Presidente da Aberdeen critica exageros do ESG: “Dissemos que íamos salvar o mundo”

Sir Douglas Flint diz que setor financeiro cometeu erro estratégico ao transformar a pauta ambiental em peça de marketing e expor gestores a riscos legais

Marina Verenicz

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O presidente cessante da gestora de ativos britânica Aberdeen, Sir Douglas Flint, afirmou nesta semana que o setor de investimentos cometeu um “erro monumental” ao exagerar o papel das finanças em causas ambientais, sociais e de governança (ESG), o que acabou por expor empresas a riscos jurídicos, especialmente nos Estados Unidos.

A declaração foi feita durante conferência na City de Londres, epicentro financeiro do Reino Unido. Segundo Flint, muitos gestores assumiram um discurso “ridiculamente extravagante” sobre o impacto transformador de seus investimentos no planeta — discurso que ele classificou como impulsionado mais por estratégias de marketing do que por fundamentos reais.

“Nossa indústria virou uma questão de marketing: vamos dizer a todos que estamos salvando o mundo, salvando o planeta. Isso foi um banquete para os advogados norte-americanos”, criticou o executivo, que também foi presidente do HSBC.

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Da promessa à litigância

A crítica vem em meio ao aumento das ações judiciais contra grandes gestoras de ativos por parte de procuradores estaduais republicanos nos EUA. A BlackRock, por exemplo, tenta se defender de um processo movido pelo Texas e outros estados conservadores que acusam a empresa de conluio para excluir o setor de combustíveis fósseis dos portfólios de investimento.

Desde a ascensão do discurso anti-ESG na política americana, especialmente com a eleição do ex-presidente Donald Trump, gestoras como BlackRock e Vanguard abandonaram iniciativas voluntárias como a Net Zero Asset Managers, da qual a própria Aberdeen era signatária.

O grupo foi criado em 2020 com o objetivo de zerar emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050 — mas suspendeu as atividades em janeiro de 2025, uma semana antes da posse de Trump para seu segundo mandato.

Recuo na retórica

Flint celebrou o que chamou de “eliminação de siglas” como ESG, diversidade e inclusão, por estarem associadas a ações judiciais nos EUA: “Elas estão em todos os mecanismos de busca de advogados de contencioso norte-americanos”.

Apesar das críticas, fundos de pensão e investidores institucionais com horizonte de longo prazo seguem pressionando gestores por maior atenção aos riscos financeiros gerados por eventos climáticos extremos.

A Aberdeen continua declarando em seu site que está “comprometida em ajudar a combater as mudanças climáticas” em nome de seus clientes e acionistas. Flint, no entanto, defende um novo enquadramento das questões ambientais, com foco nos impactos financeiros objetivos e não em narrativas de transformação moral.

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“Tentamos escolher as empresas que estão dando os passos mais eficazes em direção à transição nos portfólios que gerimos. Mas são os nossos clientes que determinam as áreas e o ritmo que seguimos.”