Primeiras leituras: com indecisos, Marina passa Aécio e venceria Dilma

A pesquisa do DataFolha captou boa parte da comoção pelo morte de Eduardo Campos e pegou indecisos brancos e nulos. É sinal vermelho tanto para Dilma quando para Aécio. Mas é preciso esperar uma pesquisa menos marcada pela emoção para se ver a tendência real.

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Marcada ainda, como se previa, pela comoção causada pela tragédia de Eduardo Campos, a primeira pesquisa DataFolha após o desastre foi fortemente favorável à ex-senadora Marina Silva, candidata de fato que só falta ser oficializada pelo PSB.

O crescimento de Marina foi mais impressionante do que imaginavam os adversários: tanto no QG de Dilma Rousseff quando no de Aécio Neves imaginava-se que a líder do Rede Sustentabilidade poderia chegar a cerca de 15% de votos, sete pontos a mais que Eduardo Campos na sondagem anterior do instituto – de fato, já empatou com Aécio, tecnicamente, mas com um ponto de vantagem.

Assim: Dilma 36%, Marina 21%, Aécio 20%.

Comparando-se com a pesquisa 18 de julho – Dilma 36%, Aécio 20% e Campos 8% -, observa-se que Marina abocanhou todos os seus pontos, além dos que tinha o parceiro, no campo do “não voto” – indecisos, brancos e nulos: quem não votaria era 27% agora está em 17%.

São, por assim dizer, os “órfãos” dos movimentos de junho passado e a parcela dos eleitores que tem indicado nas pesquisas que querem mudar tudo ou quase tudo nas políticas do governo (cerca de 70) e não haviam encontrado em Aécio e em Campos o desaguadouro para esta insatisfação.

Resta saber agora qual o fôlego de Marina, qual o real e efetivo respaldo que terá de sua aliança, com quem andou se estranhando, para sustentar este crescimento.

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Ela parte na abertura do horário eleitoral no mesmo nível (um ponto a mais) de votos que alcançou na eleição de 2010 – 20%, quando conquistou 20 milhões de eleitores.

Marina terá de agir politicamente para quebrar algumas resistências a seu nome. Não tem a candidatura ameaçada, mas tem desafetos na aliança. E há divergências quanto a programas e políticas. Terá o respaldo forte da viúva de Campos, Renata: deu a Marina todo o prestígio possível nas circunstâncias e marcou para hoje em sua casa uma reunião com os lideres do PSB.

A questão do vice deve ser tratada com habilidade: já está gerando disputas e ciumeiras.

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Para uma comparação é interessante ver como estavam os três principais candidatos à Presidência em agosto de 2010 (DataFolha) nesta mesma ocasião, imediatamente antes do início do horário eleitoral no rádio e na televisão: Dilma 41%, Serra 33% e Marina 10%. Ela dobrou em menos de 50 dias e forçou então o segundo turno.

As circunstâncias são totalmente diferentes, não há como ignorar que o emocional influenciou o primeiro salto de Marina agora. Ainda tem a acrescentar? É possível. Não foi intencional, obviamente, mas tudo nas cerimônias de despedida e sepultamento de Eduardo Campos contribui para isto, inclusive a onipresença de Marina em todas as cerimônias, ao lado da família e uso da última frase do ex-governador em sua entrevista à TV Globo, “Não vamos desistri do Brasil”.

Marina, com sua dose de natural de misticismo e messianismo, parece abraçar a “causa da emoção”. “Essas coisas acontecem em nome de algo mais alto” – disse durante a cerimônia de despedida do ex-governador.

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A pressão ficou muito pesada sobre Aécio, embora ele não tenha perdido eleitores, agora tem uma ameaça concreta de alguém que pode roubar dele uma vaga no primeiro turno, uma ameaça que Campos não parecia representar. O mineiro parece mais indiretamente atingido: perderia para Dilma no segundo turno; a avaliação do governo Dilma melhorou – o ótimo/bom subiu seis pontos.

Mas a pressão ficou muito forte também para Dilma, pois num eventual segundo turno com Marina, segundo esta sondagem do DataFolha, ela sairia em desvantagem: 47% a 43% da favor da ex-ministra, no limite máximo da margem de erro de dois pontos para baixo e dois pontos para cima.

Não há sinais concretos ainda da estratégia das campanhas do PT e do PSDB para enfrentar este novo quadro. No antes eles se limitavam a poupar Eduardo Campos e a bater um no outro, na esperança de ter o ex-governo como parceiro num eventual segundo turno. Agora, terão de direcionar o fogo para Marina. Quem vai abrir o tiroteio? Em que direção?

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Comenta-se que o PT acentuará o caráter “desenvolvimentista” da política de Dilma, para contrastar com posições consideradas um entrave ao “desenvolvimento” de Marina em alguma áreas, marcadas por seu radical ambientalismo. O movimento de Aécio seria mostrar as dificuldades gerenciais e de entender as grandes questões econômicas de Marina.

Lula e o PT fizeram alguns movimentos concretos em direção ao PSB – procurando, logo depois da morte de Campos os “petistas” do partido. Tentaram afastar os pessebistas de Marina. Falhou. Outra tática imaginada é “rachar” o PSB nos Estados, principalmente onde Marina criou problemas com o partido que a abrigou.

Isso não vai funcionar depois desta primeira pesquisa: Marina virou uma grande puxadora de votos para os pessebistas e aliados. Eles estavam preocupados com a possibilidade de perder votos com a morte de Campos, não elegerem nenhum governador e, principalmente, ter reduzidas suas bancadas na Câmara.

A política dá voltas: Marina precisou do PSB para respirar politicamente quando ficou sem partido – foi dela a iniciativa de procurar Eduardo Campos; agora é o PSB que precisa de Marina para não diminuir.

Deve se fazer uma ressalva: a pesquisa foi marcada basicamente pela emoção. É preciso esperar a poeira abaixar um pouco, umas duas semanas, para se sentir se ela revela uma tendência de fato ou apenas o momento excepcional em que foi realizada.

Semana para emoção

nenhuma botar defeito

Neste amálgama que se formou no Brasil entre as eleições presidenciais (expectativas, basicamente) e a economia (fatos e expectativas), a semana que hoje começa promete emoções para ninguém botar defeito.

Além da pesquisa DataFolha, cuja repercussão fora do ambiente da campanha e da política ainda é difícil imaginar, os próximos cinco dias serão quentes.

1. Hoje é a entrevista da presidente Dilma Rousseff na bancada do Jornal Nacional, adiada da semana passada. Involuntariamente, ela ganhou um tempo para se preparar. Nos bastidores da campanha e do Palácio do Planalto temia-se (teme-se) pelo que poderia acontecer, pois os entrevistadores William Bonner e Patrícia poeta foram muito incisivos com Aécio e Campos. As circunstâncias atuais amainarão este padrão duro de perguntas? É de se imaginar que não.

2. Somente a partir desta segunda-feira teremos mais repercussões do IBC-Br (pesquisa do Banco Central para testar a tendência da economia) de junho e do primeiro semestre, apontando uma queda de 1,2% nas atividades econômicas nesse período. O Banco Central considerou natural e o Ministério da Fazenda calou-se.

O ministro Guido Mantega deu uma entrevista à “Folha de S. Paulo” de domingo, mas centrou-se mais na inflação. Garantiu que até 2018 o IPCA fluirá para a meta de 4,5% e que é possível que o próximo governo (petista) diminua esse índice. Mantega diz que com combate a inflação deve ser sem “medidas heróicas” e que a Copa derrubou o PIB. As declarações do ministro foram recebidas com certo ceticismo por diversos analistas.

O PIB oficial, do IBGE, sai na próxima semana, dia 29. A previsão da maioria e que será negativo para o trimestre terminado em junho e com correção, também para negativo, do valor do primeiro trimestre. Reportagem do “Valor” diz que a expectativa de economistas ouvidores por ele é que o investimento deverá apresentar queda pelo quarto trimestre seguido.

3. Começa amanhã o horário eleitoral obrigatório (que de gratuito, como gostam de dizer os políticos, não tem nada) no rádio e na televisão. Há curiosidade em saber como os candidatos vão se apresentar. Os programas iniciais são essenciais. A medida de audiência indica que o eleitor liga a tevê nos primeiros dias, por curiosidade, foge como pode em boa parte dos 45 dias do programa eleitoral, e só volta a prestar mais atenção a ele, nos últimos dias, para decidir ou confirmar a decisão já tomada. Marina perde pontos preciosos pois não poderá ser apresentada como candidata amanhã.

4. O Ministério do Trabalho deve anunciar os números do Caged (balanço entre demissão e contratações de trabalhadores com carteira assinada) de julho. As previsões dos especialistas são desencontradas, porém todas com sinais de desaquecimento acentuados: vão de um saldo positivo de cinco mil novos postos de trabalho ao fechamento de 55 mil empregos. Em junho foram abertas 25.363 vagas, o pior resultado em 16 anos. A pesquisa mensal de emprego do IBGE de julho inicialmente deve ser informado quinta-feira.

Os votos para o

Senado no DataFolha

São Paulo – Serra (PSDB) 33% / Suplicy (PT) 30%

Minas – Anastasia (PSDB) 46% / Josué Alencar (PMDB) 7%

Rio – Romário (PSB) 29% / César Maia (DEM) 23%

Rio Grande do Sul – Laiser Martins (PDT) 29% / Olívio (PT) 26%

Paraná – Álvaro Dias (PSDB) 57% / Ricardo Gomyde (PC do B) 4%

Ceará – Tasso Jereissati (PSDB) 53% / Mauro Filho (Pros) 18%

Distrito Federal – Reguffe (PDT) 29% / Magela (PT) 22%

Pernambuco – João Paulo (PT) 46% / Fernando Bezerra (PSB) 16%

Outros destaques

dos jornais do dia

– RENDA E CONSUMO – Segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio, divulgado pelo “Estadão”, o brasileiro está no fio da navalha: não tem folga no orçamento para ampliar as compras financiadas de itens de maior volume e corre o risco de ficar inadimplente. A massa real do salário dos trabalhadores cresceu 3.6% entre junho de 2013 e junho deste ano, praticamente a mesma variação da inflação.

– TESOURO DIRETO – Informa o “Valor” que O Tesouro Nacional estuda aumentar os benefícios oferecidos às instituições financeiras para incentivá-las a expandir a base de investidores do Tesouro Direto, programa de venda de títulos públicos a pessoas físicas pela internet. A ideia é elevar o prêmio em dinheiro que os bancos recebem nessas operações. Levantamento feito a pedido do jornal mostra o perfil do investidor no Tesouro Direto: homens (78,69%), de 26 a 35 anos (33,04%), moradores do Estado de São Paulo (44,28%). Os 406.483 investidores declararam ocupar 156 profissões diferentes: 9,71% são engenheiros, 8,95% bancários e 7,41% administradores. Grande parte dos clientes são das classes A e B, segundo André Proite, do Tesouro.

– CONTAS PÚBLICAS – O “Valor” informa ainda que enquanto a Caixa reclama de atraso nos repasses do governo para pagamento de benefícios sociais, o Tesouro Nacional antecipou a transferência de mais de R$ 5 bilhões ao Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) de uma arrecadação do PIS/Pasep que nem sequer se realizou. Essa é a primeira vez que o Tesouro faz esse tipo de adiantamento ao BNDES. A prática ajudou a reforçar o caixa do banco que é o principal instrumento do governo para tentar deslanchar investimentos, sem causar impacto fiscal.

LEITURAS SUGERIDAS

Domingo

1. Marcelo Coelho – “Comparação com morte de Tancredo vai se atenuando” – Folha 

2. Elio Gaspari – “PR-AFA de Eduardo Campos acertou Dilma” – Folha 

3. Paul Krugman – “Uma depressão para sempre” – Globo

4. Editorial – “Sobre credibilidade” – Estadão

5. Carlos Melo – “Nova política ainda se situa no futuro” – Estadão

Segunda

1. Mauro Paulino e Alessandro Janoni – “Marina concretiza potencial eleitoral de Campos” – Folha 

2. Editorial – “A Caixa espremida” – Estadão

3. Renato Janine Ribeiro – “Uma substituição sem transparência” – Valor 

4. Luiz Carlos Mendonça de Barros – “Provas de uma teoria” – Valor