, destaca que, antes mesmo do aumento das tensões entre as duas maiores economias globais, os chineses já vêm elevando suas exportações ao Brasil. “A China não diz o que faz, faz e depois se descobre que fez. Já se anteciparam à guerra comercial”, diz.

Entre janeiro e julho, as importações do Brasil da China subiram 7,8%, enquanto as compras da União Europeia recuaram 7,6%. As importações dos EUA subiram 5,2%, mas são compostas, basicamente, por derivados de petróleo. “Não podemos esquecer que 85% do que o Brasil importa são de manufaturados, que têm a China como principal vendedora”, acrescenta Castro.

Impacto setorial

Carlos Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), destaca que os EUA já taxaram o aço chinês em 25%, há cerca de um ano, e que a consequência disso foi o aumento das exportações para os países da América Latina, que avançaram quase 20% no primeiro semestre deste ano. “O deslocamento já acontece, independente da guerra comercial”, diz.

Para Loureiro, o maior problema, porém, é recessão global que a disputa entre as duas maiores economias globais pode gerar. “Há um excesso de quase 400 milhões de toneladas de aço no mundo e, com a guerra comercial, isso pode aumentar, gerando dificuldade às exportações brasileiras, que já não são muitas, e reduzir os preços.”

Entre os setores mais sensíveis ao avanço chinês está o calçadista. Segundo a Associação Brasileira das indústrias de Calçados (Abicalçados), 60% das compras na América Latina do produto tenham como origem a China. Com o adicional de 10% sobre as tarifas de importação de calçados da China pelos EUA, a taxação média no mercado americano subirá para 27,3%.

Para Priscila Linck, coordenadora de inteligência de mercado da Abicalçados, assim que isso se confirmar, poderá ser possível observar, em poucos meses, de forma efetiva um aumento do desembarque do calçado chinês em toda América Latina.

Na avaliação de Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), este é o momento de as empresas nacionais renegociarem com os chineses a compra de insumos – para a produção nacional de celulares e computadores – em melhores condições.

“O Brasil é dependente dos componentes chineses e precisamos usar isso (a desvalorização do yuan) como forma de reduzirmos os custos da nossa indústria”, ressalta Barbato. “É fundamental essa melhora nos preços internamente para competir com as importações chinesas tanto no Brasil como na América Latina”, afirma. “Como os chineses são muito agressivos, isso é uma questão de sobrevivência”, acrescenta.

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