Entrevista

Por que tirar o CFA, o certificado do mercado financeiro que apenas 800 brasileiros possuem

O novo presidente da CFA Society Brazil, Mauro Miranda, revela características importantes para obter certificado

SÃO PAULO – Muito complexo e ao mesmo tempo muito sedutor, o mercado financeiro tradicionalmente atrai jovens das áreas de economia, finanças e engenharia, que buscam a rápida ascensão profissional (e financeira) que este universo propicia.

Contudo, em meio a tempos de crise, estar bem preparado é fundamental para se destacar perante os outros.

Um dos certificados mais cobiçados entre os agentes do mercado financeiro é o CFA (Chartered Financial Analyst). Obviamente, a cobiça por este certificado é diretamente proporcional à dificuldade da prova.

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Para falar mais deste certificado, o InfoMoney entrevistou o novo presidente da CFA Society Brazil, Mauro Miranda. Para ele, à medida que o Brasil se internacionaliza, o certificado deve ser mais cobiçado e também aumentar ainda mais as credenciais do Brasil para o cenário estrangeiro.

InfoMoney – Queria que você contasse um pouco a história do programa CFA, o  que é preciso para obter o certificado e qual é a importância dele para o mercado.

Mauro Miranda – O CFA começou nos anos 1960, completou 53 anos agora e é considerada a certificação mais completa do mundo. Não é só uma certificação de gestão de risco. Ela é completa, com tópicos relacionados a finanças, com conhecimento amplo e bastante profundo no mercado financeiro.

O grau de dificuldade para passar na prova é muito alta, e isso fica claro quando vemos o número de aprovados nos três níveis do programa.

No nível I o índice de aprovação foi 43%, até um pouco mais alto que a média histórica de 40%, enquanto o nível 2 tem taxa de aprovação de 46% e ainda não saiu o resultado do nível 3. Quando essas taxas são combinadas, de que cada 100 pessoas que começam, só 17 terminam.

InfoMoney – Além das três provas, o que é preciso para tirar o CFA?

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MM – Há os 4 anos de experiência exigidos para tirar o certificado. Tem que trabalhar na área, tem que assinar o código de ética, de conduta e se tornar membro do CFA Institute. Só quem consegue todos os requisitos, pode obter a certificação.

IM – Quem ou que tipo de empresa exige o CFA no Brasil?

MM – Ela não é exigida, é uma distinção. No Brasil, há cerca de 800 pessoas com CFA e elas entraram no programa voluntariamente. Claro que existem algumas áreas dentro do mercado financeiro em que a certificação é mais necessária, uma vez que as empresas nestes setores já conta com profissionais com CFA: na área de gestão de carteiras e research (análise de ações), tradicionalmente os profissionais têm esse certificado. Quem almeja deve buscar certificação, que pode ser ser buscada por profissionais de IB (Investment Banking), M&A (Fusões e Aquisições), consultorias e corretoras. Ou seja, há uma gama muito ampla de atuação no mercado dos detentores do CFA no mundo.

IM – O certificado mais tradicional e acessível no Brasil é o CNPI. Qual o diferencial de ter um CFA ao invés do CNPI?

MM – O CNPI é obrigatório e requerido para fazer análise de ações, enquanto o CFA é uma certificação global. Certamente quem tem CNPI pesquisa e é qualificado para se inscrever no programa e prestar o CFA.

IM – Ter o CFA pode abrir portas para um analista brasileiro trabalhar no exterior?

MM – Sem dúvida. Aliás, é uma das principais distinções e um passaporte global para a carreira. Dada a característica global, as provas são aplicadas no mesmo tempo, no mundo inteiro. Há uma padronização, que cria assim profissionais de língua global nos negócios – já haverá alguém do outro lado que já vai reconhecer quem está apto a fazer esse trabalho. Sem dúvida, é um passaporte global para finanças

IM – Em quais regiões estão concentrados os candidatos ao CFA?

MM – 72% dos membros do CFA no Brasil estão em São Paulo, 19% no Rio de Janeiro, 9% estão espalhados em capitais como Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Recife, João Pessoa e Belo Horizonte. A média de idade das pessoas que se inscrevem vem caindo no mundo e no Brasil, preenchendo os requisitos de quatro anos de experiência. As provas são oferecidas anualmente e a pessoa pode ir acumulando a experiência profissional. Não há certificação parcial, há as provas e os requerimentos, o que totaliza mais ou menos três anos para provas, contando os quatro anos de experiência no período.

Sobre as regiões, São Paulo tem concentração, não tem como fugir, enquanto o Rio de Janeiro vem crescendo bastante e uma das propostas é de inclusão do Rio como local de realização das provas do Programa CFA no ano que vem.

IM – Vocês consideram o número de brasileiros que tem o certificado baixo?

MM – Muitíssimo baixo. No Canadá, por exemplo, que tem um PIB comparado ao nosso, 14.500 pessoas têm o CFA. A gente tem um caminho bastante longo para conseguir esse número. Essa certificação aumenta a visibilidade dos profissionais perante o mundo, eles vão para o exterior, dão o seu cartão de visitas e tornam o nosso mercado mais visível para os outros países também. O nosso mercado de capitais ainda é um pouco fechado e é preciso que ele se abra mais para o mundo. Uma das formas é através do CFA.

IM – A Bolsa já subiu 50% desde a mínima do ano e analistas do mercado acreditam cada vez mais que “o pior já passou”. Você acha que essa euforia pode ajudar os analistas a buscar uma maior capacitação?

MM – Sem dúvida nenhuma. Nem diria que é euforia, são ciclos normais. Estamos revertendo esta tendência, voltaremos a chamar a atenção de investidores internacionais, o que pode ser uma boa oportunidade para participantes do mercado que conseguem falar a mesma língua global de finanças. Isso dá mais confiança para os investidores estrangeiros investirem no brasil. O mercado financeiro tem que estar preparado.

O ponto principal a desenvolver, além de outras ideias, são as reformas que precisam ser feitas no país, como a tributária, infraestrutura, mudar regulação. Porém, além dessas questões, uma maior qualificação profissional, excelência de formação educacional, ética e integridade dos profissionais são requisitos importantes.

E, vale ressaltar, a educação é algo que nunca se perde. Ou seja, é bom estar bem preparado para qualquer momento. Se estamos revertendo tendência de baixa e preparados para o momento bom, quem trabalha nos mercados emergentes nesse ciclo de alta vai se beneficiar muito mais caso esteja preparado.

IM – Qual o conselho que você poderia dar para quem pensa em obter o certificado?

MM – Entenda a relevância e estude bastante para as provas, que são de um nível de dificuldade relativamente alto. Não é nada fácil: são cerca de 300 horas de estudo por nível e o candidato precisa de pelo menos 4 meses para se preparar para a prova.

Apesar de árdua, é uma tarefa que é recompensadora pois traz benefício, não tem outra certificação que propicie tais benefícios ao detentor. Por isso mesmo, disciplina, perseverança, organização e vontade de mudar de patamar profissional são requisitos fundamentais para passar na prova.

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