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Enquanto a campanha presidencial vai se alimentando de promessas, críticas aos adversários (agora com menos baixaria) e de pesquisas de opinião (ontem o DataFolha soltou mais uma e hoje tem Ibope, além de outras menos votadas), o mundo real vai pintando o quadro que o eleito no domingo terá de administrar.
E, sem terrorismo, o retrato não é bom. A primeira coisa que a realidade vai exigir de Dilma Rousseff ou Aécio Neves é a reciclagem do discurso tão logo as urnas sejam fechadas. O que vai trazer para eles o primeiro desafio: a desconfiança da população que está sendo informada de fato sobre como será o dia de amanhã.
E esse risco parece visível já: os números do DataFolha de ontem mostram que aumentou o otimismo do eleitor com a economia. Por exemplo: somente 31% acham que a inflação vai subir, o menor índice desde 2007. Esta é uma explicação para o crescimento de Dilma.
Porém, os sinais dos preços são em outra direção. O IPCA-15, uma espécie de prévia mensal da inflação oficial, divulgado ontem pelo IBGE, veio mais acelerado que o anterior: 0,48% contra 0,39% do período passado. Em 12 meses, o IPCA-15 permaneceu em 6,62%, acima do teto de 6,5% da meta inflacionária.
A aceleração se deve principalmente ao item alimentação, o que mais afeta o bolso do cidadão comum. Depois da deflação verificada de maio a agosto, os preços dos hortifrutis e da pecuária voltaram a se elevar. Os custos com alimentação registraram alta de 0,69% no IPCA-15 de outubro ante 0,28% em setembro.
E uma das principais razões é a estiagem que assola algumas regiões do país, com força no Sudeste e no Centro-Oeste. Como a previsão é de pouca chuva, os analistas dizem que a pressão sobre os alimentos deve continuar.
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O curioso é que a seca está sendo bem usada na campanha de Dilma Rousseff, explorando a falta de água em São Paulo, para criticar as administrações tucanas. Segundo indicações das pesquisas mais recentes, com sucesso.
Contudo, tem o outro lado. O problema é que a prolongada falta de chuvas vai deixar seqüelas, e não apenas somente por algum tempo no preço dos alimentos. A situação dos reservatórios das usinas hidrelétricas é delicada. E pode exigir ajustes no fornecimento de luz, além dos já previstos aumentos de tarifas.
Segundo o jornal “Valor Econômico”, a onda de atrasos na construção de novas hidrelétricas não se restringe mais aos grandes empreendimentos na Amazônia. Projetos de médio porte também começaram a apresentar sérios desvios, o que pode comprometer o fornecimento de energia nos próximos anos e exigir o uso intensivo das termelétricas, mais caras e mais poluentes.
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Não será uma situação tão fácil de gerir como dão a entender as campanhas dos candidatos enfrentar esses desafios, muito deles nem aflorados nos discursos. E com uma população dos calcanhares, cobrando.
Petrobrás com nota mais baixa
Outro tema que voltou a aflorar ontem foi o da gestão na Petrobrás. Independentemente do que se tem revelado na Operação Lava-Jato, o quadro geral da companhia exige atenção e terá de ser enfrentado com decisão por quem ficar no Palácio Planalto em 2015.
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Essa situação apareceu refletida ontem na decisão da agência de classificação de risco Moddy’s de rebaixar a nota de crédito do Petrobrás, usada pelo mercado financeiro para estabelecer o custo dos empréstimos às empresas. A estatal caiu um degrau, ainda dentro da categoria de “grau de investimento”, porém com perspectiva negativa.
A agência aplicou esta nota com o argumento de que o alto grau de endividamento da estatal só deve se reverter ‘bem depois de 2016’, ao contrário das previsões originais. Os números dos balanços da estatal nos últimos quatro anos comprovam isso:
2010 – Lucro líquido: R$ 33,18 bilhões / Endividamento: R$ 117,91 bilhões
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2011 – R$ 33,31 bi / R$ 155,55 bi
2012 – R$ 21,18 bi / R$ 196,31 bi
2013 – R$ 23,57 bi / R$ 267,82 bi
O ajuste na empresa terá de ser feito num cenário de preço internacional do petróleo em baixa, a ficar assim segundo analistas do mercado petrolífero por um bom tempo. Se o petróleo mais barato ajuda a Petrobrás imediatamente a administrar o preço interno dos combustíveis, pode reduzir suas receitas com a venda de óleo. A desvalorização cambial também foi citada pela agência para respaldar sua decisão.
As pesquisas em xeque
As campanhas seguem sem novidade. Os temas do debate final da Globo já estão sendo decorados: corrupção, inflação e falta d’água, comparações entre as administrações petistas e tucanas.
A ver se o Ibope de hoje à noite traz alguma novidade. De acordo com os analistas, não deve trazer nenuma. O DataFolha de terça-feira repete os números de segunda: Dilma 52%, Aécio 48%, dos votos válidos.
O eleitor está parado, o que não significa, necessariamente que todos os votos de Dilma e Aécio estão cristalizados e qualquer mudança vá depender agora somente daqueles que se declaram indecisos ou que pretendem votar branco ou nulo.
Há movimentações dentro do universo dos já decididos. Os votos que Dilma conquistou para ultrapassar Aécio ela tirou todos do candidato tucano.
Para se ter uma idéia de como a demagogia campeia solta na eleição e tem certo poder de influência veja-se o que está acontecendo em Brasília: José Frejat, que entrou na disputa em substituição ao ex-governador José Roberto Arruda depois que sua candidatura foi cassada, diminuiu em menos de uma semana em seis pontos a desvantagem que tinha para Rodrigo Rollemberg depois que passou prometer reduzir a tarifa de ônibus na capital para R$ 1,00.
Os desvios de algumas sondagens do primeiro turno e da boca de urna colocaram os institutos sob observação. Dificilmente não aparecerá algum tipo de restrição. Em baixa, Aécio resolveu contestar com ironia o DataFolha.
O “Valor” informa que o presidente do TSE, ministro Dias Toffolli, pretende, depois das eleições, convocar representantes dos principais institutos de opinião para discutir com eles as pesquisas eleitorais. A intenção do TSE é criar novas regras para as sondagens. No Congresso já há projetos proibindo a divulgação de qualquer pesquisa 15 antes das eleições.
Toffolli dá também dá entrevista a “O Globo”: nela, o principal destaque é a preocupação recente do tribunal com o nível da campanha. O TSE está mais rígido e até mudou as normas para o direito de resposta para não deixar algum ataque de última hora sem revide.
Mas já há críticas a esse ativismo do TSE: ele estaria interferindo demais no livre direito de opinião e de informação.
Outros destaques
dos jornais do dia
– ATIVIDADE ECONÔMICA – As vendas de materiais de construção neste ano foram muito mais fracas do que o imaginado pela indústria, o que levou à redução das previsões do desempenho do setor para 2014. De acordo com a pesquisa da Abramat, as vendas caíram 5,7% em setembro na comparação com o mesmo mês do ano passado, e no acumulado do ano caíram 6,5% em relação ao mesmo período de 2013. Com isso, a Abramat revisou de crescimento de 4,5% para queda de 4,0% sua expectativa para o comportamento do setor este ano.
– CONTAS PÚBLICAS – No “Valor”: Apesar de ainda estar em patamar elevado, o déficit da previdência dos servidores públicos diminuiu de 2005 para cá. Segundo dados do Ministério do Planejamento, o rombo recuou de 1,42% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2005 para 1,23% em 2013. A expectativa, prevista no Orçamento deste ano, é de continuidade da trajetória positiva, atingindo 1,09% do PIB em dezembro deste ano e 1,07% no fim de 2015. Mas a diminuição das despesas, segundo analistas do setor, dependerá do desempenho da economia e das negociações salariais.
LEITURAS SUGERIDAS
1. Análise: “Otimismo com economia aumenta e ajuda Dilma na disputa eleitoral” – Folha
2. Editorial – “O fiasco dos investimentos” – Estadão
3. Cristiano Romero – “Dilma rompe o consenso” – Valor
4. Carlos Pereira – “O que não for abaixo da cintura vale” – Valor
5. Rosângela Bittar – “De Lula para Dilma” – Valor
6. Editorial – “MP 351 amplia desonerações e cria novas ameaças fiscais” – Valor
7. Calor Pagni – “A esquizofrenia populista” – Valor