Revisão das análises

Preços mais baixos de celulose acendem alerta, mas ainda há oportunidades em ações de Suzano, Klabin e Irani?

Queda na demanda de lenços na China por motivos sazonais e novas usinas levam analistas a ver limite no valor da tonelada das commodities

SÃO PAULO – Além da queda do dólar – que fechou na véspera abaixo dos R$ 5 pela primeira vez em um ano – afetar as ações do setor de papel e celulose, uma vez que são companhias exportadoras, o cenário sobre as commodities também não contribui favoravelmente para a tese de investimentos nas empresas.

As sinalizações de estabilidade nos preços da celulose em junho e provável queda em julho devido à menor demanda chinesa durante o verão mostram que o produto, junto com o papel, deve tomar um caminho oposto ao das demais commodities que, ainda que bastante voláteis (como é o caso do minério) por conta da atuação do gigante asiático para conter a especulações, seguem em patamares bastante surpreendentes.

O primeiro sinal sobre isso veio da empresa chilena Arauco, que ocupa o segundo lugar global na produção de painéis de madeira MDF. A companhia anunciou recentemente que os preços de celulose ficarão estáveis em junho na China e seu pinheiro radiata branqueado fibra longa permanecerá em US$ 980 por tonelada.

E segundo os analistas Carlos De Alba, Eduardo Bordalo e Jens Spiess, do Morgan Stanley, a empresa já sinalizou também que os preços da celulose podem cair ligeiramente em julho por conta de motivos sazonais.

Já o Bank of America destacou que o Conselho de Produtos de Papel & Celulose (PPPC, na sigla em inglês) reportou que os embarques globais de celulose caíram 6,5% em abril na comparação com o mesmo período do ano passado.

“Nós estávamos prevendo um 2021 mais devagar do que foi 2020 (0,5% de aumento no ano), porém as tendências no acumulado do ano estão piores do que os nossos modelos previam”, alertam os analistas do banco americano.

Para eles, conquanto os estoques dos produtores ficaram estáveis nos positivos níveis de 36 dias de oferta no mês de abril, recentemente foi vista alguma erosão nos dados de precificação semanal.

As informações acenderam o sinal de alerta para os analistas que cobrem o setor. Como consequência, diversos relatórios foram escritos traçando perspectivas para as empresas de capital aberto que atuam na produção de papel e celulose.

Em um desses relatórios, os analistas Caio Ribeiro e Gabriel Galvão, do Credit Suisse, dizem que depois de uma alta de 56% e 46% no ano, os preços de hardwood (em uma tradução literal “madeira dura”, ou celulose de fibra curta) e de softwood (em tradução literal madeira macia, ou de fibra longa) atingiram um pico nos US$ 780 e US$ 980 por tonelada respectivamente.

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A fibra curta tem maior capacidade absorvente e é usada normalmente a produtos menos rígidos, como papel para impressão e para escrever e papéis tissue (papel higiênico, lenços faciais, guardanapos, entre outros). A fibra longa é mais resistente e utilizada na fabricação de embalagens.

“Com os produtores de papel na China agora enfrentando problemas de lucratividade (principalmente em produtos tissue) e consequentemente a produção caindo em uma tentativa de reduzir os estoques e prevenir a erosão de preços, nós vemos poucos motivos para as cotações da celulose crescerem nos próximos meses”, avalia a equipe do banco.

O Credit Suisse lembra que as empresas de tissue na China estão operando abaixo de 50% da capacidade e compreendem de 40% a 45% da demanda por celulose no mercado, o que representa um desafio do ponto de vista da demanda.

Do lado da oferta, o quarto trimestre de 2021 trará o início das operações da usina de Bracell, que poderá acrescentar 2,1 milhão de toneladas de fibra curta, e o projeto MAPA, da Arauco. Esse fornecimento adicional, de acordo com os analistas, deve reduzir a taxa de operação para 89% entre 2022 e 2025.

“Acreditamos que a combinação desses fatores deve começar a gerar pressão de preços na celulose durante o terceiro trimestre, movimento que irá se acelerar no quarto trimestre e durará até 2023, com os valores de fibra curta convergindo para o suporte da curva de preços em US$ 550 por tonelada em 2022 e a fibra longa caindo a US$ 720 por tonelada”, escrevem.

Análises divergentes para as empresas do setor

Apesar desse cenário negativo, o Credit Suisse segue com recomendação de compra para duas ações do setor: Suzano (SUZB3) e Irani (RANI3) são as top picks, ou seja, as ações preferidas dos analistas dentro do setor. As duas possuem recomendação outperform (desempenho esperado acima da média do mercado) porque os investidores já teriam precificado em suas cotações um cenário de fibra curta a US$ 500 ou US$ 550 em 2022.

De acordo com Ribeiro e Galvão, é possível enxergar para a Suzano um grande potencial de valorização em uma perspectiva de longo prazo, especialmente se for levado em consideração o projeto Cerrado, que pode adicionar R$ 10,10 por ação em valor presente líquido. No final de maio, o preço-alvo das SUZB3 foi elevado de R$ 86,50 para R$ 92,00, o que corresponde a uma valorização de 57,26% sobre o patamar de fechamento na segunda-feira (21).

Já para a Irani, os analistas veem uma estabilização na demanda de papel para embalagem e aumentos de preços de dois dígitos, o que compensa as pressões dos Recipientes de Papelão Ondulado Antigo (OCC, na sigla em inglês) e preserva o forte impulso de ganhos. O preço-alvo das RANI3 foi elevado de R$ 9,31 para R$ 10,10, o que equivale a uma alta de 8,49% sobre o fechamento de ontem.

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Confira abaixo o compilado de recomendações para as ações de empresas de papel & celulose de acordo com dados compilados pela Refinitiv

EmpresaTickerRecomendações de compraRecomendações neutrasRecomendações de vendaPreço-alvo médioVariação até o preço-alvo
KlabinKLBN111220R$ 34,96+33,69%
SuzanoSUZB3931R$ 87,67+49,86%
IraniRANI3300R$ 9,37+0,64%

A Klabin (KLBN11), por outro lado, tem recomendação neutra no Credit Suisse com preço-alvo inalterado em R$ 31,50, o que representa um upside de 20,46% ante a última cotação da véspera. A disparidade nas perspectivas é atribuída a um valuation mais caro nas units da companhia, uma vez que o múltiplo valor de mercado (Preço) sobre Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) da Klabin é estimado em 8,2 vezes, contra 5,8 vezes no caso da Suzano.

Por outro lado, outras casas de análise veem Klabin mais atrativa frente a Suzano. O Morgan Stanley enxerga um múltiplo Preço/Ebitda de 8,3 vezes para a Klabin e traz um cenário a monitorar com uma possível surpresa positiva e dois possíveis riscos. Do lado benigno, preços de celulose e kraftliner acima do esperado ou um real mais fraco por mais tempo, poderiam melhorar os resultados da Klabin acima do cenário base e apoiar suas ações.

Os riscos, por sua vez, são de fracasso da companhia em entregar projetos adicionais de crescimento e demanda abaixo do esperado pelos produtos da Klabin ou preços menores, que podem resultar em lucratividade reduzida. A recomendação do Morgan para a Klabin é overweight (exposição acima da média do mercado), com preço-alvo de R$ 38 (ou alta de 44,5% frente o último fechamento).

Para a Suzano, o múltiplo estimado Preço/Ebitda é de 6,5 vezes, com possibilidade de valorização caso a demanda chinesa por celulose cresça nos próximos 12 a 18 meses. O risco é de apreciação do real em meio à melhora nas condições políticas do país. A recomendação é equalweight (exposição em linha com a média do mercado), ainda que com preço-alvo de R$ 85 (com um potencial de alta um pouco maior frente Klabin, de 44,8%).

Já o Bank of America rebaixou recentemente a recomendação da Suzano de compra para neutra sob a justificativa de que os “catalisadores para o mercado de celulose se esgotaram, por ora”.

De acordo com os analistas do banco, quando os preços de celulose atingiram seu pico em abril esperava-se por fortes lucros da Suzano, por anúncios relevantes no Investor Day e por novos catalisadores na conferência de mercados emergentes do BofA. Nada disso se concretizou.

“Os lucros foram menores do que se antecipou e os dados da indústria não ofereceram surpresas positivas. As discussões do Investor Day, inclusive a nova posição de custos do projeto Ribas, foram positivas, mas isso acabou descontado porque os catalisadores ESG [governança corporativa, social e ambiental, na sigla em inglês] discutidos permanecem no longo prazo. Por fim, os comentários na conferência do BofA foram consistentes no sentido que a China está estável, porém é improvável que vejamos novos aumentos de preço hoje, uma vez que os mercados de lenços estão em compasso de espera”, escreve a equipe do banco americano.

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Soma-se a isso o efeito cambial, pois o real acabou tendo um desempenho melhor que o esperado.

Por outro lado, o BofA manteve a recomendação de compra para a Klabin por questões de valuation. “É difícil que as ações tenham uma performance melhor que a média do mercado até que a fibra curta aumente de preço, mas considerando o valuation e nossa projeção de um gradual declínio nos valores da celulose, as units devem permanecer estáveis.”

A opinião da equipe do banco é que a tendência doméstica e global para painéis continue muito forte, o que justificaria uma recomendação de compra para as KLBN11.

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