Publicidade
A notícia preocupante do dia não é necessariamente a queda brutal na produção de veículos, segundo dados divulgados ontem pela Anfavea: menos 20,5% em julho ante junho (o pior julho em oito anos) e menos 17,4% no ano.
E nem mesmo a constatação, pelos dados da Pesquisa Industrial do IBGE, de que a diminuição da produção do setor industrial como um todo em junho (1,4%) foi generalizada (11 das 14 regiões pesquisadas) e chegou às áreas mais desenvolvidas: no Sul e no Sudeste, por exemplo, só não atingiu o Rio de Janeiro e o Espírito Santo.
A informação mais preocupante (matéria em “O Estado de S. Paulo”) é que a intenção de compras dos consumidores em dois setores chave na economia está em baixa: 91,9% dos consultados pela FGV disseram não ter intenção de comprar automóveis proximamente contra 6%; para imóveis os números são, respectivamente, 96,7% e 2,4%.
Não na mesma linha, mas com algum ponto de contato com o dos analistas do Banco Santander, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho (apontado em algumas especulações como um provável ministro da Fazenda num governo Dilma II) disse que as eleições já estão afetando os investimentos.
“Isto já é perceptível nas consultas ao banco, este é um período de incertezas” – disse. (“O Globo”)
Noticia o “Valor Econômico” que os investidores têm cobrado mais caro do Brasil do que de vizinhos na América Latina para aplicar no país. Até 2012, o Brasil pagava prêmios de risco similares aos de alguns mercados da região. Desde então, as taxas descolaram.
Continua depois da publicidade
Segundo analistas, o problema é que, enquanto alguns países latino-americanos reforçaram os fundamentos econômicos por meio de reformas estruturais nos últimos anos, o Brasil fez o oposto, apresentando, por exemplo, piora nas contas públicas e externas e no comprometimento com a meta de inflação.
A questão posta é quando e em que dimensão tudo isso começará a se refletir nos níveis de emprego e renda.
A diretora do “Valor” em Brasília, Claudia Safatle, diz que o comando de campanha de Dilma discute a possibilidade de antecipar algumas medidas (ou pelo menos dar sinais do que vai fazer), como, por exemplo, o aumento da gasolina, para rebater parte do discurso oposicionista e também acalmar alguns setores empresariais. Mantega já falou que a Petrobrás terá aumento este ano e isso na refletiu na Bolsa.
Continua depois da publicidade
O fato é que a economia deve ser, mais que em outras ocasiões, o grande eleitor este ano.
E não somente aqui: nos Estados Unidos, estudo do Fed na Filadélfia diz que o acirramento das tensões entre republicanos e democratas no país prejudica o investimento privado, o emprego e o crescimento.
Continuam aparecendo avaliações sobre as chances eleitorais dos candidatos: um especialista da consultoria Ipsos nos Estados Unidos dá 58% para Dilma contra 42% para um oposicionista. (Valor, ver em “Leituras”)
Continua depois da publicidade
Já a empresa Nomura Securities vê a “vitória da oposição em outubro, em segundo turno, como resultado mais provável da eleição brasileira”. Para o cenário básico para a eleição presidencial no Brasil contempla mudanças.
Petrobrás e trens
na guerra das CPIs
Continua depois da publicidade
O tema Petrobrás e os desdobramentos das últimas histórias da CPI do Senado continuam na ordem do dia. E incomodando o Palácio do Planalto.
Segundo relato dos repórteres que conversaram com a presidente Dilma Rousseff sobre o assunto, após a sabatina na CNA, ela ficou visivelmente irritada (coisa que não consegue disfarçar) quando perguntada sobre o suposto envolvimento do Palácio do Planalto no caso da preparação de perguntas para os depoentes, uma “farsa” para a oposição, “natural” para os governistas.
Dilma considera a suspeita envolvendo o Palácio “algo estarrecedor”. Já o secretário Executivo do Ministério das Relações Institucionais, Luiz Azevedo, citado como tendo atuado diretamente para estabelecer normas na CPI, confirmou que essas ações fazem parte de suas funções.
O governo tem agido também para evitar a amplificação da história. De acordo com o “Estadão”, o Planalto mexeu seus pauzinhos para adiar a reunião, ontem, do TCU, que definiria se os bens da presidente da Petrobrás, Graça Foster, serão bloqueados, como os de outros diretores da estatal na época do negócio, para pagar possíveis prejuízos na compra da refinaria de Passadena, cerca de US$ 800 milhões.
O parecer do relator, ministro José Jorge, é pela inclusão de Graça e também de outro ex-diretor, Jorge Zelada, no processo. Graça foi defendida pelo advogado geral da União, Luis Adams, que alegou que uma decisão dessas pode prejudicar a empresa, pois cria insegurança na área gerencial e jurídica.
Ao mesmo tempo, Graça entrou com uma ação cautelar no STF para sustar qualquer decisão nesse sentido do Tribunal de Contas.
Por sua vez a CPI do Metrô, com a qual os governistas contam para constranger os tucanos, empatando os jogo das Comissões de Inquérito, não andou. Foi instalada, mas, por causa de disputas entre o PMDB e o PT, somente terá seus dirigentes escolhidos em 2 de setembro. Com o recesso branco, dificilmente fará barulho antes do primeiro turno.
Ainda na guerra das CPIs, a Câmara dos Vereadores criou ontem uma Comissão em São Paulo para investigar a Sabesp e discutir a questão do racionamento ou não na região metropolitana. É fogo contra Geraldo Alckmin e o PSDB.
O embate entre o
que fazer e o que foi feito
Os dois ambientes – ontem na CNA e semana passada na CNI – não eram favoráveis à presidente Dilma Rousseff, por razões óbvias: os empresários estão insatisfeitos com a política econômica ora em curso.
No cômputo geral, portanto, Dilma agradou menos nas duas sabatinas, segundo conversas com presentes nos eventos. Porém, seus concorrentes, também segundo essas avaliações, não foram tão superlativamente melhores. Eduardo Campos saiu com maiores simpatias entre os industriais, Aécio Neves entre os agropecuaristas.
São evidentes as dificuldades dos três candidatos de falarem para determinadas platéias quando orientados pela visão dos marqueteiros. Têm de agradar a tais públicos, mas não podem dizer certas coisas, pois temem as repercussões junto ao comum dos eleitores.
Vai ser assim: promessas e cautela. Afinal, há dois “princípios” na política brasileira que são imutáveis:
1. Feio não é fazer promessas que não se pode cumprir, feio é perder eleição.
2. Campanha é para ganhar eleição, para governar é outra coisa.
De todo modo, depois desses dois eventos, já dá para perceber qual será a linha mestra da campanha dos três concorrentes:
1. Dilma vai mesmo se concentrar nas realizações dos 12 anos de governos petistas, no “já mostramos o que sabemos fazer”, sem avançar promessas. Parece uma opção segura, mas defensiva. Ela não pode adiantar mesmo o que pretende fazer porque simplesmente poderá ser cobrada porque ainda não fez e porque promessas de mudanças poderiam parecer admissão de erros e equívocos.
Na CNA, por exemplo, era teve de fazer malabarismos para não desagradar a platéia e não se indispor com setores com os do sem terra e dos índios.
2. Aécio e Campos ficam mais à vontade para falar sobre o futuro, para assumir compromissos. Aécio pode, por exemplo, falar em cortar ministérios, em turbinar o Ministério da Agricultura; Campos pode prometer o passe livre escolar, e assim por diante; Dilma não.
Os dois primeiros correm riscos de ficarem desacreditados se forem longe demais. Dilma de passar uma idéia de uma “mesmice” que já não agrada parte do eleitorado.
Dilma tem ainda uma linha auxiliar, ensaiada por ela e Lula lá tempos atrás – o “discurso do medo” -, mas que será usado com parcimônia, porque, ensinam alguns marqueteiros, o dircurso agressivo e negativo às vezes não funciona.
Esta linha será usada mais pelos parceiros. Hoje, por exemplo, vai surgir na homenagem que cinco centrais sindicais, lideradas pela CUT, fazem à presidente num evento em São Paulo, com Lula presente. O documento preparado para ser divulgados pelos sindicalistas, informa o Painel da “Folha de S. Paulo”, acusará a “oposição conservadora” de preparar medidas “duras” e “amargas” contra os trabalhadores.
Outros destaques
dos jornais do dia
– CASO SANTANDER – Informa a “Folha” que o Banco Santander demitiu quatro funcionários – e não apenas um, como se imaginava até agora – por causa do polêmico informe distribuído a clientes VIPs em julho, no qual descreve a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) como uma ameaça à economia do país. O porta-voz do banco disse que a instituição não recebeu nem admitiria pressões e que os funcionários afastados descumpriram o código de conduta interno.
– ORÇAMENTO – reportagem do “Estadão” mostra as dificuldades que terá o presidente eleito para definir prioridades em sua gestão: 87% de todas a receitas da União são comprometidas com algum tipo de despesa – ou com gastos obrigatórios ou com vinculações. Elas não podem ser mexidas nem cortadas, o que dificulta qualquer arranjo mais profundo das finanças públicas. No curto prazo o governo só pode agir livremente sobre 13% do Orçamento.
– POLÍTICA ECONÔMICA – o ex-ministro Delfim Neto, que aos poucos vai se tornando um crítico mais agudo da atual política econômica, previu, em palestra no Fórum Lideranças da Associação Brasileira de Proteína Animal, que o PIB brasileiro este ano crescerá 1%, acima ainda do prognóstico dos analistas do Focus e do do Banco Central.
Outras afirmações do ex-ministro, durante algum tempo interlocutor privilegiado de Lula e Dilma: (1) o governo controla a gasolina para manter a inflação, mas destrói o etanol; (2) a intervenção do BC está mantendo o câmbio abaixo do seu equilíbrio; (3) o governo está muito sensível, reage a qualquer crítica de maneira violenta; (4) a prioridade do governo tem sido a ampliação do custeio, não dos investimentos.
– PREVIDÊNCIA – Os gastos do governo com a desoneração das folhas de pagamento serão superiores aos previstos: até junho o Tesouro já repassou para a Previdência Social neste item R$ 8, 2 bilhões; o Orçamento prevê um repasse de R$ 11 bi para o ano inteiro.
LEITURAS SUGERIDAS
1. Jânio de Freitas – “Se é crime, são dois” – Folha
2. Clovis Rossi – “A visita da tia velha e chata” – Folha
3. Roberto Macedo – “Lula e Dilma, a comparação relevante” – Estadão
4. Editorial – “Emergência no Tesouro” – Estadão
5. Celso Ming – “É a economia, candidatos” – Estadão
6. Editorial – – “Reativa-se a indústria de criação de municípios” – Globo
7. Ribamar Oliveira – “Os estranhos números de Previdência” – Valor
8. Cristian Klein – “Eleição que se decide nos centímetros” – Valor