Publicidade
“Chocado” (expressão ouvida em Brasília pela “Folha de S. Paulo”) com a brutal perda de apoio da população – levantada pela pesquisa DataFolha divulgada no domingo -, o governo prepara-se para colocar em pratica a “batalha de comunicação” que a presidente Dilma Rousseff defendeu em sua fala ao PT sexta-feira em Belo Horizonte.
A própria Dilma vai tomar a frente dessa estratégia, informa “O Estado de S. Paulo”. A ideia é que ela rompa o isolamento nacional que adotou desde a posse e tenha mais agendas públicas, com viagens mais constantes para os Estados. Passa também por uma nova tentativa de reaproximação com os aliados e o Congresso.
O Palácio do Planalto têm motivos para estar assustado. A perda na confiança do governo federal se deu numa velocidade e numa extensão inéditas em pesquisas políticas nos governos petistas. É a pior avaliação desde 1999 com Fernado Henrique Cardoso.
Em dois meses, de dezembro para fevereiro, a avaliação positiva da presidente despencou de 42% para 19% e a avaliação negativa saltou de 24% para 44%. Índices piores do que no auge dos movimentos juninos de 2013.
Todos os números são negativos. 77% dos brasileiros acreditam que Dilma sabia dos desvios na Petrobrás; 81% acreditam que a inflação vai subir; 62% esperam alta do desemprego; e 55% esperam piora na situação econômica do país.
Um dado, segundo ainda a “Folha” desta segunda-feira, teria chocado particularmente os assessores da presidente: o que indica que a 52% acham que ela mentiu durante a campanha eleitoral. Além do mais, quase metade dos brasileiros considera a presidente desonesta.
Continua depois da publicidade
Apoio ao racionamento
Não é melhor a avaliação dos dois outros governos investigados pelo DataFolha – o de Geraldo Alckimin no Estado de São Paulo e o de Fernando Haddad na capital paulista.
A avaliação do governador caiu 10 pontos percentuais de desde outubro – de 48% para 38%. A rejeição do prefeito cresceu de 28% em setembro para 44% em fevereiro.
Continua depois da publicidade
Uma das razões da queda de popularidade de Dilma e Alckmin é a repercussão da crise de água e de energia que se desenha e já é sentida por parte da população. Principalmente pela forma como ela está sendo tratada, na base do esconde esconde e da omissão de informações.
No entanto, a população dá mais sinais de maturidade que seus governantes diante da ameaça de crise. Segundo o DataFolha, a maioria dos moradores da Grande São Paulo e de brasileiros em geral apoia a implantação de um rodízio de água e de um racionamento de energia.
No levantamento nacional, 65% dizem apoiar a “adoção imediata” do racionamento de energia. Já as entrevistas na região metropolitana de São Paulo apontam que 60% são a favor de um rodízio de água.
Continua depois da publicidade
Lula nas ruas
Anote-se. O ex-presidente Lula vai assumir a tarefa de recuperar a imagem do PT, informações de o “Valor Econômico” e da “Folha”. De modo um pouco diferente, deve reavivar as “caravanas da cidadania” dos anos 1990. Vai começar depois do carnaval.
O ex-presidente visitará os Estados, onde ficará arranchado por algum tempo. Não serão viagens relâmpagos. O objetivo, por trás, é mais ambicioso do que simplesmente recuperar a imagem do partido: Lula já liberou os amigos para defenderem abertamente sua candidatura em 2018 – obviamente, sem dar sinais de que ele é que está incentivando a campanha.
Continua depois da publicidade
A perplexidade que tomou conta do governo com os dados do DataFolha (embora já fosse visível o clima de insatisfação na sociedade) e a forma como o governo está reagindo, ampliando a “batalha da comunicação”, deixa a impressão de que o Palácio do Planalto e conselheiros não estão entendendo bem o que está se passando.
Enfim, não estão vendo o mundo real como ele é. Os discursos de Dilma e de Lula na festa do PT em Belo Horizonte mostram esse alheamento. Ou pelo menos uma tentativa de maquiar publicamente a realidade.
Como disse um político governista, a questão não é de forma, mas de conteúdo. Não é de comunicação, é de políticas.
Mais uma
improvisação na Petrobrás?
Repercutiu intensamente desde sexta-feira a escolha do presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendini,para presidir a Petrobrás. Seu nome nunca frequentou a lista de especulações sobre os possíveis substitutos de Graça Foster – foi de fato a surpresa que um palaciano dizia que poderia sair do forno da presidente Dilma Rousseff.
O fato de não estar na lista de candidatos não quer dizer muito, porém indica que as expectativas eram outras. Bendini, pelas reações do mercado e as análises de especialistas, não seria exatamente a pessoa talhada para as necessidades da estatal no momento.
Ele preenche de fato um dos dois requisitos estabelecidos por Dilma para o novo comandante da petrolífera. Ela queria um nome que inspirasse confiança e não fosse desagradável para o PT. Bendini encaixa-se perfeitamente no segundo.
No primeiro não, embora tenha comandado o Banco do Brasil, de onde é funcionário de carreira, desde 2009. A reação externa foi expressa imediatamente tão logo a escolha dele foi conhecida: as ações da Petrobrás chegaram a cair mais de 7% na bolsa.
O outro requisito, de ser do gosto do PT, sim, porém, é pouco – ou nada. Bendini não é visto como o profissional preparado para tocar os desafios que a Petrobrás apresenta. Não se destacou particularmente na direção do BB.
Foi um funcionário que cumpriu estritamente as determinações do Ministério da Fazenda e a nova política macroeconômica: a expansão do crédito ao limite para sustentar o consumo e a redução agressiva da taxa de juros, coisa que a dupla Guido Mantega-Alexandre Tombini teve de reverter posteriormente.
Emergencial e temporária
Bendini é visto como um obediente burocrata, que não contestará as orientações superiores. Por ser fiel a Dilma que ganhou o posto. E o desastre da empresa veio por causa das orientações superiores: uso político e uso como linha auxiliar da política econômica.
De acordo com registro no “Valor”, Bendini “foi a escolha possível, diante das circunstâncias”, conforme uma fonte do próprio governo.
E, segundo os analistas o que a Petrobrás precisa agora é de autonomia para agir empresarialmente, sem ser coadjuvante do governo e dos políticos. A escolha de Bendini indica que as cartas lá continuarão todas nas mãos de Dilma, sem divergências.
Como parte da nova diretoria aprovada na sexta-feira, com exceção do diretor financeiro, Ivan Monteiro, também egresso do Banco do Brasil, é interina, ficou também a impressão de que a solução dada por Dilma foi emergencial e temporária.
Isto porque, além de ter tido um tempo muito exíguo para tomar uma decisão depois da renúncia não esperada de Graça Foster na quarta-feira, a presidente teria encontrando dificuldades para achar um nome de peso para assumir a estatal agora.
Para completar, o novo presidente da Petrobrás terá de passar parte do seu tempo explicando-se sobre denúncias contra ele: a compra de um apartamento de 160 metros quadrados por R$ 150 mil em SP em dinheiro vivo, a acusação de beneficiar a amiga socialite Val Marchiore em empréstimo no BB, e a suspeita, lançada por um ex-motorista de conduzir pacotes de dinheiro vivo.
Foi negativa ainda para a imagem da empresa a votação do Conselho de Administração que aprovou a nomeação de Tombini. Enquanto os três conselheiros independentes votavam contra, com fortes restrições a Bendini e ao modo da escolha, os conselheiros governistas votavam com obediência a favor, sem restrições. Ficou a imagem de um Conselho totalmente submisso também ao Palácio do Planalto.
A sensação generalizada, até nos meios políticos governistas, é que a presidente Dilma perdeu uma ótima oportunidade de dar um sinal claro de que as mudanças nas políticas de seu governo será profundas e para valer. O caso Petrobrás, avalia-se, está sendo conduzido com improvisação, amadorismo e teimosia.
Levy: novos reforços
para o ajuste fiscal
Em meio às turbulências políticas e à deterioração da situação econômica – embora esperado, o aumento de 1,24% nos preços em janeiro, por exemplo, foi maior que o projetado – a equipe do Ministério da Fazenda vai agindo para sustentar de pé seu plano de ajuste fiscal e de recuperação da confiança dos agentes privados internos e externos na condução da política econômica.
O ministro Joaquim Levy, conforme informa o “Estadão” de domingo, prepara-se para cortar benefícios fiscais concedidos na gestão anterior, para garantir o cumprimento da promessa de atingir este ano um superávit fiscal de 1,2% do PIB.
Levy terá de reforçar sua defesa depois que se convenceu que as propostas de mudanças nas regras de concessão de alguns benefícios trabalhistas, como a do seguro-desemprego, não passarão incólumes pelo Congresso Nacional. O governo terá de ceder (aliás, já está negociando) para não sofrer uma desastrosa derrota.
O superávit precisa de um reforço também porque o déficit de R$ 32,5 bilhões em 2014 – R$ 20 bi do governo federal, R$ 12.5 bi dos governos estaduais e municipais – criou um rombo maior para 2015.
Espaço para aumento de impostos
De acordo com o jornal, as medidas que o Ministério da Fazenda está estudando são:
1. Redução da alíquota do reintegra
2. Revisão das alíquotas de desoneração da folha de pagamentos
3. Fim do PSI antes do previsto
4. Venda de ativos
5. Corte maior de despesas
6. Buscar espaço para mais aumentos de tributos
Em parte é uma agenda para criar ruídos também com o meio empresarial.
Já na linha do discurso, da “coordenação das expectativas”, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, como convidado especial de um almoço com banqueiros e empresários em evento do IIF (Instituto Internacional de Finanças), que precede o G20, na Turquia, prometeu a economia brasileira arrumada no ano que vem.
“Tenho a ambição de convencê-los de que temos a agenda certa para melhorar a confiança no Brasil nos próximos anos e de que as políticas que estamos implementando criarão uma melhor perspectiva econômica no médio prazo, começando em 2016”, disse o presidente do BC.
Tombini reconheceu que inflação permanecerá pressionada no curto prazo. A reunião contará também com a presença do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Outros destaques
dos jornais do dia
– ATIVIDADE ECONÔMICA – Os serviços, que vinham sustentando a economia brasileira estão desacelerando em 23 das 27 unidades da federação. Apenas Rio de Janeiro, Distrito Federal e Rio Grande do Norte têm aceleração no crescimento. No Sergipe, o segmento mantém ritmo estável. A tendência, afirmam analistas ouvidos pelo “Valor”, é que a desaceleração se intensifique em 2015, principalmente no primeiro trimestre, em razão do ajustes da economia, como a contenção dos gastos públicos.
– CONTAS PÚBLICAS/PROGRAMAS SOCIAIS – Os compromissos assumidos pelo Tesouro Nacional com as empreiteiras na construção de moradias do Programa Minha Casa, Minha Vida soam R$ 26,2 bilhões. A cifra, com vencimento concentrado nos próximos 18 meses, resume os desafios para executar, num período de restrição fiscal, o programa que a presidente Dilma transformou em uma das vitrines de sua administração. (“Valor”).
LEITURAS SUGERIDAS
Sábado
1. André Lara Resende – “O choque de realidade” – Estadão
Domingo
1. Mauro Paulino e Alessandro Janoni – “Opinião pública reflete choque de realidade pós-eleição” – Folha
2. Igor Gielow – “Elementos que derrubaram a inflação estão aí para ficar” – Folha
3. Vinicius Torres Freire – “Confiança baixa vai derrubar a inflação ainda mais” – Folha
Segunda-feira
1. Editorial – “As estatais perderam eficiência” – Estadão
2. Samuel Pessoa e Marcos Lisboa – “O custo da ambigüidade” – Folha
3. José Roberto Toledo – “De fora a fora, de FHC a Dilma” – Estadão
4. Sergio Leo – “Brasil busca alternativa para elevar o comércio” – Valor
5. Editorial – “Inflação tem maior alta desde fevereiro de 2003” – Valor
6. Ricardo Noblat – “O confisco da verdade” – Globo