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SÃO PAULO – “A ‘Disney’ de poder se basear na curva de juros está acabando para os fundos de pensão brasileiros”. Com essa frase, Carlos Garcia, da Itajubá Investimentos, deu início às discussões sobre fundos de pensão no último dia do Brasil Investment Summit.
A afirmação estabeleceu o tom para o restante das palestras, que se focaram nas opções de diversificação dos portfólios desse tipo de fundo, em um cenário de declínio da taxa básica de juro – já que, mesmo com o a elevação da Selic na última quarta-feira (28), os gestores veem a continuidade da tendência de queda da taxa no longo prazo.
Perfil conservador
Atualmente, 60% dos investimentos dos fundos de pensão são em títulos públicos federais – sem considerar os três maiores fundos – Previ, do Banco do Brasil (BBAS3), Petros, da Petrobras (PETR3, PETR4) e Funcef, da Caixa Econômica Federal – , o número ultrapassa 70%. “Os fundos de pensão brasileiros são muito conservadores, e precisam se adaptar”, afirmou Garcia.
José de Souza Mendonça, presidente da Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Privada), justificou a “acomodação” dos fundos de pensão brasileiros mostrando a rentabilidade acumulada do segmento entre 1995 e 2009 – 1341%. No mesmo período, o benchmark para o setor (INPC + 6%) avançou 621%. “É um número excelente, especialmente considerando o risco baixíssimo”, ressaltou. Nos últimos 8 anos, apenas em 2002, 2008 e 2009 a renda fixa não rendeu mais do que a meta atuarial.
Segundo Melvin Escudero, da Insurance and Pension Fund Superintendency do Peru, apenas 4% dos investimentos dos fundos de pensão do País são estrangeiros. “É preciso mudar isso para potencializar o portfólio e trazer mais flexibilidade de investimento”, explicou, destacando que as reformas legislativas também devem ajudar na criação de um sistema multifundos – ou seja, fundos de pensão para diferentes perfis de investimento, com diferentes (mas manejáveis) níveis de risco. “A indústria é nova no Brasil, e deve crescer entre 10% e 25% nos próximos anos”, disse.
O dilema do gestor
No mesmo evento, o diretor do fundo de pensão de Itaipu, o FIBRA, Silvio Rangel Silveira, apresentou os principais dilemas dos gestores no panorama atual – marcado pela queda dos juros. “Essa queda traz duas opções aos gestores: reduzir a meta atuarial para que ela fique abaixo da taxa livre de risco, que implica em elevar os custos e diminuir os benefícios dos participantes, ou manter a meta, que significa correr mais riscos, sem mexer nos benefícios ou custos”, explicou.
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Para ele, o principal dilema é o equilíbrio da gestão de riscos com a gestão de custos. “A tendência é o aumento do risco, para não elevar os custos para os participantes”, disse, apontando que isso significa, além de uma diversificação maior dos investimentos, uma maior terceirização dos serviços de gestão, atualmente feita pelos próprios fundos.
“O desafio é reduzir o tamanho e volatilidade das partes do portfólio que geram retornos”, afirmou Manuel Carvallo, da Watson Wyatt Investment Consulting.
Alternativas
“Sempre discutimos as partes do portfólio, mas não pensamos nele como um todo. E isso está mudando agora”, afirmou Roberto Gremle, da Petros, iniciando a discussão sobre a procura de alpha pelos gestores dos fundos de pensão.
Gremle disse que o fundo de pensão da Petrobras recomeçou recentemente a investir em private equity. “Sempre olhamos, e temos aumentado essas aplicações”, explicou, ressaltando que 90% desses investimentos em private equity são em energia, infraestrutura, petróleo e gás – todos setores que oferecem retornos de longo prazo, se encaixando no perfil dos fundos de pensão.
O gestor da Petros também afirmou que as aplicações estão sendo reformuladas, já que o orçamento de risco era muito baixo. “Estamos pensando em aumentar a parcela em renda variável, e tentando transformar essa coisa muito conservadora em um hedge fund mais normal, mais agressivo”, disse Gremler.
Já segundo Fábio Moser, da Previ, o fundo de pensão do BB atualmente aplica 1% de seu portfólio em investimentos alternativos – o que pode parecer pouco, mas é preciso considerar que a Previ gerencia ativos de R$ 142,4 bilhões. “Queremos entender melhor os investimentos alternativos, que são importantes para a nossa diversificação. Esperamos que eles componham 3% do portfólio até 2014”, explicou.
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Demosthenes Marques, diretor de finanças da Funcef, afirmou que o fundo já fez uma considerável diversificação do seu portfólio, antecipando a tendência de queda da Selic. “Em 2004, metade do nosso portfólio era na renda fixa. Hoje, são só 12% em títulos públicos de liquidez diária”, apontou.
Marques ressaltou a preferência do fundo por investimentos com foco em inflação e estratégia de crescimento – que compõe 44% das aplicações. “também vemos uma rentabilidade interessante em imóveis”, disse. Em relação a operações em private equity, que compõem 8% do portfólio da Funcef atualmente, Marques afirma que o fundo está em uma “boa posição, pois fomos nos expondo ao risco junto com a diversificação”.
Assim como a Petros e a Funcef, a Fachesf já mexe com private equity há algum tempo. “Temos 3% do patrimônio líquido em investimentos comprometidos”, explicou Luiz da Penha, gerente de investimentos da Fachesf. O fundo de pensão Fapes-BNDES também tem “experiência antiga e muito boa” com private equity, segundo o diretor de investimentos da instituição, Estevão Acciolly. De acordo com Acciolly, 4% dos investimentos do fundo são feitos em private equity, e são estudadas aplicações em infraestrutura.
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Além de infraestrutura e imóveis, investimentos em energias renováveis – em especial energia eólica – também aparecem nos portfólios dos fundos de pensão, ou estão sendo estudados, de acordo com os gestores. “Para nós, essas aplicações fazem todo o sentido”, destacou Moser.
O mercado de ativos securitizados, por sua vez, já nem é mais considerado por alguns como investimento alternativo. “Já faz parte da nossa carteira de renda fixa, e traz uma boa diversificação em renda fixa. Planejamos manter ou elevar nosso volume”, afirmou Marques.
Já Acciolly se mostrou mais cauteloso. “O que aconteceu com esses ativos durante a crise nos assustou um pouco, mas temos simpatia por eles. As estruturas parecem seguras, mas o spread em relação aos títulos públicos está se reduzindo – aí não compensa”, explicou.
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Outras mudanças
Os fundos multimercados também estão despontando como alternativa no esforço dos fundos de pensão em diversificar os investimentos. “Fizemos uma pesquisa de alocações com diversos cenários, e vimos que os fundos multimercados agregam muito em retornos, independente da taxa de juro”, afirmou Penha.
Marques, por sua vez, destacou que o objetivo não é só elevar a rentabilidade dos fundos, mas também diminuir a volatilidade da carteira. “As alocações são muito correlacionadas”, explicou. “Em momentos de crise sistêmica, como vimos em 2008, os hedge funds são uma alternativa que precisamos olhar melhor”.
Ainda sobre os hedge funds, os gestores afirmaram não terem extenso conhecimento sobre a opção quantitativa desse segmento, que se mostrou bastante capaz de gerar alpha durante a crise. “Deve acabar acontecendo, mas não temos acesso a essas análises ainda”, disse Gremler.
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Ainda segundo o gestor da Petros, a crise não desencadeou fortes mudanças no gerenciamento de risco dos fundos de pensão no País – já que a tomada de risco já era mínima. “Foi uma boa oportunidade de aprendizado”, explicou, lembrando que os retornos durante a crise, apesar de menores do que o usual, foram positivos. “Nesse caso, ser conservador se mostrou ser uma excelente idéia”, complementou Gremle.
Legislação: dois gumes
Vale mencionar que a maioria dos palestrantes do dia ressaltou a forte legislação brasileira sobre os fundos de pensão – que, apesar de ser positiva para garantir uma regulamentação eficiente dos investimentos, também limita os instrumentos disponíveis para os gestores.
A lei estabelece, por exemplo, que apenas 10% do patrimônio dos fundos pode ser investido no exterior – no Chile, são 60%. Já o limite de ações é de 70% e 80%, respectivamente. Os fundos de pensão brasileiros podem aplicar 8% em imóveis, 20% em investimentos estruturados e até 15% em operações com participantes – regras consideradas “prudenciais”.
Além disso, a legislação também responsabiliza os gestores – no âmbito penal, civil e administrativo. “Isso também pesa na hora de optar ou não por investir no exterior. Se já é complicado organizar e supervisionar todos os gestores de fundos que temos localmente, como vamos fazer isso com gestores de fundo externos? Como a responsabilidade recai sobre o diretor do fundo, a prestação de contas desses investimentos estrangeiros acaba sendo um grande obstáculo”, explicou Marques. “Você pode até estar investindo, indiretamente, com um Maddoff. Como você explica isso ao participante do fundo depois?”, completou Gremler.
Os diretores dos fundos de pensão apontaram ainda questões cambiais como barreiras ao investimento no exterior, e ressaltaram que a enorme quantidade de opções acaba atrapalhando o processo. “A questão dos investimentos estrangeiros é uma discussão em grupo – não serão muitos fundos que irão investir, então teremos que nos juntar e ver qual o melhor caminho”, concluiu Gremler.