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As contestações mais abertas ao ministro da Fazenda Joaquim Levy no governo e na base aliada – o chamado “fogo amigo” começaram mais cedo do que muitos previam. Que ia acontecer, estava na cara. Não com vinte dias de governo, porém.
E pegando o ministro num momento de sucesso no exterior, no meio que interessa à presidente Dilma Rousseff para reconquistar a confiança perdida na sua capacidade de conduzir a recuperação da economia brasileira – o encontro anual do mundo financeiro e empresarial em Davos na Suíça.
Uma das muitas falas de Levy no Fórum Econômico Mundial explica a explicitação pública das divergências do partido da presidente, o PT, com a “nova” economia conduzida por ele, com o apoio, embora ainda não firmemente explícito, de Dilma. Segundo Levy, as medidas de austeridade adotadas podem levar o Brasil até a uma recessão momentânea.
E a inflação pode (aliás, já está) subindo antes de começar cair. Ou seja, vai piorar antes de começar a melhorar. Por isso, Levy alertou que todos deverão ter muita paciência.
Coisa que o PT, em sua maioria, a não por parte dos dilmistas mais convictos, parece ter perdido logo e de vez. Que o PT não gostou nada da escolha de Levy, um ortodoxo (e ainda por cima meio tucano) para o lugar do desenvolvimentista Guido Mantega era sabido. Mas aceitou amuado, resmungando por baixo dos panos, porque parte da trama que levou Levy ao Ministério da Fazenda teve o dedo explícito de Lula.
O PT não amou perder um ministério que sempre foi “dele” – petistas como Aloizio Mercadante, mantido na Casa Civil, sonharam com o cargo. E gostou menos ainda da linha de política econômica do ministro e que ele, desde o primeiro dia de sua escolha, indicou que adotaria.
Soco no orgulho
Uma volta, ainda que com nuances, ao tripé macroeconômicos dos tempos de Fernando Henrique Cardoso e da primeira fase de Lula da Silva e o abandono gradual da nova matriz macroeconômica foi um soco no orgulho do PT com seus governos em Brasília.
O PT engoliu seco, mesmo depois de medidas adotadas ainda por Mantega, já por inspiração de Joaquim Levy, que, segundo parte de seus analistas e dos sindicalistas de um modo geral são prejudiciais aos trabalhadores. Caso das mudanças na concessão de alguns benefícios da Previdência Social, no seguro-desemprego e no abono salarial. O PT – aliás, como em todos os partidos – não aplaudiu nada também os cortes preventivos no Orçamento.
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A insatisfação era latente, até entre alguns ministros petistas, vítimas da tesourada de Levy. Conversas com petistas davam sempre em alguma queixa. As críticas públicas em relação à “nova” política econômica apareciam em artigos de jornais de simpatizantes petistas, em um manifesto assinado por um grupo de economistas que apoiaram a reeleição de Dilma e em entrevistas de alguns deles. Como uma de Luiz Gonzaga Beluzzo no fim de semana ao jornal “O Estado de S. Paulo”.
Esta semana, a discórdia saiu à rua, já com intensidade. Por coincidência, depois que a presidente Dilma Rousseff, com o aval (ou melhor, o pedido de Levy) vetou a correção de 6,5% na tabela do Imposto de Renda na Fonte, atingindo mais diretamente a classe média e desagradando também novamente os sindicalistas.
O caso do IR,foi, porém, apenas a gota d`água. O mote foi a insatisfação com uma política criticada durante a campanha pela própria Dilma, ainda por cima a política que seria adotada pelos “adversários”.
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Brutal recessão
Na terça-feira o tiroteio veio de dois lados, um de grosso calibre, apesar dos problemas que seu autor enfrente atualmente com a Justiça. Em seu blog, o ex-ministro José Dirceu fez reparos pesados à política de Levy. Escreveu, em conclusão, que o país caminha para uma brutal recessão.
Ao mesmo tempo, ficou-se sabendo que o ex-ministro, mesmo condenado no processo de mensalão e cumprindo pena de prisão domiciliar, tem articulado a formação de um novo grupo dentro do PT, para influir na condução da legenda e do próprio governo. Segundo a repórter Vera Rosa, do “Estadão”, Dirceu já teria conversado com mais de 30 parlamentares sobre o assunto, de diversas tendências do petismo.
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O ex-ministro é da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), a mesma do ex-presidente Lula da Silva, que se considerou prejudicada na formação do novo ministério, em detrimento de alas de menor porte na legenda, como a Democracia Socialista, que ficou com parte do filé mignon do Palácio do Planalto.
Mesmo na situação em que ele se encontra, com os movimentos restringidos e os direitos políticos suspensos, não se deve subestimar a influência de Dirceu no PT nem sua capacidade de mobilização.
O silêncio da Dilma e Lula
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No mesmo dia da manifestação pública de contrariedade de Dirceu, o site da Fundação Perseu Abramo, o centro de estudos do PT, publicou um artigo também com críticas à política para a economia de Levy e equipe. Não foi o primeiro. A Fundação é dirigida pelo economista e professor da Unicamp, Marcio Porchaman, que dirigiu o IPEA em um período dos governos Lula e Dilma e participou de grupos de trabalho da campanha da reeleição da presidente.
Ontem, foi a vez de outra voz de peso no petismo – pelo cargo que ocupa e pelo poder de articulação interna – se manifestar criticamente. O vice-presidente da legenda, Alberto Cantalice, chamou de “erro” em postagem no twitter o veto de Dilma à correção da tabela do IR.
O campo minado agora está aberto – espera-se que alguns ministros comecem a contestar mais medidas de austeridade de Levy que atingem seus planos de ação. A senha parece também liberada para que os petistas no Congresso mostrem mais suas insatisfações.
O quadro pode piorar se, como se desenha hoje, o partido, com Arlindo Chinaglia, não levar a presidência da Câmara. Parte dessa fatura poderá ser atribuída a uma certa falta de empenho do Palácio do Planalto, embora muitos ministros estejam trabalhando para ajudar a eleger Chinaglia.
Para complicar, um outro “fogo amigo” começa a se desenhar. Os dirigentes da Petrobrás da era Lula suspeitos de envolvimento nas falcatruas do petrolão – caso do ex-presidente José Sérgio Gabrielli e dos ex-diretores Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró e Renato Duque – em depoimentos aos investigadores, declarações públicas de seus advogados e petições judiciais, começam a se insurgir contra a estratégia do governo de jogar a culpa de tudo na diretoria anterior, livrando de responsabilidade o Conselho de Administração da época, presidido por Dilma.
Grosso modo, a culpa seria toda do governo anterior, de Lula. E essa turma não aceita esta interpretação, quer trazer para roda a presidente da empresa, Graça Foster e até a presidente Dilma Rousseff.
Na mesma linha agem as empresas suspeitas na Operação Lava-Jato e seus executivos e acionistas citados no processo, muitos deles presos. Eles também começam a se preparar para evitar que toda a culpa no caso fique com eles, com a Petrobrás sendo classificada de vítima inocente.
Já se começa a estranhar, diante desse meio ambiente político cada dia mais carregado, o silêncio da presidente Dilma Rousseff e principalmente do ex-presidente Lula da Silva, que está assistindo calado ã convulsão petista.
Outros destaques dos Jornais do dia
– CONTAS PÚBLICAS – Uma circular enviada pelo Ministério das Relações Exteriores aos diplomatas adverte que o governo enviará, para este mês de janeiro, recursos que só irão cobrir os salários e obrigações trabalhistas dos contratados locais das embaixadas e apenas parte dos pagamentos pendentes de outros meses. Diplomatas brasileiros em Tóquio (Japão), Lisboa (Portugal), na Guiana, nos EUA, no Canadá e no Benin (África) enviaram telegramas ao Itamaraty nos últimos dias alertando que estavam prestes a sofrer corte de energia nas embaixadas por atrasos no pagamento. Os funcionários também disseram estar sem dinheiro para comprar papel para impressoras e materiais, pagar a conta da calefação, internet e outros. (“Folha”)
– CONTAS PÚBLICAS II – Sob pressão para cumprir a meta fiscal deste ano, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, já determinou à sua equipe fechar as “torneiras” da liberação de novos empréstimos e da autorização para aumentar o endividamento de Estados e municípios. A diretriz foi classificada pelo novo ministro como uma das prioridades na estratégia de recuperação da credibilidade da política fiscal, que conta também com a elevação do superávit primário das contas do governo federal,a redução das despesas com subsídios e o corte dos empréstimos do Tesouro Nacional aos bancos públicos. (“Estadão)
– ENERGIA – Uma autoridade do governo federal admitiu ontem, pela primeira vez, a possibilidade de o governo adotar racionamento ou outras medidas para tentar reduzir o consumo. Eduardo Braga (Minas e Energia) disse que, se o volume de água dos reservatórios das hidrelétricas chegar ao chamado nível “prudencial”, de 10%, medidas serão necessárias. Segundo ele, esse limite vale tanto para que seja decretado racionamento quanto para que se inicie uma campanha de racionalização. Informa o “Estadão” que números oficiais do NOS indicam que não havia energia suficiente para cobrir o consumo na segunda-feira.
– ENERGIA II – O risco de racionamento acentuado e energia neste ano não é explicado apenas por fatores climáticos. A situação crítica evidencia falhas de execução do planejamento energético do governo federal, segundo analistas ouvidos pelo jornal “Valor Econômico”. Análise com base no primeiro Plano Decenal de Energia (2006-2015) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, criada no governo Lula para retomar o planejamento do setor, indica que pelo menos 33 hidrelétricas previstas para entrar em operação este ano não saíram do papel ou tiveram o cronograma postergado.
– EUROPA – O Banco Central Europeu decidiu injetar mais de € 1 trilhão para estimular a economia, que passa pela primeira deflação em cinco anos e cuja estagnação pode passar de 2020. O BC da zona do euro vai comprar, a partir de março, € 60 bilhões mensais em títulos de dívida dos governos e de agências europeias de baixo risco de calote. Até então, os focos eram corte de juros, austeridade fiscal e socorro a bancos para viabilizar o crédito. A medida vai durar ao menos até setembro de 2016, somando € 1,1 trilhão (cerca de metade do PIB brasileiro). Porém, Mario Draghi, presidente do BCE, abriu as portas para que o programa prossiga caso a inflação não se aproxime da meta de 2% -ficou em -0,2% no mês passado. A medida, segundo analistas, aumenta a chance de desvalorizações do real.
LEITURAS SUGERIDAS
1. Vinicius Torres Freira – “Eurozona e confusão das moedas” – Folha
2. Luiz Carlos Mendonça de Barros – “China, uma leitura equivocada” – Folha
3. Editorial – “Sucessão de falhas e atrasos” – Estadão
4. José Roberto R. Afonso – “Ajustar ou consolidar” – Estadão
5. José Paulo Kupfer – “O preço da confiança” – Globo
6. Claudia Safatle – “Mercados querem acreditar em Dilma” – Valor
7. Editorial – “BCE usa última arma para tentar deter a deflação” – Valor