Primeiras leituras: em busca de uma confiança abalada

O governo já admite aumentar a gasolina. Agora se fala em admitir já também que o superávit primário prometido não será alcançado. Imagina-se que isso pode evitar desgaste e tirar discurso dos adversários de Dilma.

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Há dias alguns jornais especulavam sobre a discussão entre os conselheiros políticos da presidente Dilma Rousseff da conveniência de o governo anunciar com antecedência – ou seja, antes das eleições – o inevitável aumento que deve ser dado à gasolina e ao óleo diesel.  Já atrasado, aliás.

A estratégia, se adotada, teria dois objetivos: (1) retirar da oposição o discurso de que o governo Dilma está prejudicando a Petrobrás; (2) mostrar que Dilma não está segurando o preço da gasolina para não agredir mais a inflação e não se desgastar eleitoralmente.

Não parece que o Palácio do Planalto vá de fato tomar esta decisão antes de novembro, embora, com a inflação acomodada dos dois últimos meses, haja algum espaço para reajustes de preços públicos sem furar o temido teto da meta.

Porém, o governo já começou a falar do assunto, até pouco um tabu eleitoral, sem constrangimento. Primeiro foi o ministro da Fazenda, Guido Mantega, depois a própria presidente Dilma Rousseff, e ontem o diretor Almir Barbassa, da Petrobrás.

O que ainda é apenas uma possibilidade em data incerta, animou a Bolsa e as ações da estatal subiram. Se permanecer esta boa vontade do mercado, um dos objetivos indiretos da estratégia pode ser atingido: diminuir o evidente mau humor dos agentes econômicos com as políticas do governo.

Na mesma linha, o jornal “Folha de São Paulo” de hoje, diz que se discute na área oficial agora também a conveniência de antecipar o anúncio do que já parece mais do que provável: que, apesar do amparo de uma série de receitas extraordinárias, não será cumprido este ano o compromisso de fazer um superávit primário de 1,9% do PIB.

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Segundo a reportagem, um graduado funcionário fazendário admite que a economia em 2014 para amenizar os compromissos do governo com juros deve ficar próxima de 1% do PIB. Mesmo assim, acrescente-se, se não forem frustrados o leilão da telefonia 4 G (previsão de arrecadação de R$ 8 bilhões) e as entradas do novo Refis (R$ 18 bi).

O anúncio antecipado da frustração do superávit seria uma maneira de o governo mostrar sinceridade e reconquistar a confiança em algumas de suas ações, um tanto quanto em baixa.

Aécio pula a

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fogueira do Jornal Nacional

O Jornal Nacional é sempre uma vitrine desejada por qualquer figura pública, naturalmente desde que não seja por meio abordagens desagradéveis. Um bom espaço no “jornal das oito”, que há muito não é mais “das oito”, é sonho de consumo de dez entre dez políticos no Brasil.

A sabatina que a “Globo”, quase sempre cautelosa em abordar as questões políticas e se envolver em polêmicas fortes demais, proporciona aos candidatos à Presidência da República um momento no qual todos apostam para chegar bem aos eleitores.

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Possivelmente, é o maior índice de audiência que eles podem conseguir numa campanha, espontaneamente. Embora o horário eleitoral obrigatório atinja potencialmente mais eleitores, por estar ao mesmo tempo em todos os canais abertos, ele registra elevados índices de desatenção e aparelhos desligados. O noticioso não.

E os debates são em horários impróprios para quem labuta duro no dia seguinte.

Mas desde que o jornalismo da “Globo”, ao contrário do que acontece com freqüência com outras entrevistas e matérias com personagens da ‘grande” política, resolveu esquentar essas entrevistas, com um tiroteio mais cerrado sobre os candidatos, a sabatina tornou-se ao mesmo tempo uma oportunidade – e um risco.

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As perguntas bem preparadas, incisivas, com respostas insatisfatórias contestadas, tudo como indica qualquer manual de bom jornalismo, carregam mais cascas de banana do que mel para os concorrentes.

É extraordinário para o eleitor. É preciso ser ágil, saber pular fogueiras, sem parecer que se está fugindo do temas perigosos, evitando se definir. No horário eleitoral eletrônico obrigatório tudo é maquiado, edulcorado, ao gosto do marqueteiro de plantão. A espontaneidade fica próxima de zero.

Mesmo nos debates das principais emissoras de televisão é possível manter a situação relativamente controlada, tais as regras restritivas que os assessores dos candidatos impõem. Nunca mais se repetirão, enquanto as normas não mudarem, os memoráveis embates entre Lula e Collor em 1989.

Dito isto, observando-se com atenção a primeira presença na bancada do JN nesta temporada e os comentários nos jornais, pode se dizer que Aécio Neves pulou sem se chamuscar a sua fogueira. Resta ver a reação do público, se captada por algum instituto.

Aécio recebeu perguntas, por exemplo, sobre o cartel dos trens (PSDB-SP), o mensalão tucano em Minas, o aeroporto em Cláudio em terras da família da mãe, sobre tarifaço (diz-se que ele pode fazer), sobre os programas sociais (diz-se que os tucanos podem diminuí-los).

O que vem agora para seus dois adversários?

Não se espera nem que Eduardo Campos (hoje) e Dilma Rousseff (amanhã), venham a cometer enormes escorregões. Ambos têm experiência no embate com os jornalistas nas entrevistas de improviso, no tumulto de algum evento (também chamadas de “quebra queixo” pelo mar de microfones em volta do entrevistado) e estão sempre bem treinados. Inclusive passam por um ensaio específico apenas para o JN.

Assim, o julgamento do eleitor, no caso, se dará em duas dimensões: na comparação do que foi dito por cada um; e de seus gestos, expressão corporal, entonação de voz – enfim da emoção que eles passarem, pois, no palanque eletrônico, até isto é artificial.

Uma previsão

eleitoral

Reportagem do ‘Valor” refere-se a um estudo da Macrométrica, empresa de consultoria econômica, apontando a vitória de Aécio Neves no segundo turno com uma vantagem de 2 a 3,6 pontos de vantagem sobre a presidente Dilma Rousseff.

O método utilizado, com base em pesquisas do Ibope, fez o que fez a fama do estatístico norte-americano Nate Silver, responsável por um site na pagina na Internet do “The New York Times”.

Silver fez sucesso depois de acertar de acertar os resultados de todas as eleições nos 50 estados dos Estados Unidos em 2012. No Brasil é possível encontrar a tradução de um dos livros de Silver – “O som e o ruído” – em que ele fala sobre previsões em vários campos.

Uma curiosidade é que a Macrométrica é dirigida pelo ex-presidente do Banco Central, Chico Lopes, que tem escrito em tempos recentes artigos provocativos defendendo alguns aspectos da política econômica da presidente Dilma Rousseff.

Lopes, obviamente, diz que sua previsão deve ser olhada com alguma cautela. Ela “corre riscos em função de eventual repúdio do eleitorado à política em geral e de uma eventual perda de competitividade de Aécio, afetando seu fator de conversão (o percentual de eleitores que não votou no tucano no 1º turno e o faz no 2º)”.

Outra previsão, oposta à conclusão da Macrométrica, saiu da Rosenberg associados. Em relatório para seus clientes, divulgado ontem no site da Agência Estado e que está hoje no “Estadão”, a consultoria diz que só os mal informados não admitem que a presidente Dilma Rousseff é a favorita para vencer em outubro.

Em seguida, porém, a análise diz que esse cenário aponta “para a continuidade da mediocridade, do descompromisso com a lógica, do mau humor prepotente do poste que se transformou em porrete contra o senso comum”. Segundo o jornal, nem o PT nem o Palácio do Planalto quiserem comentar o assunto, diferentemente do que aconteceu com o recente informe do Santander.

Outros destaques

dos jornais do dia

– TRENS DE SÃO PAULO – A Justiça determinou o afastamento de Robson Marinho do cargo de conselheiro do TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) em razão da suspeita de que ele tenha recebido propina da multinacional francesa Alstom. Marinho é o acusado mais graduado no caso Alstom. Ele é um dos fundadores do PSDB e foi o principal secretário de Mario Covas de janeiro de 1995 a abril de 1997, ao ocupar a chefia da Casa Civil. Marinho deixou o governo para assumir o cargo no TCE.

O caso dos trens em São Paulo vai ser investigado por uma CPI Mista no Congresso Nacional, instalada na semana passada mas que não começou a funcionar por disputas entre o PT e o PMDB por seus principais cargos. A CPI dos Trens é faca que o PT tem para contrapor-se ao PSDB no uso eleitoral do caso Petrobrás. –

– PETROBRÁS – Informa o “Estadão” que o relator do processo sobre Pasadena no Tribunal da Contas da União, ministro José Jorge, estuda alterar seu parecer e não indiciar a presidente da companhia (na época diretora) como uma das responsáveis, juntamente com outros 11 dirigentes e ex-dirigentes pela compra da companhia. O governo tem feito pressões abertas para livrar Graça Foster. Em princípio, o julgamento no TCU está marcado para amanhã. José Jorge está alegando, para mudar seu parecer, que Graça participou apenas de uma decisão secundária no caso.

– IMPOSTOS – O “Movimento Brasil Eficiente” (no “Estadão”) apresentou aos principais candidatos uma proposta de simplificação do sistema tributário brasileiro a ser realizado pelo futuro governo em quatro etapas, ao longo de seu mandato. Segundo o economista Paulo Rabelo de Castro, coordenador do movimento, a adoção das medidas não levaria a aumento de tributos nem em perda de receita para a União, os Estados e os municípios. Mas sua adoção levaria a uma economia de 2% do PIB para as empresas. A longo prazo, no entanto, haveria espaço para diminuição da carga tributária que até 2022% poderia cair dos 36% atuais para 30%.

– JUROS/BNDES – Para o “Valor”, o ex-secretário de Política Econômica do governo Dilma, Nelson Barbosa, interlocutor econômico freqüente no Instituto Lula e apontado em especulações como um dos prováveis ministros da Fazenda de Dilma reeleita, defende uma elevação gradual da TJLP. Segundo ele, o subsídio embutido nos financiamentos feitos (aproximadamente R$ 500 bilhões) pelo Tesouro ao BNDES custam cerca de R$ 30 bi ano. O Tesouro está captando a 11% e o banco empresta a 5%. Não há como sustentar no longo prazo uma situação dessas e este é um dos temas candentes dos debates econômicos sobre o futuro governo. Aécio e Campos criticam a atual situação.

– DÍVIDA DE ESTADOS E MUNICÍPIOS – No Rio Grande do Sul (divida de R$ 45 bilhões) a presidente Dilma Rousseff prometeu aprovar, depois das eleições, a proposta do próprio governo de mudar a regras da renegociação da dívida dos Estados e municípios dos tempos de FHC. Apesar da proposta ser do próprio Palácio do Planalto, promessa da presidente a alguns prefeitos, entre eles o de São Paulo, no auge das manifestações de rua de junho de 2013, ela sempre foi bloqueada pelo Ministério da Fazenda em razão das perdas que gerará para a União.

Para os Estados e municípios seria uma alívio (nos cofres da prefeitura paulistana, por exemplo, de R$ 6 bi) porém aumentaria as dificuldades do Tesouro Nacional de equilibrar-se. A principal critica ao projeto é de que ele pode ferir mortalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal e abrir brechas para perigosa escalada no endividamento estadual e municipal.

LEITURAS SUGERIDAS

1. Lauro Gonzáles – “Os limites do crédito ao consumo” – Folha 

2. José Casado – “A força do sangue” – Globo

3. José Pastore – “A CLT e os presidenciáveis” – Estadão

4. José Paulo Kupfer – “Tempo de desmonte” – Estadão

5. Delfim Neto – “Ainda e sempre: a inflação desconfortável” – Valor  

6. Yoshiaki Nakano – “Inflação já cede rapidamente” – Valor