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O homem-bomba Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás preso na Operação Lava-Jato, com sua delação premiada soltou um torpedo capaz da abalar as estruturas políticas nacionais em níveis parecidos com os do impeachment de Fernando Collor ou da revelação do mensalão.
O efeito pode ser devastador se apenas parte do revelado por Costa for provado, para muito além da influência pontual na eleição presidencial.
Inicialmente, estamos diante do vazamento de alguns nomes que estariam envolvidos num fabuloso esquema e corrupção na Petrobrás, com ramificações no mundo político. O comprometimento desses nomes, ainda precisará ser comprovado, porém já causa quase um furacão eleitoral.
O que aconteceu nos últimos anos na empresa, como nos casos da compra da Refinaria de Pasadena e na construção da Refinaria Abreu e Lima, não precisa mais de comprovação. A dúvida agora é quanto à dimensão do escândalo e à descoberta e punição dos responsáveis.
Obrigações republicanas que o Ministério Público, a Polícia Federal e o Tribunal de Constas da União estão cumprindo, porém o Congresso Nacional e Executivo, nem tanto.
O Congresso está com duas CPIs para investigar a estatal e tudo que fez foi fugir das investigações, pressionado pelo governo e assustado com seus próprios fantasmas. Como vai agir diante do novo quadro? A esta altura, com o “desgosto” brasileiro pelos políticos, é mais um ponto a ameaçar a reeleição de boa parte dos parlamentares. A “antipolítica” vai recrudescer e pode ser um ponto para Marina.
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Turbilhão eleitoral
O governo, além de tentar “blindar” a empresa a cada denúncia que surgia, deixou para a Petrobrás a responsabilidade de investigações internas que até agora não chegaram a nenhuma conclusão. Nem delas se fala. É outro que não terá como fugir agora de alguma ação.
Dilma, para ganhar tempo, escuda-se na espera de “provas”. Pode ser atropelada pelo turbilhão eleitoral.
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A confirmação ou não do envolvimento dos nomes vazados – e de outros, pois as primeiras informações falavam em mais de 50 parlamentares – deverá vir em algum momento. A delação premiada só beneficiará o ex-diretor Paulo Roberto Costa se ele contar a “verdade” e ela puder ser comprovada por provas por ele apresentadas ou que possam ser levantadas a partir de suas indicações. O STF decide.
Mas os estragos políticos já estão no ar, porque o que veio à luz agora é a comprovação da apropriação político-partidária da Petrobrás nos últimos anos, empresa dividida entre o PT e alguns partidos amigos.
Isto explica porque, como pode ser lido desde o torpedo de sexta-feira, o governo bate cabeça para tentar se livrar da bomba. As revelações apenas colocaram o assunto na ordem eleitoral.
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Não se trata no caso, como alega a presidente Dilma, de não ter aparecido nenhum nome no governo. A Petrobrás é uma empresa estatal, ponto. Não se cogita a responsabilidade individual da presidente, seu envolvimento no está em pauta, porém trata-se de uma questão institucional, ou seja, de responsabilidade do governo. E não surgiu ontem.
Encontros com Lula
O efeito que isso terá sobre as eleições ainda é um ponto em aberto. Depende muito de como irá repercutir daqui para frente, de seus desdobramentos. É inegável, porém, que algum reflexo terá e quem, obviamente, perde mais a candidatura da presidente Dilma Rousseff.
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Tanto que já se prepara uma reformulação em seu entorno. Informa o jornal “O Globo” que a presidente determinou ontem a troca do comando de sua campanha, a coordenadoria-geral: sai Rui Falcão, presidente nacional do PT, e entra Miguel Rosseto, ministro do Desenvolvimento Agrário em férias para colaborar no plano de reeleição.
Rosseto é ligado a Dilma desde os tempos do Rio Grande do Sul e foi por ela colocado numa subsidiária da Petrobrás quando saiu do governo Lula até voltar ao ministério. É de uma corrente no PT distinta da de Rui Falcão e de Lula.
Por falar no ex-presidente, estranhava-se em Brasília o silêncio dele desde sexta-feira. O delator teria relatado em seus depoimentos diversos encontros com Lula.
Desde que a história da pouco explicada compra da refinaria de Pasadena veio à tona meses atrás, há um certo estranhamento entre as posições da presidente Dilma Rousseff e sua turma de um lado e as do presidente Lula e de seu grupo de outro.
O negócio foi feito durante a gestão Lula. Dilma na época presidia o Conselho de Administração da Petrobrás e quando se revelou que ela havia aprovado a compra nos Estados Unidos, soltou uma nota dizendo que tinha se baseado em informações incompletas.
A nota de Dilma irritou Lula e foi interpretada como um modo da presidente se livrar da responsabilidade. Há outra tentativa agora?
Palavrão na campanha
Mesmo que o governo consiga “abafar” as repercussões políticas do depoimento vazado de Paulo Roberto Costa, algum estrago na estratégia eleitoral da presidente já está contado.
Nos últimos dias sua campanha já estava usando a Petrobrás para “demonizar” a candidatura de Marina Silva, acusando-a de ser contra o pré-sal e, como disse na sexta-feira antes de saber das notícias Rui Falcão, de pretender privatizar a estatal.
Novamente o feitiço que já foi usado também contra os tucanos, volta a assombrar o PT. Pelo menos enquanto não ficar tudo esclarecido, Petrobrás será um “palavrão” na campanha de Dilma. Auxiliares da presidente e líderes do PT admitem que a campanha da reeleição ficou outra vez na defensiva.
O tema corrupção, pelo menos nos próximos dias reocupará o centro dos debates. Falcão sentiu isto ao dizer que Aécio Neves baixou o nível ao classificar de “mensalão 2” o escândalo da Petrobrás. Para Marina Silva há sim um certo constrangimento com a citação do nome de Eduardo Campos.
No PT, no limite, estuda-se a possibilidade de explorar esta situação. Mas a ambientalista parece ter uma certa “imunidade”, o efeito seria mínimo no seu caso, apenas marginal.
Já Aécio, em princípio, poderia ser o mais beneficiado. É, talvez, seu último suspiro.
A pesquisa que o DataFolha vai divulgar amanhã já deverá dar alguma indicação das consequências das revelações de Paulo Roberto Costa. Porém, pelo barulho que já se viu, a eleição está recomeçando pela segunda vez.
Marina e os
desafios da economia
As críticas dos adversários e de alguns analistas de que as propostas de Marina Silva para a área social levariam a gastos elevados, que o Orçamento da União não suportaria, (e poderia indicar a intenção de aumentar impostos), levou a direção da campanha da ex-ministra do Meio Ambiente, a buscar ajustes e explicações mais claras para suas idéias nesse campo (assim como em outros já está acontecendo), para evitar prejuízos.
Aécio e Dilma já estavam explorando este tema.
A explicação está numa longa entrevista do principal porta-voz econômico da candidata (embora ele se diga só consultor), Eduardo Gianneti, ao “Valor Econômico”: segundo o economista, os programas serão aplicados quando a conta fiscal permitir. Ou seja, primeiro o ajuste, depois os gastos.
Deu armas ao adversário. Óbvio que Dilma vai continuar explorando esse assunto, com a acusação de que o programa de Marina é recessivo. O fato é que as duas campanhas, no momento, visam públicos diferentes: Dilma não quer perder seu público nas classes C e D. Marina acena para o meio empresarial.
Entre outras coisas, na entrevista Gianneti revelou que a opção para o ajuste será pelo caminho mais duro porque permite uma volta mais rápida do crescimento. Ele não vê como inevitável o aumento dos juros. Fala ainda de uma “operação desmame” para a indústria, o que, numa leitura livre, implica menos benefícios fiscais setoriais. A isto Dilma deve contrapor uma “nova política” industrial a ser anunciada nos próximos dias.
A presidente acomoda
a economia com Mantega
Diante das reações negativas à “demissão” do Ministro da Fazenda na semana passada, a presidente Dilma Rousseff tenta acomodar as coisas. A entrevista dela dizendo que “governo novo, equipe nova”, dita para acalmar o mercado e os empresários que não morrem de amores por Guido Mantega, acabou causando mais confusão que efeitos positivos.
Na condição de “ex-ministro no exercício interino do cargo”, Mantega teria perdido todo seu poder de interlocução com os agentes econômicos privados, que não já era lá essas coisas. A confiança na condução da economia se esgarçava de vez.
Dilma não pensou nessa conseqüência de seu dito eleitoral. Os adversários exploraram. Mantega, sempre cordato, não escondeu sua decepção. Foi falta de respeito. Além disso, a declaração surtiu poucos efeitos: não é segredo para ninguém que Dilma controla a política econômica com mão de ferro – a ministra, de fato, é ela.
Agora ela corre para se corrigir. Ontem, chamou o ministro para almoçar com ela no Alvorada, para demonstrar prestígio e acalmá-lo. E deu uma declaração curiosa no mínimo curiosa para sua declaração anterior: “Um governo novo fará uma equipe nova. As pessoas que vão compor esse governo podem vir da equipe anterior, mas é uma equipe nova”.
Dilma continua sem seguir o conselho de Lula: dizer claramente o que vai fazer no segundo mandato. A discordância com os agentes econômicos não é em razão de nomes apenas – é com as políticas.
Outras notícias
dos jornais do dia
– CONTAS PÚBLICAS – Na Folha (sábado): com o caixa pressionado por dívida, impossibilidade de reajustar combustíveis e vultosos investimentos, a Petrobrás conseguiu espaço para fazer o maior pagamento a acionistas para primeiros semestres desde 2008, ao antecipar todo o desembolso previsto para o ano, ajudando mais o Tesouro na formação do superávit primário (economia para pagamento de juros da dívida pública). A empresa pagou, no primeiro semestre de 2014, R$ 8,73 bilhões em dividendos e JCP (juros sobre capital próprio), 84% do lucro de R$ 10,4 bilhões no período, mostra levantamento da Economática. Em 2012 todo, pagou R$ 6,2 bilhões, 29% do lucro anual de R$ 21,2 bilhões. Em 2013, pagou R$ 5,8 bilhões, 25% do lucro de R$ 23,6 bilhões.
. Informa o Estadão (sábado) que a esperança do governo para atingir sua meta de superávit primário este ano (1,9%) ficou ainda mais comprometida com a frustração da arrecadação do novo Refis: a expectativa era receber R$ 13 bilhões na primeira fase, encerrada em agosto, mas entraram nos cofres do Tesouro apenas entre R$ 7 bi e R$ 9 bi. Há uma nova etapa em novembro. A previsão total é de R$ 18 bi.
. Já o “Globo” (domingo) diz que representantes do Tesouro Nacional sondaram membros do Conselho Deliberativo do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) sobre a possibilidade de uso de uma reserva tem aplicado no mercado financeiro, equivalente ao pagamento do seguro desemprego por seis meses. Esses recursos somam hoje R$ 20 bilhões e ajudariam a fechar as contas deste ano.
. No Valor: tradicionalmente mais favorável para a arrecadação da maior parte dos Estados, devido às vendas de fim de ano, o segundo semestre é visto com mais pessimismo este ano pelas Fazendas estaduais. Como a prioridade dos Estados é manter investimentos, a contribuição desses governos para o resultado primário consolidado deve ser menor. Além do baixo crescimento, a arrecadação dos Estados é afetada pela queda de importações ou pela política de contenção de tarifas.
. Ainda no “Valor”: o Tribunal de Contas da União (TCU) instaurou um processo para investigar as chamadas “pedaladas fiscais” nos repasses do Tesouro Nacional aos bancos federais. A representação enviada há duas semanas pelo procurador do Ministério Público junto ao TCU, Júlio Marcelo de Oliveira, foi transformada em processo. A partir de agora, a unidade técnica do tribunal vai avaliar a situação e solicitar esclarecimentos ao Banco Central, ao Tesouro Nacional, ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal. O relatório final será encaminhado ao ministro José Múcio Monteiro, que ficará responsável por levá-lo à apreciação do plenário da corte.
– ENERGIA ELÉTRICA – Informa o “Globo”: um rombo bilionário tomou conta das principais hidrelétricas que estão em operação no país. Entre janeiro e setembro deste ano, consórcios e empresas que controlam essas usinas terão de bancar uma conta extra de R$ 16,1 bilhões, dinheiro que será usado para comprar energia de usinas térmicas e, dessa forma, garantir o volume de abastecimento que as hidrelétricas tinham se comprometido a entregar, mas não conseguiram cumprir. No primeiro semestre deste ano, essas empresas já desembolsaram R$ 6,5 bilhões. Entre julho e setembro, no entanto, a conta simplesmente explodiu e, até o fim deste mês, será ampliada em mais R$ 9,6 bilhões. A origem desse abismo, que começa a abalar seriamente a saúde financeira de muitas geradoras, está na situação hidrológica atravessada pelo país.
LEITURAS SUGERIDAS
Fim de semana
1. Juan Arias – “Os eleitores brasileiros já não acreditam em coisas impossíveis” – El Pais
2. André Lara Resende – “Riqueza, crescimento e desigualdade” – Valor
3. Cláudio Couto – “Política negativa” – Estadão
4. Mauro Paulino e Alessandro Zanoni – “Marina reúne eleitores de espectros diferentes” – Folha
5. José Casado – “Governo e PT perdem bússola da campanha” – Globo
6. Editorial – “As coisa podem não ser o que parecem” – Estadão Segunda 1. José Roberto de Toledo – “Marina e a terceira onda” – Estadão
2. Ricardo Noblat – “Um mar de lama ameaça a Petrobrás” – Globo
3. Fabio Giambiagi – “A vida e o nosso tempo” – Globo
4. Renato Janine Ribeiro – “O valor dos consensos” – Valor