Produtoras de carne driblam pressão de preços de grãos, mas desafios permanecem

Para analistas, commodities seguem em alta e devem exercer pressão sobre companhias; alta do real também preocupa Fitch

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SÃO PAULO – Os preços de commodities agrícolas atingiram patamares recordes em 2010. Entre fenômenos climáticos e o aumento da demanda externa, empresas ligadas ao segmento viram suas ações avançarem em dois dígitos no último ano – caso, por exemplo, da SLC Agrícola (SLCE3, +36,66%). No entanto, as produtoras de carne têm se mostrado capazes de escapar da alta de preços dos grãos que alimentam seu gado, apelando para alternativas secundárias, como a venda de aves.

“As empresas de carne têm se mostrado aptas a repassar a maior parte do aumento de preços do gado, então não devemos ver grandes contrações nas margens”, afirmam os analistas Carlos Albano e Márcio Kawasaki, em relatório do Citigroup. Eles destacam que na passagem de novembro a dezembro, os preços do gado caíram em média 7% na BM&F Bovespa, enquanto as matérias-primas exerceram pouca pressão em termos de preço.

Nos Estados Unidos as margens de produtores de carnes estão sazonalmente próximas de suas mínimas do ano e dos níveis de break-even. Entretanto, os cálculos das margens deixam de considerar os valores dos subprodutos, que estão nos maiores níveis dos últimos 2 anos e meio e devem contribuir com as margens das companhias.

Tanto lá quanto aqui, “os preços das exportações de aves continuam a aumentar, e devem parcialmente ofuscar as pressões de custos causadas pelos grãos”, afirmam Albano e Kawasaki. A Brasil Foods (BRFS3), por exemplo, teve um crescimento de 3% nos preços de aves vendidas na passagem mensal para dezembro.

Em termos de volume e preços, a carne de frango mostrou um desempenho acima da carne bovina nas exportações brasileiras do último ano. O Banco do Brasil diz que a quantidade de carne vermelha mandada ao exterior foi 2,7% superior e com preços em dólares 25,7% maiores do que em 2009. Já a carne de frango mostrou crescimento de 5,8% nas vendas e um aumento de 13,5% nos preços em dólares.

Fatores de pressão
No entanto, não há como negar que as empresas de carne enfrentam desafios para manter ou expandir sua lucratividade e seu processo de desalavancagem, diz o analista Alan Alanis, do JP Morgan. Algumas das principais empresas listadas por aqui, como JBS (JBSS3) e Marfrig (MRFG3), amargaram desempenhos negativos de 22,82% e 18,73%, nessa ordem. 

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Enquanto se esperava uma recuperação macroeconômica mais consistente no front externo, a previsão foi traída por melhoras abaixo do esperado e a trajetória de desvalorização do dólar. Apesar da melhora na economia interna, as exportações acabaram por ficar abaixo do esperado.

A pressão do aumento de custos nas commodities agrícolas também ajudou a balança a pender para o lado negativo. Segundo a Rosenberg e Associados, o rápido aumento dos preços de grãos no ano anterior foi causado principalmente por dois fatores: a restrição da oferta e expansão da demanda. Enquanto países emergentes incluíram em seu cardápio alimentos que não eram consumidos pela maior parte da população, a expansão de produtos de origem animal elevou a demanda por insumos. Ademais, problemas climáticos como o La Niña reduziram parte da oferta, elevando os custos.

Para 2011, a expectativa é que os preços das matérias-primas sigam em patamares elevados, pressionados por problemas climáticos no País, como a estiagem no Sul e as chuvas excessivas em outras regiões. 

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Perspectivas
Para 2011, as projeções da USDA (Departamento Norte-Americano de Agricultura) são de crescimento do consumo de proteínas no mercado brasileiro: de 2,8% para aves, 2,9% para a carne suína e 1,8% para a carne bovina. Já as exportações devem avançar 3%, 2,4% e 8,1%, respectivamente.

Nos Estados Unidos, as exportações de carne bovina devem cair 3,3%, o que pode abrir espaço para as empresas brasileiras. Além disso, o JP Morgan aponta que os mercados asiáticos já aumentaram suas importações de carne em 50% na passagem anual.

Assim, a Fitch vê um cenário positivo para as empresas de alimentos e bebidas da América Latina. Apesar disso, a agência de classificação de risco ainda destaca que há desafios importantes, como a habilidade das companhias em repassar os preços dos insumos ao consumidor. Essa alta nas matérias-primas, combinadas à valorização das moedas locais (como o real) deve exercer forte pressão sobre as exportadoras, diz a Fitch, podendo atrapalhar sua competitividade. 

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No caso brasileiro, a agência não projeta elevações de rating mesmo com um cenário macro tão positivo, apontando como principal causa as crescentes necessidades de capital de giro.