Preços de canetas emagrecedoras podem transformar mercado no Brasil e afetar ações

Estratégia agressiva da EMS com o Ozivy eleva projeção de volumes, mas diminui ticket médio e impõe margens pressionadas para concorrentes como a Hypera

Victória Anhesini

Ativos mencionados na matéria

REUTERS/Hollie Adams/Arquivo
REUTERS/Hollie Adams/Arquivo

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A perda da patente do Ozempic em outubro de 2025 desencadeou uma forte transformação no mercado farmacêutico brasileiro, forçando uma revisão profunda nas projeções de faturamento, volume e rentabilidade para a próxima década.

Em relatório, os analistas do Goldman Sachs detalham que a chegada dos medicamentos similares de marca baseados na semaglutida deve impulsionar o volume de vendas devido ao maior acesso financeiro da população. Porém, essa expansão acelerada deve acontecer sob o preço de uma erosão nas margens de lucro e nos tickets médios das companhias que disputam o segmento.

As estimativas do banco para o mercado formal em 2026 permanecem estáveis em R$ 17,5 bilhões (cerca de US$ 3,4 bilhões) a preços de varejo. O monitoramento de dados apurados pela IQVIA até maio de 2026 registrou vendas acumuladas de R$ 6,5 bilhões, sugerindo que o ritmo mensal recorrente não acelerou tanto em relação ao final de 2025 devido à sazonalidade e concorrência com o mercado paralelo.

Para o segundo semestre, os analistas projetam aumento em unidades, impulsionadas pelo Mounjaro, em decorrência a introdução de seu novo programa de descontos, e também pelo início do Ozivy, que tem meta de produzir 1 milhão de canetas em 2026.

Por outro lado, o banco afirma que o cenário tende a mudar drasticamente para 2027, com um ajuste sobre o crescimento do varejo formal para 32% em termos anuais (abaixo dos +38% previstos anteriormente), projetando um mercado de R$ 23,1 bilhões (aproximadamente US$ 4,4 bilhões). Os analistas esperam que a receita deve ser diluída em um volume de 25,5 milhões de caixas vendidas, com um ticket médio de R$ 900 por unidade.

A virada abrupta nas projeções de preços foi ditada pela agressividade do primeiro player local a explorar a quebra da patente da multinacional Novo Nordisk após a liberação regulatória em março de 2026.

“A EMS está atualmente precificando o Ozivy no varejo em aproximadamente R$ 465 (um desconto de 54% em relação ao Ozempic), além de introduzir promoções agressivas por valores tão baixos quanto R$ 287 por mês durante os três primeiros meses sob o programa de retenção da empresa, Vida Mais Leve”, apontam os analistas do Goldman Sachs.

A precificação agressiva da EMS estendeu a acessibilidade do tratamento para famílias com renda per capita de até R$ 5 mil por mês. O documento do GS toma como base que o gasto médio dos domicílios brasileiros com medicamentos é de 4,8%, o patamar de R$ 450 passa a representar cerca de 4,0% da renda de um lar de classe média. Antes da concorrência, o preço de entrada de R$ 1.000 limitava o mercado a famílias com renda per capita superior a R$ 10 mil mensais.

Os analistas calculam que o barateamento deve tornar o produto viável para o dobro de lares brasileiros, justificando o salto na estimativa de volume para 25,5 milhões de caixas em 2027 (contra as 18,6 milhões previstas no modelo anterior). Além disso, eles ressaltam o impacto sistêmico que essa barreira tarifária pode trazer para os futuros entrantes do mercado de emagrecimento.

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“Essa estratégia de preços do pioneiro inevitavelmente estabelece uma referência para todos os outros medicamentos similares a serem lançados no Brasil, o que deve aumentar materialmente os volumes enquanto pressiona as margens”, ressalta o documento.

Dinâmica esperada

Para refinar o TAM (Mercado endereçável total) de 2027, o banco detalhou as premissas de comportamento para cada um dos principais medicamentos do segmento de GLP-1:

Para a Hypera, cuja recomendação do Goldman Sachs é mantida em neutro com preço-alvo de R$ 25 por ação, o cenário de preços deprimidos deve limitar o potencial de valorização do ativo.

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O modelo de fluxo de caixa, calculado com base em um WACC (Custo médio ponderado de capital) de 11,0% e Ke (Custo do capital próprio) de 16%, aponta que o novo similar adicione cerca de 5,3% nas receitas brutas da empresa em 2027. O cálculo entende a possibilidade da Hypera capturar 8% de participação de mercado nas vendas de semaglutida, o que significaria cerca de R$ 693 milhões adicionais.

O banco ressalta que a operação não traz expansão imediata de margens ou impacto nominal no Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) no curto prazo devido ao modelo de suprimentos e aos fortes investimentos necessários no início.

“Além disso, não esperamos uma expansão de margem vinda do produto, pois a) a empresa importa o produto acabado de parceiros internacionais, o que pode reduzir suas margens versus players que apenas importam o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) e a caneta e fazem a montagem no Brasil, como a EMS; e b) nos primeiros trimestres, a HYPE tem que investir em visitação médica e marketing para construir o reconhecimento de marca, educar a comunidade médica e impulsionar a adoção de prescrições entre os médicos”, esclarece o relatório.

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Enquanto isso, em outro relatório, o Goldman Sachs reafirmou a recomendação de compra para as ações da RD Saúde (RADL3), mesmo após revisar para baixo suas estimativas de lucro.

Segundo os analistas, grande parte das preocupações do mercado já parece refletida no preço das ações. Os papéis acumulam queda de cerca de 25% nos últimos seis meses, enquanto o Ibovespa avançou aproximadamente 5% no mesmo período.

A principal preocupação dos investidores tem sido justamente o efeito da guerra de preços sobre o segmento de GLP-1, que já representa uma parcela relevante das vendas da companhia. O receio é que a queda dos preços não seja integralmente compensada por maiores volumes e ganhos futuros de margem. Apesar disso, o Goldman considera o movimento exagerado. O banco reduziu suas projeções de lucro líquido para RD Saúde em 10% para 2026 e em 13% para 2027, mas manteve visão positiva para o papel.

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A expectativa é que os medicamentos GLP-1 representem cerca de 12,5% das vendas da companhia em 2027, ante 8,2% em 2025. O faturamento da categoria deve atingir R$ 7,4 bilhões em 2027, alta de 24% sobre o ano anterior. O Goldman também projeta que a rede continuará com participação dominante nos medicamentos de referência, como Ozempic e Mounjaro, com cerca de 35% de market share. Já nos similares, a fatia esperada é de aproximadamente 20%, em linha com sua participação no mercado farmacêutico nacional.

Mesmo com a redução do preço-alvo de R$ 28 para R$ 25 por ação, os analistas enxergam potencial de valorização superior a 30% em relação aos níveis atuais e avaliam que a empresa continua sendo uma das histórias de crescimento mais atraentes do setor de consumo e varejo de saúde no Brasil.

O peso do mercado informal

Os analistas do Goldman Sachs afirmam que um dos principais fatores para o avanço das teses de investimento no Brasil é a migração vinda de um mercado paralelo expressivo, avaliado em cerca de R$ 11 bilhões em 2025.

Segundo o documento, a informalidade dos medicamentos se divide entre a aquisição alternativa (canetas importadas ilegalmente e revendidas em redes sociais ou clínicas) e a manipulação farmacêutica em larga escala.

Leia mais: Por que as canetas emagrecedoras viraram o novo fantasma das farmácias na B3?

A regulação da atividade é monitorada de perto pelas autoridades sanitárias. Sob a Nota Técnica ANVISA nº 200/2025, a semaglutida sintética tem manipulação proibida no país, enquanto a tirzepatida é permitida apenas sob rígidos critérios de conformidade. Mesmo assim, os dados da Anvisa apontam que o Brasil importou mais de 130 kg de insumos de tirzepatida em apenas seis meses, o suficiente para produzir 25 milhões de doses manipuladas.

O Goldman Sachs avalia que a queda de preços no mercado formal vai corroer o incentivo financeiro da pirataria e atrair esses usuários para os canais de conformidade, gerando um forte gatilho de alta para o mercado oficial.

“Em uma visão mais otimista, nossa análise de sensibilidade sugere que uma conversão de 40% do mercado informal em 2027 poderia levar nosso mercado formal de GLP-1 em 2027 para mais perto de R$ 30 bilhões”, projeta a instituição.

Se a taxa de conversão e a fiscalização forem ainda mais intensas, a análise de sensibilidade do banco indica que o TAM formal de 2027 pode flutuar dos R$ 23 bilhões originais até a marca de quase R$ 40 bilhões.

Inclusão no SUS

Além de todos os outros aspectos esperados para o mercado de GLP-1, os analistas do Goldman Sachs também mapearam mais duas possibilidades de crescimento, sendo a primeira delas o subsídio governamental, impulsionado pelo alto custo do diabetes para o SUS (Sistema Único de Saúde), que atingiu US$ 45 bilhões em 2024.

A inclusão pública desses medicamentos visa reduzir hospitalizações, com o Ministério da Saúde já conduzindo um projeto piloto no Rio Grande do Sul fornecendo semaglutida para 250 pacientes com obesidade grave na fila da cirurgia bariátrica. O banco prevê que a queda nos preços industriais pode facilitar a incorporação gradual da terapia na rede pública.

A segunda avenida envolve as formulações orais em comprimidos, que devem atrair pacientes avessos a injeções. Nos EUA, o Wegovy oral somou 3 milhões de prescrições em junho de 2026, e o banco estima que as pílulas responderão por 40% das receitas globais de AOM (Medicamentos contra a obesidade, na sigla em inglês) até 2030.

No Brasil, o Wegovy oral aguarda aprovação da Anvisa desde janeiro de 2026, enquanto o orforglipron, desenvolvido pela Eli Lilly, deve estrear no segundo semestre de 2027.