Primeiras leituras: a decepção dos programas eleitorais

Eles dão sono ou vontade de usar o botão de desligar.A primeira amostra do horário eleitoral foi decepcionante, no fundo, um desrespeito ao eleitor, um misto de uma novela tecnicamente bem produzida com um enredo fraco e estilo de propaganda de sabonete.

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Pela primeira amostra ontem, em dois tempos na televisão e em dois tempos no rádio, o eleitor que estiver dependendo do que candidatos e partidos apresentam no horário eleitoral obrigatório para decidir em quem votar, vai ficar numa enrascada.

Obviamente descontando-se os partidos com menos recursos, tecnicamente os programas são de alta qualidade, de imagens, de tomadas, de cena, de “de direção” de atores, de tentar fazer que suas análises de promessas tenham algum cunho de “cinema verdade”.

Mas só fica, de fato, a maquiagem. O conteúdo…

Não é propriamente um programa político, está mais para um bom comercial.

Não é à toa que os números preliminares de audiência, levantados pelos medidores eletrônicos ligados em tempo real, já registraram perda de telespectadores pelas principais televisões no horário dos políticos.

Segundo registrado pelo colunista Lauro Jardim, no portal da revista “Veja”, às 12h59, imediatamente antes do início da propaganda obrigatória, Globo, Record e SBT marcavam 8, 7 e 5 pontos, respectivamente, de acordo com dados prévios do Ibope para a Grande São Paulo. Entre as 13h e as 13h50, quando o horário eleitoral terminou, a Globo e Record passaram a marcar 5 pontos cada, o SBT 3 pontos, a Band 2 pontos e a Cultura apenas 1 ponto.

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Em comparação com a audiência que as TVs abertas registraram na Grande São Paulo ontem (segunda-feira), no mesmo horário, tem-se o seguinte quadro: a Globo caiu 52%; a Record perdeu 30%; o SBT caiu 47%; e a Band, 40%.

Normalmente os primeiros programas despertam mais attenção, por curiosidade. A tendência é cair mais ainda daqui para frente.

Um detalhe curioso: Lula foi quase no “dono” do programa do PT no rádio. Na televisão, sua exposição foi mais discreta. Chegou-se a aventar a possibilidade de o ex-presidente funcionar como uma espécie de “âncora” do programa de Dilma na tevê. Ontem cumpriu este papel apenas no rádio.

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Mais interessante ainda: na tevê, Lula reconheceu que há insatisfação com o governo Dilma (coisa que ela mostrou que não admite, como na sabatina da Globo) e prometeu que a presidente fará um governo melhor no segundo mandato.

Se somarmos a isto o fato de todos os candidatos prometerem mudanças, pode acontecer no Brasil algo inusitado em uma eleição em todo o mundo: uma disputa com três candidatos de oposição e nenhum francamente governista.

As definições

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de Marina

Deu, como a maioria já previa, o deputado gaúcho Beto Albuquerque, do PSB, candidato ao senado no RS, como vice de Marina Silva, depois da frustrada tentativa de apoiadores da ex-ministra e de setores do PSB de dar o lugar para a viúva de Eduardo Campos, Renata, formando uma chapa de “pura emoção”.

Vice tem pouca importância numa eleição, ninguém vota nele – há paises que nem têm este cargo. No máximo, serve para dar algumas indicações, como foi o caso de José de Alencar, na parceria com Lula, clara intenção do então candidato de mostrar que não tinha preconceitos contra o empresariado, não era apenas o empedernido líder sindicalista “contra tudo que está aí”.

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O deputado gaúcho pode ser inserido nesta linha: tem ligações com o agronegócio, território no qual Marina é vista com reservas.

No mais, o vice pode atrapalhar, ou por trapalhadas na campanha ou depois, o que não parece ser o caso de Albuquerque.

Porém, a primeira das muitas decisões cruciais que Marina vai ter de tomar é hoje: é a respeito do seu relacionamento com o PSB. Há, nos bastidores, por mais que se queira esconder, uma evidente disputa entre a candidata e o partido que a abrigou pela hegemonia na campanha e até num futuro govenro. 

É uma disputa que vai determinar os rumos da campanha e, mais ainda, o que será o governo caso a ex-senadora seja eleita. O PSB quer que ela encampe totalmente o programa lançado por Eduardo Campos. Embora tenha concordado com ele quando foi lançado, a proposta contém linhas que contrariam diretamente princípios defendidos de maneira quase religiosa por Marina.

Então, polrém, ela era uma vice e convidada no processo. Agora é a protagonista e é natural que queira apitar o jogo. Afinal, quem vai fazer a campanha é ela e quem governará é ela.

O PSB, contudo, quer amarrar Marina em uma série de compromissos. Alguns programáticos, outros nem tanto. Até ontem havia sérias divergências quanto a isto. E faíscas no ar.

O PSB quer entregar a ela uma “Carta Compromisso” para ser assumida pela candidata. Os marinistas não querem saber disso, com razão. São discordâncias que podem prejudicar a campanha de Marina, já vista em alguns setores como forte concorrente a chegar ao segundo turno e até vencer as eleições.

Aécio diz que seu adversário é Dilma. Dilma diz que não se preocupada com Marina. Sinais claros de que pelo menos por agora a ex-ministra está incomodando – e muito – seus adversários.

Sobre previsões

eleitorais contundentes

Neste momento em que o embaralhamento da corrida presidencial está gerando uma avalanche de previsões sobre o comportamento do eleitorado, vale lembrar uma deliciosa história do folclore do futebol brasileira, contada por pernambucanos na ativa nos anos 1960/1970.

Jogava então no Sport, o time mais popular do Estado, um vigoroso zagueiro, de nome Ananias, de um estilo para mais para beque de roça do que para um aprendiz de Nilton Santos.

Ananias era rombudo, mas não era bobo. Sempre que abordado por algum repórter querendo um palpite sobre o resultado da partida que ele disputaria, sábio sentenciava: “Prognóstico só depois do jogo”.

Pois é!

Análises econômicas

e eleições

O Tribunal Superior Eleitoral tomou ontem importante decisão que diz diretamente respeito ao direito de informação no Brasil: por 5 votos a 2, os ministros da corte decidiram que a divulgação de análises econômicas, mesmo que favoráveis ou desfavoráveis a candidatos, por meio de anúncios pagos na internet, não fere a lei eleitoral.

A sentença foi tomada em julgamento sobre o caso da empresa de análise de mercado Empiricus. Em anúncios pagos, a consultoria usou chamadas em links que levavam para seu site: “Como se proteger da Dilma. Saiba como proteger seu patrimônio em caso de reeleição da Dilma”, e “E se o Aécio Neves ganhar? Que ações devem subir se o Aécio ganhar a eleição?”.

O relator do processo, ministro Admar Gonzaga, em decisão provisória determinou a exclusão da propaganda. E defendeu a “censura” na reunião do STJ ontem, mas foi derrotado.

Isto remete também à análise do Santander, na mesma época, que provocou reações da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e do PT e culminou com a demissão dos funcionários do banco responsáveis pelo texto divulgado a correntistas dizendo que a bolsa esta sendo movida pelos movimentos eleitorais de Dilma.

Movimdento, aliás, como tem ocorrido nos últimos dias, desde que a entrada de Marina Silva na sucessão presidencial passou a ser interpretada como uma indicação concreta de que a eleição presidencial vai para segundo turno (mais detalhes em “Quem move a bolsa é Dilma”, publicado segunda-feira neste blog).

Em democracia não há como impedir o direito de opinião. E no caso das análises de bancos e consultorias, cercear um exercício profisssional.

A atividade econômica,

um prato que ainda se come frio

Na entrevista da Globo a presidente Dilma Rousseff, contestando dados da economia apresentados pelos jornalistas, citou indicadores antecedentes como sinais de que a ativida no país está em fase de recuperação.

Os números existentes ainda não permitem a definição de uma tendência. E as expectativas continuam para baixo, em sua maioria:

(1) Segundo reportagem do “Globo” no mês passado foram criados apenas cerca de 10 mil empregos formais, com carteira assinada no Brasil. Em junho foram criados 25 mil e um ano antes 41,5 mil. Já 12 analistas ouvidos pelo “Valor” prevêem um crescimento médio de 6,1 mil contratações, num intervalo que vai de menos 55 mil empregos à geração líquida positiva de 33 mil vagas. De acordo com especialistas, o mercado está fraco por causa da indústria, especialmente a automobilística, da construção civil e, agora, também, dos serviços. Uma parte pelo efeito Copa do Mundo. São previsões para o Caged, que o Ministério do Trabalho, em princípio, deve divulgar amanhã. A tendência, analisando-se o a evolução desses dados é de uma redução do quadro de funcionários das empresas (“Valor”).

(2) Dados divulgados pelo IBGE ontem indicam que, mesmo o setor de serviços, que alguns especialistas esperavam ser beneficiado pelo efeito da Copa do Mundo, não escapou de um desempenho pior em junho, registrando seu pior movimento em todas as bases de comparação da Pequisa Mensal de Serviços (PMS). O setor cresceu 5,7% em junho ante igual mês do ano passado. Com o resultado no mês, o setor acumulou alta de 7,4% no primeiro semestre e de 8% em 12 meses até junho. Estas também foram as taxas mais baixas desde o início da série histórica. Além disso, o setor de serviços teve o pior trimestre no período abril-junho desde o início da série histórica da PMS, com a alta de 6,2%. A taxa é inferior à do primeiro trimestre, quando o setor teve crescimento de 8,7%.

(3) Para a equipe econômica do Itaú a atividade ficou paralisada no primeiro semestre, com possibilidade de dois recuos seguidos do PIB trimestral. Nas estimativas do Itaú, o PIB encolheu 0,4% de abril a junho sobre os três meses anteriores, feitos os ajustes sazonais. De acordo com o economista-chefe do banco, Ilan Goldfajn, a alta de 0,2% do PIB de janeiro a março pode se transformar em uma queda de 0,1%. Mesmo assim, ele evitou qualificar esse comportamento como recessão técnica. “Achamos que o segundo trimestre foi negativo e existe uma boa chance de que o primeiro seja revisto de positivo para pouco negativo, mas dada a margem de erro, pensarmos que a economia está estagnada é uma visão que eu acho correta”.

(4) Sem sinais de que a situação econômica está melhorando no terceiro trimestre, a CNI está dando o ano de 2014 como perdido. Segundo o presidente da entidade, Robson Andrade, que preside a mineira Orteng, o setor industrial deve crescer, no máximo, 0,8% em 2014. Para o ano que vem, a CNI projeta um avanço de 1,5% a 2% da indústria nacional. “Estamos vivendo um dos piores momentos da história da indústria brasileira. Sou empresário há 37 anos, mas não me lembro de ter passado período tão difícil como o deste ano e do ano passado” – disse. A CNI previa, inicialmente, uma alta de cerca de 3% este ano.

(5) O Indicador Antecedente Composto da Economia (IACE) para o Brasil, divulgado pela FGV/IBRE e pelo The Conference Board, avançou 0,8% em julho, atingindo a marca de 120,3 pontos (2004=100). O resultado segue-se a recuos sucessivos de 1,7% em junho e de 1,7% em maio. Cinco dos oito componentes contribuíram positivamente para o Índice de julho.

Para Paulo Picchetti, economista da FGV/IBRE, “os avanços de julho, tanto no IACE quanto no ICCE, são notáveis dados os seis meses de quedas consecutivas. No entanto, ainda é muito cedo para sugerir uma aceleração da atividade econômica. O resultado de julho foi acompanhado pela desaceleração dos preços que, por sua vez, ajudou a melhorar as expectativas sobre o futuro da política monetária. Os Índices de Expectativas do Consumidor e do Setor de Serviços também avançaram”. 

Jing Sima, do The Conference Board, “o avanço de julho no IACE para o Brasil foi impulsionado, principalmente, pela melhoria das exportações, pelo Setor de Serviços, e pelos preços das ações. No entanto, a demanda doméstica continua lenta e os indicadores de produção diminuem constantemente. Apesar da melhora de julho, a evolução do IACE continua sugerindo que a economia brasileira não deve ganhar muita força nos próximos meses.”

O Indicador Coincidente Composto da Economia (ICCE) do Brasil, também elaborado pela FGV/IBRE e pelo The Conference Board, que mede as condições econômicas atuais, avançou 0,6% em julho, registrando a marca de 127,6 pontos (2004=100). O resultado segue-se a recuos sucessivos de 0,5% em junho e 0,5% em maio. Quatro dos seis componentes contribuíram positivamente para o índice de julho.

Outros destaques

dos jornais do dia

– CUSTO BRASIL – Reportagem da “Folha” mostra a perda de competitividade da economia brasileira através de números levantados pela consultoria BGC. Hoje, o custo de produzir no Brasil é 23% maior do que nos Estados Unidos. Em 2004, era 3% inferior. A pesquisa comparou os custos de produção dos 25 principais países exportadores do mundo. Além dos EUA, o custo de produção no Brasil ultrapassa, significativamente, o de outros países emergentes, como China, Índia, México e Rússia. O Brasil perdeu competitividade em todos os quesitos analisados – salários na indústria, produtividade do trabalho, custo de energia e taxa de câmbio. Com isso, o custo de produção da indústria no país aumentou 26% em relação ao dos EUA entre 2004 e 2014, por exemplo.

– FUNDOS DE PREVIDÊNCIA DE ESTATAIS – Informa o “Estadão” que três associações de funcionários dos Correios vão pedir à Previc internvenção no Postalis para afastar os dirigentes da entidade indicados por políticos e partidos, PT e PMDB. Segundo os funcionários, a diretoria fez investimentos temerários e operações suspeitas que explicariam o rombo de R$ 2,2 bilhões acumulados entre 2012 e 2014. Em outros fundos de estatal já apareceram reações contra o “aparelhamento” de suas direções. Recentemente, na Previ (do Banco do Brasil) funcionários e aposentados derrotaram dois candidatos indicados pelo governo e sindicatos para o conselho da entidade. A situação dos fundos de pensão é desafio para o próximo governo. Alguns foram claramente usados como auxiliares da política econômica.

– SAÚDE – Um estudo divulgado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) mostra que 93% dos eleitores brasileiros consideram o serviço de saúde do país, tanto público quanto privado, como péssimo, ruim ou regular. Entre os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa de insatisfação é de 87%. A pesquisa foi feita em junho pelo instituto Datafolha a pedido do CFM. Ao todo, foram entrevistadas 2.418 pessoas maiores de 16 anos e moradoras de regiões de todo o país. Segundo o levantamento, 92% dos brasileiros buscaram atendimento no SUS nos últimos dois anos, sendo que 89% conseguiram ser atendidos. Mesmo assim, mais da metade desses entrevistados considera que conseguir um serviço na rede pública de saúde é difícil ou muito difícil, principalmente no caso de cirurgias e procedimentos específicos, como hemodiálise e quimioterapia.

– ENERGIA – Está no “Estadão”: O atraso no cronograma de algumas hidrelétricas já começa a ter impacto na conta de luz dos brasileiros. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a tarifa cobrada pelo uso do sistema de transmissão, que compõe o custo da energia elétrica no Brasil, subiu em média 70% na parcela que cabe aos consumidores. Os residenciais e demais clientes atendidos pelas distribuidoras vão sentir os efeitos do aumento a partir dos reajustes anuais. Os grandes consumidores já começaram a pagar a conta, aprovada em junho. A receita das empresas do sistema de transmissão de energia, que interliga as cinco regiões do País, é bancada pelos geradores e consumidores.

LEITURAS SUGERIDAS

1. Editorial – “Propaganda enganosa” – Folha 

2. Elio Gaspari – “As raízes da força de Dilma” – Folha 

3. Gustavo Patu – “Candidatos falam em mudança, mas sem dizer o que alterar” – Folha 

4. Editorial – “A presidente no sufoco” – Estadão

5. Josias de Sousa – “Horário político tem mistificação, não informação” – blog no Uol 

6. Reportagem – “Duas visões: qual será o projeto de Marina para o Brasil” – BBC 

7. Rosângela Bittar – “O engano das aparências” – Valor

8. Editorial – “Eleição se aproxima da margem de manobra” – Globo