Primeiras leituras: diretor do BC contraria discurso de Dilma

Carlos Hamilton, de Política Econômica, diz que é favorável à autonomia do Banco Central e afirma que o cenário de diminuição do desemprego, com mínimas históricas, não deve perdurar.

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A grande surpresa do dia, no debate eleitoral, ficou por conta do diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton, na apresentação do Relatório Trimestral de Inflação. Em pelo menos duas falas ele deixou com mau humor o comitê de campanha da presidente Dilma Rousseff:

1. Segundo Hamilton, o cenário de redução do desemprego, com taxas de desocupação atingindo mínimas históricas, não deve perdurar nos próximos trimestres. Hamilton disse que “em linha com o ciclo econômico, o mercado de trabalho deve passar por uma correção nos próximos trimestres”. Contudo, ele lembrou que o BC não faz previsões para taxa de desemprego.

O discurso oficial é que o desemprego baixo veio para ficar, embora já haja claros sinais de desaceleração na oferta de trabalho.

2. O diretor do BC defendeu também a autonomia da instituição, tema defendido por Marina Silva e duramente criticado pela presidente. “Do ponto de vista técnico, a teoria macroeconômica, amparada pelas evidências internacionais, aponta que um ambiente que contempla autonomia legal traz ganhos para as economias dos países que a adotam” – disse, declarando-se, em seguida, “favorável à autonomia legal de modo geral, inclusive no Brasil”.

Na campanha de Dilma a autonomia do Banco Central é mostrada como um grande mal, capaz de prejudicar as conquistas dos mais pobres nos últimos anos.

O Relatório Trimestral em si foi recebido sem surpresa – e com certo ceticismo. O BC parece não querer se comprometer com aifrmações mais contundentes nesta hora eleitoral e apenas “cumpre tabela”.

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A autoridade fez a correção mais do que óbvia na previsão do PIB de 2014, para 0,7%, ainda assim bem acima da expectativa do Boltim Focus, rebaixada esta semana para 0,29%. Na inflação, indica que não espera índice abaixo de 5% antes de meados e 2016.

Todavia, há dados importantes que destoam do otimismo oficial: a previsão de que o investimento terá uma queda de 6,5% este ano e de 2,4% no período de 12 meses até junho de 2015 e a admissão de que a política fiscal pressiona a inflação.

Contrariando o BC, Luciano Coutinho, do BNDES, disse ao “Valor” que a disposição de investimento no Brasil continua alto.

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A informação corrente em Brasília é que há uma certa insatisfação interna no funcionalismo da instituição com as posições oficiais da diretoria do BC. Por isso, em alguns aspectos surpreenderam as falas do diretor Carlos Hamilton ontem.

Novas bondades

para os empresários

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A eleição voltou a fazer barulho na economia, com mais uma queda acentuda do Índice Bovespa – 4,52% –, puxada principalmente pelas estatais e, mais especialmente, pela Petrobrás – baixa de 11,4%. O Banco do Brasil também levou um tombaço – 9%. E o dólar deu outra disparada, chegando a R$ 2,48 e fechando acima de R$ 2,45.

O movimento de ontem não se deve apenas ao “efeito Dilma” (a indicação das pesquisas de que ela pode ganhar a eleição), mas também ao mau humor externo generalizado, de acordo com os analistas. Porém, internamente, nos meios empresariais o humor eleitoral continua azedado.

Guardadas as devidas proporções, há muita semelhança com o que ocorreu neste época em 2002.

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Por tudo isto, a economia está na ponta da língua dos candidatos, de olho nos empresários. Aécio Neves cobra de Dilma, Marina espicaça a adversária. E Dilma continua com seus acenos para o mundo dos negócios, ao mesmo tempo em que ataca os adversários para o grande público, acusando-os de representar os setores de negócios. É uma no cravo e outra na ferradura.

Ontem, por exemplo, no escaninho do pacote de bondades empresariais dos tempos de eleição, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que as empresas poderão recuperar 3% do faturamento com a exportação de produtos manufaturados por meio de créditos tributários (o Reintegra) a partir do próximo mês. A alíquota entraria em vigor em 2015.

Para o último trimestre deste ano, o crédito previsto era bem menor, de 0,3%, mas o governo recuou depois de pedidos da indústria. Além disso, o governo ampliou em R$ 200 milhões a verba destinada ao Proex (Programa de Financiamento às Exportações – Equalização).

Já Dilma convocou entrevista para exaltar o BNDES e criticar as posições dos adversários sobre o banco. “É uma temeridade essa discussão a respeito da redução do papel dos bancos públicos… Os dois candidatos, Marina e Aécio, ambos falam [disso]. Um fala em reduzir o tamanho, outro fala em reduzir o papel dos bancos públicos”.

Nova CPMF?

Os votos de Marina no Congresso, a respeito do CPMF, continuam rendendo conversas eleitorais. Dilma reforça a crítica à adversária, acusando-a se ter votado contra o imposto do cheque. Marina, que votou mesmo contra duas vezes, tenta se explicar, confusamente. Informa o “Valor” que, sob orientação do PT, Marina votou quatro vezes contra a CPMF no governo Fernando Henrique.

Agora, pelo que pode se depreender desse acalorado debate, tanto Dilma quanto Marina são a favor da CPMF. Se não, uma não estaria acusando a outra de ser contra, enquanto a outra diz aue não é.

É só um jogo de cena eleitoral, ou, numa eventual vitória e na reforma tributária prometida, elas podem propor a sua volta? Por parte de Dilma sabe-se que durante algum tempo o governo estudou a possibilidade de retomar a CPMF com o codinome de Contribuição Social para a Saúde (CSS).

A pesquisa do dia, de ontem, da CNT/MDA, aponta também para o viés de alta da presidente – 45% contra 25% de Marina no primeiro turno e 48% a 39% no segundo. Indica ainda uma diminuição da diferença entre a candidata do PSB e Aécio Neves: 25% a 20%. Aumentou no PT a “sensação” de que vai ganhar no primeiro turno.

Na reta final, as traições começam a se revelar explicitamente nos Estados. Em São Paulo, 69 prefeitos do PMDB, em evento no Clube Espéria, na capital, declararam apoio à reeleição do governador Geraldo Alckmin, com grandes possibilidades de vencer a eleição na primeira rodada.

Em Pernambuco, a corrente do PT Lutas e Massas (PTLM) abandonou a aliança petista com Armando Monteiro Neto, do PTB, e anunciou que está apoiando o candidato do PSB, de Eduardo Campos (e Marina Silva), Paulo Câmara.

A cúpula petista classificou a ação de “indisciplina partidária”. Os peemedebistas de São Paulo garantem que o presidente nacional do partido, o vice-presidente Michel Temer, sabia que eles estavam reunidos para apoiar Alckmin.

Espera-se muito mais infidelidade até o dia 30. Mas nada decisivo no âmbito federal, no estadual sim.

Outros destaques

dos jornais do dia

– LEILÃO 4G – Com apenas quatro empresas interessadas (Claro, Tim, Vivo e Algar Telecom), a Anatel hoje o segundo leilão de internet 4G do país. Serão oferecidos três lotes para cobertura nacional e três para cobertura regional, com lance mínimo de R$ 1,928 bilhão para cada uma delas. O governo espera arrecadar pelo menos R$ 8 bilhões com as vendas das licenças, para socorrer os cofres do Tesouro na formação do superávt primário deste ano. A ausência da Oi pode reduzir o ágio pretendido. O BNDES vai financiar todo o processo, desde o pagamento da outorga até os investimentos. Foi a fórmula encontrada por Brasília para vencer as resistências das teles. Elas tentaram de várias maneiras adiar o leilão.

– GREVE DOS BANCÁRIOS – Os bancários rejeitaram ontem mais uma proposta de reajuste salarial e aprovaram o início de greve nacional por tempo indeterminado hoje. A última paralisação dos bancários ocorreu entre setembro e outubro do ano passado e durou mais de 20 dias. Confirmaram adesão à greve os estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Paraná, Bahia, Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba, Piauí, Acre, Mato Grosso do Sul, Sergipe, Santa Catarina, Espírito Santo, Mato Grosso, Maranhão, Amapá, Rondônia e alguns municípios do Rio Grande do Sul.

– COMÉRCIO EXTERIOR – No “Valor”: acompanhamento do Observatório de Câmbio da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que, no acumulado do primeiro semestre deste ano, o real ficou 15% sobrevalorizado em relação à taxa de equilíbrio, enquanto as moedas de Estados Unidos, Alemanha e China estavam desvalorizadas pelo mesmo critério. Na média do ano passado, o real ficou 13,9% sobrevalorizado. O trabalho, organizado por Emerson Marçal e Vera Thorstensen, ambos pesquisadores da FGV, utiliza metodologia adotada pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para medir a influência das políticas dos bancos centrais locais e da trajetória das transações externas na formação do câmbio do país. Com isso, o câmbio anulou a proteção da tarifa média cobrada sobre os importados no Brasil.

LEITURAS SUGERIDAS

1. Helio Schwartsman – “Falácias eleitorais” – Folha 

2. Vinicius Torres Freire – “Dilma, cassino e vida real” – Folha 

3. Editorial – “BC prevê país encalhado” – Estadão

4. Celso Ming – “Última mensagem” – Estadão

5. José Paulo Kupfer – “Agitação na reta final” – Estadão

6. Raymundo Costa – “O PT já pensa em controlar o Dilma 2” – Valor 

7. Juan Arias – “A sociedade foi a grande ausente do debate” – El Pais digital