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SÃO PAULO – Na semana passada, um anúncio histórico fechou um dos capítulos mais obscuros da história chinesa: após 35 anos, o país aboliu a política do filho único. Até semana passada, os casais chineses podiam ter apenas um filho, o que muda a partir de agora, com a possibilidade de poderem ter até dois filhos. O fim da política suscitou muitas comemorações, mas também muitas questões. Afinal, o que muda de fato com o fim da política de filho único na China?
Em relatório, os analistas do Credit Suisse projetaram que este relaxamento no controle de natalidade pode resultar em um aumento de 3 a 6 milhões de bebês anualmente por um período de cinco anos se iniciando em 2017. Atualmente, a China é o país mais populoso do mundo, com cerca de 1,4 bilhão de habitantes, e aproximadamente 16,5 milhões de nascimentos por ano.
Assim, há muita expectativa de que, com a mudança de política, a economia se aqueça mais, com destaque mais imediato para as empresas voltadas ao segmento infantil, já que um “novo mercado” se abre para elas.
Uma das hipóteses para que a política do filho único tenha sido abandonada neste momento é de que o país tenha se tornado “velho” antes de ficar rico. Até 2050, mais de um quarto da população terá mais de 65 anos, em um cenário em que a taxa de fertilidade é uma das baixas do mundo. Assim, o envelhecimento da população preocupa, gerando ainda mais temores sobre a desaceleração econômica da China.
Porém, para o professor do Insper e especialista em economia chinesa, Roberto Dumas Damas, não é tanto a preocupação com o crescimento a causa para essa mudança de política no gigante asiático. Por trás da alteração desta política, há uma revolução ainda maior. Dumas destaca que a China, que teve um forte crescimento nos últimos anos baseada principalmente no investimento, quer mudar o seu “motor”, passando a investir menos e a consumir mais. Neste sentido, a medida anunciada na semana passada foi apenas mais uma numa gama de mudanças para “alterar a chave” do crescimento econômico chinês.
O professor afirma que, depois da crise de 2008, a China passou a elevar fortemente o investimento, mas viu que esta medida não era sustentável. Assim viu-se uma necessidade maior de elevar o consumo. Para isso, precisa-se aumentar a renda do trabalhador, que caiu de 55% em 1992 para 43% em 2012 em relação ao PIB. Além de ter uma redução da renda do trabalhador chinês, ele poupa muito. E é aí que entra a questão do “filho único”.
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“Tecnicamente, o chinês quando casa, tem que cuidar da esposa, da mãe e do pai e do sogro e da sogra. Se a China quer virar uma economia voltada para o consumo, em um cenário em que a renda está caindo e há ainda mais cinco pessoas para sustentar, o chinês tentará poupar sua renda ao máximo, ainda mais em um cenário de precária assistência social e de saúde. Então, o chinês não vai consumir”, afirma Dumas, que completa: “este é um pequeno braço de uma política muito maior que é estimular o consumo em detrimento do investimento. Não é que vai mudar tudo. Mas é mais uma tachinha, um prego, no caixote da reforma, de tornar a economia mais voltada para consumo”.
Assim, este não é um ambiente de virada completa e sim é algo planejado do governo dentro de um rol de várias medidas que busquem impulsionar o consumo. Isso porque, com o relaxamento da política, aumenta a percepção de que haverá uma “menor carga” sobre os ombros de uma única pessoa para sustentar uma família, fazendo com que ela aumente o seu consumo e não busque poupar tanto.
Dentre elas, estão medidas para elevar o salário acima da produtividade, o que não acontecia desde 2010. “A medida visa aumentar a renda do trabalhador e melhorando a assistência social”. Dumas destaca ainda que, por mais paradoxal que seja, para aumentar o consumo, o governo chinês tem que aumentar juros, já que aumenta a renda de quem está poupando o dinheiro. O professor lembra que o crédito ao consumidor não passa de 20% do PIB, ao passo que o crédito bancário, incluindo empresas, chega a 250% do PIB. “Ninguém se alavanca lá, mas pode ser que, com o tempo, isso aconteça”. Além disso, outra medida pode ser apreciar o câmbio, mas que se voltaria negativamente para empresas estatais, principalmente aquelas intensivas em capital.
Em relatório recente, o banco Morgan Stanley também destacou a proteção social insuficiente do país, levando a maior poupança dos chineses: “a política do filho único, estendida por tempo demais, significou que o apoio aos idosos ficou cada vez mais escasso. Com uma rede de proteção social insuficiente, a poupança pessoal cresceu como forma de guardar para a aposentadoria”, diz o banco.
Sem “medidas mágicas”
Comparando a China a um “grande transatlântico”, Dumas acredita que seria um grande equívoco para o gigante asiático voltar a adotar medidas expansionistas. “Está mais do que evidente que a China não está crescendo a 7%, deve ter uma expansão de 5,5% e deve seguir entre 5 e 5,5% pelos próximos dez anos. Mas se houver uma desaceleração ainda maior, de 4%, 4,5% ao ano, talvez seja adotada alguma medida fiscal expansionista, como foi feito em 2009. Porém, isso é um erro sob o ponto de vista econômico, mas é necessário do ponto de vista social”, avalia.
Assim, o governo já sabe em que direção vai: “a China vai virar, devagar. Porém, se houver uma desaceleração muita rápida, há uma indicação de aumento da política expansionista”, afirma o professor do Insper.
Neste cenário, quem deve se beneficiar mais das políticas de remodelamento da economia da China? Mais uma vez quem deve se beneficiar são as soft commodities (carne e soja), enquanto, novamente, hard commodities (tais como minério de ferro), como o setor de mineração, devem continuar enfrentando um ambiente bastante difícil. Enquanto isso, papel e celulose devem ser uma boa aposta, tendo em vista o forte aumento nas perspectivas de consumo para o país.
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