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Os dois temas que dominaram os jornais do fim de semana e ainda estão nas edições de hoje, embora econômicos em sua natureza, têm fortes implicações políticas e podem ter reflexos no debate eleitoral. De fato, já entraram no jogo.
O primeiro foi a análise, divulgada pelo Banco Santander para seus clientes com renda acima de R$ 10 mil, sobre a sucessão presidencial, dizendo que a possibilidade de vitória da presidente Dilma Roousseff em outubro piorará a economia brasileira.
O mesmo que parte dos operadores no mercado de capitais dizem “na prática” quando empurram para baixo ou para cima o índice Bovespa ao sabor da gangorra das pesquisas eleitorais. Ou seja, nada de novo no dito do Santander.
Porém, assim escrito e avalizado por um dos cinco maiores bancos em operação no Brasil, causou celeuma. O governo e os aliados de Dilma não gostaram, falaram em terrosimo eleitoral. E banco imediatamente se explicou – até já admite demitir o responsável (ou responsáveis) pelo informe.
Independentemente do que foi escrito e da inoportunidade da divulgação pública de qualquer análise política por instituição financeira, o episódio pode ser útil na campanha eleitoral petista: reforça o discurso, já ensaiado, para certas platéias, de que a presidente é vítima da perseguição das “elites”, uma tese que Lula e ela própria sempre que têm oportunidade exploram.
O outro assunto foi a decisão do Banco Central de alterar as regras do compulsório e liberar cerca de R$ 45 bilhões para aumentar a liquidez dos bancos e permitir o aumento das linhas de crédito oferecidas para o consumo, um dia depois de avisar, via Ata do Copom, que não alterará proximamente (pelo menos até o fim do ano, talvez) a taxa básica de juros porque a inflação ainda está resistente.
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A ação do Banco Central foi considerada por uma série de analistas como contraditória. E vista como uma concessão do BC ao lado político do governo para a campanha eleitoral. Não teria cedido nos juros, mas teria cedido em outro ponto da política monetária, para melhorar o humor de empresários e consumidores. Um dia antes a Ata do Copom havia sido interpretada como uma demonstração da autonomia do BC, o que ajudaria a autoridade monetária a voltar a coordenar as expectativas dos agentes econômicos.
O BC se defende dizendo que não há contradição entre as duas medidas. Explica que a liberação para o crédito já estava em estudos. Além do mais, diz que os R$ 45 bilhões são muito pouco em relação ao crédito total (quase 3 trilhões) e que a mudança só terá influência nos negócios até lá por dezembro. Por fim, que já estava nos cálculos da política monetária analisada pelo Copom.
Ou seja, não vai influir na inflação nem mexer no PIB nos próximos meses. (No “Leituras sugeridas” há várias análises sobre o assunto)
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Esses dois eventos só reforçam a percepção de que os fatos econômicos vão dominar o debate eleitoral e devem ser mesmo o fator que mais influenciará a decisão do eleitor.
O fato é que as expectativas continuam em baixa: os analistas ouvidos pelo Banco Central no Boletim Focus revisaram de 0,97% para 0,90% a previsão de crescimento para este ano; o Índice Nacional da Construção Civil, da FGV, recuou 10,3% no trimestre encerrado em julho em relação ao mesmo período do ano passado, acentuando a desaceleração de 9,8% registrada em junho.
Me dá um dinheiro aí
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Os partidos de um modo geral estão se queixando que o dinheiro para financiamento das campanhas está escasso. Em anos anteriores, pelo menos os candidatos com maiores chances, estavam mais bem abonados do que estão neste momento. Queixas da situação e da oposição, sem distinção.
As razões seriam três: (1) a situação econômica, que está deixando todos mais cautelosos, mesmo os grandes contribuintes de outras campanhas; (2) depois de todas as histórias de corrupção nos últimos pleitos, as empresas, que são as maiores patrocinadoras, estão temerosas de se envolverem em algum caso, mesmo indiretamente, e ficaram mais seletivas; (3) medo da ação da Justiça Eleitoral e à espera da decisão do STF sobre financiamento empresarial nas eleições.
É um pouco disso tudo, porém o fator mais importante parece ser o temor de envolvimento em histórias de corrupção, direta ou indiretamente. A operação que pegou o doleiro Yosseff foi o sinal vermelho. O julgamento do mensalão, que não pegou nenhuma empresa mas deixou suspeitas no ar, foi o primeiro alerta para as empresas.
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De todo modo, com o seu dinheiro em caixa, partidos e candidatos estão se preparando para uma campanha milionária. Pelos cálculos iniciais, com base nos registros no TSE – sem contar o famoso (e inevitável caixa 2) nem as colaborações voluntária via oferta de serviços – as eleições deste ano devem envolver gastos de mais R$ 10 bilhões. Quase 50% a mais do que em 2010. Somente os 11 disputantes ao Palácio do Planalto registraram previsões de despesas de R$ 1 bilhão.
A briga por esse dinheiro está grande. Há, por exemplo, uma crise instalada dentro do PMDB porque uma ala do partido, comandada pelo senador Renan Calheiros, conseguiu um auxilio R$ 35 milhões do PT para ajudar alguns candidatos. Quando a história se espalhou houve protestos e agora todos querem uma fatia desse bolo. Segundo se diz em Brasília, esta foi uma das razões para o vice-presidente da República, Michel Temer retomar a presidência nacional do PT.
Tudo indica que os empresários viram o perigo, mas os políticos já apagaram da memória as histórias do mensalão.
A movimentação dos candidatos
O principal evento da semana, na campanha presidencial, será a sabatina quarta-feira em Brasília, promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com os três candidatos mais bem colocados na pesquisa. Mas não será um debate.
Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos serão ouvidos em sessões separadas sobre economia e política industrial. Dilma (anotamos no comentário de sexta a mudança da postura da campanha do PT) deve participar esta semana de duas entrevistas coletivas abertas. Hoje, às 15 horas, na sabatina promovida pelo UOL, Folha, SBT e Jovem Pan (Aécio e Campos já foram ouvidos). Será a primeira entrevista mais aberta de Dilma candidata.
O G1, das organizações Globo, também fará um evento semelhante dia 31 com todos os 11 candidatos separadamente. Pelo sorteio, a entrevista com Dilma será a primeira. Porém, embora o PT tenha acertado as regras da entrevista, a presença da presidente ainda não foi confirmada.
Eduardo Campos e Aécio Neves estão mesmo priorizando contatos nas ruas. Dilma ainda não foi – e não se sabe quando vai – para este corpo a corpo. O campo ainda está sendo testado.
Mas ela participa de dois eventos para públicos selecionados, mas mais fechados, em São Paulo na quinta-feira, 31: um organizado pela CUT e depois da inauguração de um templo da Igreja Universal do Reino de Deus no bairro do Brás. Com Lula a tiracolo.
LEITURAS SUGERIDAS
– Sábado
1. Cláudio Couto – “Divisões internas” – “O Estado de S. Paulo”
2. Celso Ming – “Morde e assopra” – “O Estado de S. Paulo”
3. Roberto Luís Troster – “Um no cravo outra na ferradura” – “O Estado de S. Paulo”
4. Tahis Herédia – “E dá-lhe crédito” – G1
5. Reportagem – “O fantasma da recessão começa a rondar a economia brasileira” –
6. Editorial – “Mais do mesmo na política econômica” – “O Globo”
7. Reportagem – “A saia justa do Banco Santander” – “El Pais”
– Domingo
1. Henrique Meireles – “A bolha das bolhas” – “Folha de S. Paulo”
2. Vinicius Torres Freire – “Mais crédito com descrédito” – Folha de S. Paulo”
3. Samuel Pessoa – “A inflação está cedendo” – “Folha de S. Paulo”
– Segunda-feira
1. Marcos Caramuru de Paiva – “O desafio do banco dos Brics” – “Folha de S. Paulo”
2. Ricardo Noblat – “Responsabilidade moral” – “O Globo”
3. George Vidor – “Insustentável” (sobre o setor elétrico” – “O Globo”
4. Editorial – “Emprego e desemprego” – “O Estado de S. Paulo”
5. Sergio Leo – “O Brasil pode apequenar-se, mas não por Israel” (sobre reunião do Mercosul amanhã) – “Valor Econômico”
6. Reportagens – “Tese de estagflação divide economistas” / “Governo eleito terá de adotar uma nova política fiscal para recuperar confiança” / “Para analistas correção dos preços administrados é prioridade” – “Valor Econômico”
7. Alex Ribeiro – “Alívio do crédito já estava nos cálculos da política monetária” – “Valor Econômico”
8. Vicente Nunes – “O BC de Dilma” – Correio Braziliense”
9. Reportagem – “Com tarifa zero, Brasil quer anular aliança do Pacífico” – BBC Brasil