Primeiro semestre de 2001 é caracterizado pela desvalorização cambial e crise energética

Conteúdo do Portal InfoMoney - Editoria Mercados

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O fim do primeiro semestre tradicionalmente é um bom parâmetro para a avaliação do desempenho dos investimentos realizados no período. Conforme já se supunha, o investidor que apostou na desvalorização do real frente ao dólar foi quem auferiu os maiores lucros desde o início do ano. Mesmo porque, o período foi bastante negativo para o cenário macroeconômico brasileiro, que se viu pressionado pela crise da Argentina e pela crise energética no Brasil. Além disso, os mercados internacionais foram marcados no semestre pela desaceleração econômica, em especial, pela constatação de que as empresas de tecnologia também são cíclicas e muitas delas sofrerão significativas correções de preço e forte perda de valor de mercado, sobretudo, as empresas listadas na bolsa eletrônica norte-americana Nasdaq que acabou o semestre com queda de mais de 13%. Diante desta conjuntura adversa, o mercado acionário foi bastante penalizado neste semestre acumulando uma queda no período.

A crise da Argentina refletiu a estagnação que o país enfrenta há três anos e que levou a uma retração no PIB argentino de 6,6% durante todos este período. Frente à estagnação econômica e ao elevado déficit público do país, os riscos associados a uma moratória da dívida externa aumentaram consideravelmente, gerando uma significativa elevação do risco país. Entretanto, o peso manteve sua paridade ao dólar, seguindo assim com o regime de câmbio fixo. Neste sentido, a crise argentina na verdade acabou afetando o mercado cambial brasileiro, utilizado por investidores estrangeiros para especular contra uma possível troca de regime cambial argentino e contra a fragilidade de defesa da moeda brasileira.

O dólar comercial fechou o último pregão do primeiro semestre de 2001 cotado a R$ 2,314 para a venda, o que gera desde o início do ano uma valorização de 18,39% frente ao real, quando comparado com a taxa Ptax do fim do ano passado, de R$ 1,9554 para a venda. O aumento do dólar só não foi maior porque o BC adotou uma postura de acompanhamento do mercado cambial, envolvendo a emissão de títulos cambiais para atender à demanda de grandes empresas por mecanismos de proteção, além da venda física de moeda estrangeira diretamente no mercado. O dólar chegou a superar por sucessivas vezes a maior cotação em relação ao real desde a implantação do plano que instituiu a moeda no mercado brasileiro em julho de 1994. Por conta da valorização do dólar e consequente pressão inflacionária, o Banco Central teve de promover sucessivos aumentos de juros da taxa Selic até finalizar o semestre em 18,25% ao ano. Ao mesmo tempo, o BC teve que rever as metas de inflação, que foram elevadas para 5,8% ao ano, comparadas à meta de 4% em 2001, acordada com o FMI, mas que inclui uma variação de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

Além do dólar, outro fato ruim para o mercado acionário foi a inevitabilidade do plano de racionamento de energia que estipula uma redução de 20% do consumo nacional de energia elétrica durante o período que vai de junho a novembro deste ano. O governo federal adotou a medida na tentativa de minimizar a falta das chuvas que deixaram os reservatórios de usinas de geração energética em situação bastante comprometedora. O racionamento gera um imediato impacto econômico, já que com a redução do consumo de energia as empresas poderão ter que reduzir produção e promover cortes para se adequar à menor oferta energética para suas operações. A população também foi convocada a participar do racionamento de energia elétrica. O presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, ministro Pedro Parente, apresentou hoje o balanço do primeiro mês de racionamento. Segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS), as regiões Sudeste e Centro-Oeste tiveram redução média de 19% no consumo de energia em junho. Em valores absolutos, a meta de consumo era de 20.165 MW médios.

A pressão do dólar e a crise energética ditaram o comportamento do mercado acionário nos seis primeiros meses deste ano. O Ibovespa registrou no período uma desvalorização de 4,59%, sendo puxado por empresas que tem elevada dívida denominada em moeda estrangeira e empresa ligadas ao setor energético, eletrointensivas, que são caracterizadas pela acentuada utilização de energia elétrica em seus processos de produção. Por outro lado, reestruturações acionárias, envolvendo a troca de controladores ou a recompra de ações caracterizaram as maiores altas, seguidos de perto pelas ações das exportadoras com receitas em dólares.

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