Preço do Minério de ferro se afasta das mínimas em 12 meses, mas segue sem gatilho claro de retomada

Produto não tem fortes triggers de alta no horizonte, com demanda mais fraca na China, mas perspectivas de baixas também são limitadas

Vitor Azevedo

Mineração da Vale em Minas Gerais (Mario Tama/Getty Images)
Mineração da Vale em Minas Gerais (Mario Tama/Getty Images)

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Apesar de voltar a tocar os US$ 100, se afastando das mínimas dos últimos doze meses, o preço do minério de ferro ainda segue sem um claro gatilho de alta, que possa sustentar a retomada de preços como os vistos em meados do ano passado.

“Desde o meio do ano passado até agora, a tonelada do preço do minério de ferro saiu de US$ 220 para cerca de US$ 80. Isso muito por conta da China”, diz Guilherme Nippes, analista da XP Investimentos.

Conforme o analista, primeiramente, houve um problema relacionado às emissões de gás carbônico, ligadas, principalmente, à queima de carvão no país.

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Com o ano novo chinês e as Olimpíadas de Inverno, o governo chinês buscou diminuir os níveis de poluição, e a indústria metalúrgica foi diretamente impactada.

Preços do minério de ferro é impactado por política de Covid Zero

Além disso, pesou também, segundo Nippes, a política de Covid Zero, que fez o país implementar diversos lockdowns em grandes centros urbanos.

Preços do minério de ferro na bolsa de futuros de Dalian operam, atualmente, em movimento de lateralização

bolsa de dalian futuros de minério de ferro
Bolsa de Dalian Futuros de minério de ferro em 12 meses. Fonte: Reprodução Finance Sina

“A política da Covid-19 na China é de zero casos. Mesmo com a vacinação, é uma política complicada. Vai na contramão do mundo em todos os sentidos. Estão parando, com o mundo voltando”, explica o analista da XP.

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“É difícil afirmar se irão relaxar. Até agora não relaxaram tanto. A população não está 100% livre”.

Esses seriam, para Nippes, os principais triggers negativos recentes para o preço do minério de ferro, com a China sendo o principal consumidor mundial da commodity.

A questão é que, para alguns analistas, esses gatilhos de baixas estão perdendo força.

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Eleições na China

Mingming Zhang, analista da Wood Mackenzie, research especializada em commodities, destaca que, entre as possíveis diminuições dos riscos, está, também, a aproximação do Congresso do Partido Comunista, que acontece em outubro – e que pode afastar, ao menos momentaneamente, o risco de lockdowns mais severos, uma vez que essas medidas são impopulares entre a população.

Além disso, a própria eleição, para o especialista, pode reforçar a liberação de estímulos por parte do governo chinês no curto prazo, bem como a Golden Week, que acontece de um a sete de outubro.

“Na China, realmente, houve a queda de preço recente do minério, mas estamos entrando num período de alta sazonal, por conta da construção civil. No terceiro trimestre, esperamos que o preço da tonelada do minério fique, na média, em US$ 109, e que vá para US$ 115 no último trimestre”, complementa Paulo Henrique Azevedo, também analista da Wood Mackenzie.

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“A China tem ainda políticas para incentivar a economia. O país sempre buscou vender casas não para a especulação, mas para moradia, mas agora, com a economia desacelerando mais do que o esperado, eles liberaram que cada família compre até três ou quatro casas, ante duas no passado”, acrescenta.

Apesar de o estoque de minério ter crescido nas últimas oito semanas, o analista destaca que o número total de toneladas nos portos chineses ainda fica aquém do pico de 2022. Além disso, o setor imobiliário do país parece ter, também, deixado a sua pior fase para trás.

Fato é que a demanda chinesa por minério, para a Woodmac, deve se recompor de forma lenta e gradual. Ainda nesta frente, Estados Unidos e Europa, que enfrentam a possibilidade de recessão, também devem pesar negativamente na procura pelo produto.

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Vale e mineradoras

Do outro lado, porém, a produção da commodity em 2022 também foi impactada negativamente. Gigantes como a Vale (VALE3) e as mineradoras australianas diminuíram seus guidances (projeções) de produção para o ano, por conta, principalmente, de entraves climáticos.

A Rússia e a Ucrânia, dois países importantes na produção do minério de ferro, também diminuíram suas exportações, por conta da guerra.

Tudo isso ajudou a manter a dinâmica de oferta e demanda mais estável – e, 2023, no curso natural das coisas, deve seguir o mesmo caminho.

“Para o ano que vem, vemos uma média de US$ 103 para a tonelada do minério, com a normalização de parte na demanda da China mas também parte da oferta provinda da Rússia”, explica Azevedo. “Nós sabemos que a recuperação será mais devagar, de até quatro anos. Mas essa piora na China tende a ser equilibrada pela melhora da demanda em outras regiões – principalmente por conta da Índia e por outras partes da Ásia”, completa Zhang.

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