Preservação: edifícios históricos viram hotéis e supermercados

Nem sempre o antigo vira museu. Veja exemplos de conservação do patrimônio histórico ligados a investimentos de capital privado

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SÃO PAULO – A preservação do patrimônio arquitetônico no Brasil sempre esbarrou num grande problema: dinheiro. Atrair investimentos para a conservação dos edifícios é o maior desafio enfrentado pelos proprietários de imóveis antigos. Sem recursos, os edifícios caem no abandono e, em muitos casos, permanecem desabitados. Nos últimos anos, surgiu a tendência de transformar construções históricas em museus. Mas esta nem sempre é a melhor forma para se conservar o patrimônio histórico.

Dois exemplos que associam preservação à utilização econômica de construções antigas no País merecem destaque. O primeiro deles é a estratégia do grupo hoteleiro português Pestana, presente no segmento de alto luxo, de transformar o Convento do Carmo, em Salvador, numa pousada exclusiva. Outro exemplo está relacionado ao Grupo Pão de Açúcar, que vem adaptando fábricas desativadas para abrigar supermercados modernos. E com todo o charme das antigas instalações industriais, com suas torres e fachadas em tijolo aparente.

Hospedagem histórica

Em Salvador, um edifício construído em 1586 está em obras. Até o final do ano, o Convento do Carmo, no centro da capital baiana, deverá abrigar uma pousada de luxo voltada para um público seleto. Em parceria com a Santa Bárbara Empreendimentos, o grupo hoteleiro português Pestana decidiu ampliar seus negócios no País e investir R$ 20 milhões no Convento, localizado próximo ao Pelourinho. As diárias não devem custar menos de R$ 450.

Recentemente o grupo Pestana adquiriu a estatal Pousadas de Portugal, uma rede de pequenos hotéis de altíssimo luxo no país ibérico. Solares, castelos, conventos, mosteiros e dezenas de outros edifícios históricos transformados em pousadas cinco estrelas. Todos com poucos quartos, decoração exclusiva, boa gastronomia e muito charme. E custam uma pequena fortuna. Mas para quem pode se hospedar num castelo do século XII, com o conforto de instalações modernas, o dinheiro não é uma questão.

Adaptar o Convento do Carmo numa pousada exclusiva segue a estratégia internacional do grupo, que reúne alguns dos melhores hotéis-boutique do mundo, associados à rede The Leading Hotels of The World. No Brasil, apenas cinco hotéis fazem parte da associação: o Copacabana Palace, no Rio; o Casa Grande Hotel, no Guarujá; e o L´Hotel, o Emiliano e o Fasano, em São Paulo.

Compras com charme

Uma outra estratégia interessante que une preservação do patrimônio histórico a bons investimentos é a aquisição de antigas fábricas pelo Grupo Pão de Açúcar. No segundo semestre de 2004, foi inaugurada uma loja do Hipermercado Extra numa antiga cervejaria no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. O complexo é formado por dois edifícios. O primeiro foi construído entre 1904 e 1914 para abrigar a Hanseática, a primeira cervejaria do Rio. Já o segundo foi erguido na década de 1940, quando as instalações foram ampliadas.

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O Extra ocupa o térreo e o primeiro andar dos edifícios. O arquiteto responsável pelo projeto sugeriu ao Grupo Pão de Açúcar que os andares superiores, impróprios para um supermercado, fossem cedidos à prefeitura do Rio de Janeiro. Foi assim que surgiu o complexo cultural especializado em dança, que ocupa uma área de 3.800 metros quadrados.

Em São Paulo, uma antiga fábrica desativada na Moóca, na zona leste, também foi transformada numa loja do Extra. Em março de 2005, as instalações do antigo Cotonifício Crespi – numa área de 26.300 metros quadrados – deram lugar ao novo Hipermercado Extra do bairro.