Por que uma guerra entre EUA e Coreia do Norte é improvável?

Confronto militar na Península Coreana não interessa a ninguém, mas escalada de discursos e exercícios militares trazem maiores riscos

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SÃO PAULO – O nível de tensão nas relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte voltou a se intensificar com as recentes declarações dos líderes dos dois países. Na semana passada, em plena 72ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), o presidente Donald Trump ameaçou “destruir totalmente” o oponente se os EUA forem “forçados a se defender ou a defender seus aliados”. A resposta do regime de Kim Jong-un veio ontem e trouxe maior preocupação à comunidade internacional. Para Pyongyang, as palavras do republicano soaram como uma “declaração de guerra”. O ministro das Relações Exteriores norte-coreano, Ri Young-ho, afirmou que o regime poderia derrubar bombardeiros americanos.

Os novos episódios ocorrem em um momento em que o Conselho de Segurança da ONU busca conter os avanços de Kim Jong-Un por meio de sanções econômicas. Do lado de Pyongyang, observa-se uma sucessão de testes nucleares, bem como aprimoramento militar do regime. Acredita-se que a Coreia do Norte desenvolveu a capacidade de produzir uma ogiva nuclear miniaturizada, que pode ser transportada por seus mísseis balísticos. Tal tecnologia é vital para um país que deseja se tornar uma potência nuclear plena. Em meio a esse ambiente hostil, o presidente Donald Trump chegou a prometer “fúria e fogo” se as ameaças de Kim Jong-Un continuassem. O regime respondeu com uma ameaça de lançar mísseis sobre a ilha americana de Guam, onde os EUA mantêm bases militares.

De um lado, a pressão para evitar o êxito no desenvolvimento militar de um regime hostil. Do outro, a busca por uma sobrevivência mais segura em uma região cercada de potências militares, em um continente ameaçado por intervenções norte-americanas. Contudo, a despeito da elevação no tom dos discursos dos líderes dos dois países, não está instalado um cenário de guerra iminente. Para acreditar nisso, é preciso fazer a reflexão: a quem interessaria um confronto militar entre Coreia do Norte e Estados Unidos?

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“A primeira estratégia de qualquer Estado é a sua preservação. A dependência norte-coreana em relação à Rússia e à China se tornou mais difícil e complexa. Assim, foi adotada uma política de hostilidade intensa e construção de medidas para preservar o regime de ameaças internas e externas. Pyongyang não pode depender apenas de seus armamentos convencionais. Embora eles tenham poder de fogo, é necessária ameaça com mais credibilidade: as armas nucleares”, explicou o especialista em Segurança Internacional Bernardo Wahl, professor de Relações Internacionais na FESPSP e FMU, em entrevista concedida ao InfoMoney em agosto.

Segundo o professor, a posse de armamentos nucleares compõe uma estratégia de blefe de Kim-Jong Un, que tem assumido postura mais assertiva que seus antecessores. “A Coreia do Norte não poderia lançar um ataque nuclear, pois seria aniquilada. Sua aparente irracionalidade pode fazer com que ela pareça perigosa, não ao ponto de ser atacada preemptivamente (no teste do míssil balístico intercontinental, em 04/07/2017, os EUA poderiam ter eliminado a liderança norte-coreana com um míssil Tomahawk, mas não o fizeram). A estratégia norte-coreana deve preservar o regime e paralisar os oponentes, sem o uso da força militar pelos adversários, os quais suportam as afirmativas de poder da Coreia do Norte sem entrar em pânico. O resultado é um certo ‘impasse dos indiferentes’, ou uma situação de paz impossível e guerra improvável”, complementou Wahl à época.

Por trás de uma aparente irracionalidade, há uma estratégia de sobrevivência norte-coreana. Um regime fechado, que gasta a maior parte dos recursos orçamentários com segurança e defesa. Vale lembrar que o país tem um conflito histórico com seu vizinho do sul, além de estar inserido em uma região cercada por China e Rússia. Coreia do Sul e Japão ainda contam com apoio norte-americano, o que oferece ainda mais riscos a Pyongyang. Para completar o cenário, o histórico instável em outra região do continente, o Oriente Médio, também trabalha no imaginário dos norte-coreanos. É nesse contexto que se insere a narrativa de que o desenvolvimento de armamento nuclear teria efeito de dissuasão suficiente para garantir que o país jamais sofreria ataques ou invasões. Kim não quer ser o novo Saddam Hussein ou Muamar Khadafi. Contudo, uma guerra tampouco interessa. Além disso, do ponto de vista econômico, o país mantém elevada dependência econômica da China.

Conforme pontua Andrei Lankov, professor da Universidade Kookmin em Seul, os norte-coreanos “querem ter a capacidade de tirar Chicago do mapa, por exemplo. Depois terão interesse em soluções diplomáticas”, disse em entrevista ao jornal britânico The Guardian. Os atuais acontecimentos se inserem nesse cabo de guerra mantido entre Washington e Pyongyang: de um lado, os esforços para evitar a consolidação de uma força nuclear; de outro, a busca pela sobrevivência pelo efeito de dissuasão deste tipo de armamento.

Além disso, conforme pontua reportagem da BBC Brasil, a China também entra nessa conjuntura como ator importante — e potencial mediador do conflito. O governo chinês ajudou a manter o regime de Kim Jon-Un porque sua queda poderia levar soldados americanos e sul-coreanos à fronteira com o país, em uma proximidade indesejável para Pequim, além de um elevado fluxo de refugiados ao seu território.

Até o momento, o que se viu foi muito discurso e pouca ação, e as coisas tendem a seguir nesta toada. Contudo, não se sabe se o desfecho será o fim do programa nuclear norte-coreano ou a possibilidade, ainda que remota, de se aceitar o regime como potência nuclear. Para Wahl, este cenário poderia provocar o indesejável efeito de contribuir para a proliferação atômica horizontal — ou seja, quando mais países detêm armas desse tipo.

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Por outro lado…

Em um ambiente de muitas informações imprecisas sendo difundidas, qualquer interpretação equivocada pode desencadera o início de um confronto. Nesse sentido, erros de cálculos podem ser os principais vilões para o início de uma guerra por mais indesejável que seja. Além disso, a promessa do regime norte-coreano em transformar o vizinho do sul em um “mar de fogo” só faz aumentar o nível de tensão, colocando civis dos dois países da Península Coreana como reféns de um impasse geopolítico de graves proporções.

Segundo o jornal The Washington Post, membros do governo norte-coreano tentaram manter conversas com analistas ligados ao Partido Republicano em Washington, para entender as confusas mensagens dadas por Donald Trump ao regime. Conta a reportagem que as tentativas de contato começaram depois a erupção de novas ameaças entre os dois líderes, mas provavelmente se intensificaram quando a troca de farpas piorou e elevou as chances de mal-entendidos catastróficos. O discurso confuso do presidente do Estados Unidos amplia o nível de tensão e eleva as chances de um conflito, embora ainda seja considerado o cenário menos provável.

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.