Entenda

Por que os usuários do Ethereum toleram taxas exorbitantes

A blockchain do Ethereum é a mais cara, mas vale a pena o custo

Por  CoinDesk

*Por Konstantin Anissimov

As taxas de gas (tarifas para realizar transações) voláteis e às vezes extraordinariamente altas do Ethereum (ETH) têm sido um importante tópico de conversa.

Os críticos costumam citar as tarifas da rede como uma falha fatal que a torna inutilizável, abrindo a porta para um “Assassino de ETH” (expressão usada para identificar redes concorrentes) destroná-la como a principal plataforma de execução de contratos inteligentes. No nível mais alto, a exigência de pagar altas taxas para executar transações mina um dos pilares centrais das blockchains, que é a inclusão.

Nem todos os usuários têm a capacidade de arcar com altas taxas de transação. Mas o Ethereum não pode ser descartado por causa de seu custo de uso elevado. Para compreender essa perspectiva, você precisa entender o mecanismo de taxas da rede e as inovações que estão sendo desenvolvidas e implantadas atualmente.

O que é gas e como funciona

O gas é o combustível para executar transações na rede Ethereum. Na blockchain do projeto, o gas se refere ao custo necessário para realizar uma transação. Quanto mais complexa ela for, mais cara fica. Por exemplo, uma simples transferência de Ether requer menos gas do que enviar tokens ERC-20 (nome dos ativos que rodam na rede) ou trocar criptos em uma exchange descentralizada (DEX, na sigla em inglês).

Cada bloco na rede tem um limite máximo de gas que pode aceitar. Chamada de “gas limit” (limite de gas, em português), essa métrica muda ao longo do tempo, e isso depende de vários fatores. Assim, nem todas as transações feitas em um período especifico serão colocadas em um determinado bloco.

Como toda ação na rede requer gas e há um limite na quantidade que pode ser usado em cada bloco, os mineradores que confirmam as transações escolhem primeiro aquelas com a maior recompensa. O resto é empurrada para blocos posteriores ou não é selecionada. Assim, o gas é usado como um lance pelo usuário que quer que sua transação seja colocada no bloco. Essa dinâmica resulta em taxas de rede caras, principalmente quando há um grande número de pessoas usando a rede e pouco espaço nos blocos.

O que as altas taxas significam

A maioria dos usuários de criptomoedas não acha ideal gastar U$ 10, U$ 50 ou U$ 150 por transação. O Ethereum 2.0, uma atualização que visa tornar a blockchain do Ether mais escalável e barata, ainda vai demorar para chegar. No entanto, as altas taxas hoje sugerem que os usuários valorizam o espaço do bloco ETH. Taxas altas podem ser temporárias, mas é interessante perguntar por que as pessoas as toleram.

Os usuários do ETH podem ir para Solana (SOL), Binance Smart Chain (BSC) ou qualquer outra plataforma de contrato inteligente para executar a mesma transação por centavos de dólar. Mas a grande maioria não vai e está disposta a pagar mais porque acredita que o Ethereum é uma plataforma melhor. Esta é uma indicação positiva de que as taxas não são uma fraqueza, como muitos estão inclinados a pensar. Em vez disso, é um indicativo da robustez do Ethereum, algo que não está presente nos “assassinos de Ether”.

Por que os usuários ainda escolhem o Ethereum

A principal razão pela qual o Ethereum permanece superior aos seus concorrentes e, portanto, vale o custo, é o fato de ser bastante descentralizado. A descentralização é fundamental para a segurança da rede e para evitar que uma cadeia seja invadida por quem a valida. (A segurança da rede está relacionada com a blockchain, em oposição à segurança dos contratos inteligentes da cadeia. A segurança de um contrato depende do desenvolvedor que o criou.)

Isso não significa, necessariamente, que outras redes sejam menos descentralizadas. Mas com cadeias alternativas, os validadores têm maior probabilidade de trabalhar individual ou coletivamente para reorganizar blocos, reverter transações e realizar outras ações maliciosas. Uma análise comparativa do Ethereum e seus concorrentes mais próximos ilustra que é a rede é a blockchain de contrato inteligente mais descentralizada do mercado.

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Qualquer pessoa com a capacidade para montar um rig de mineração pode validar as transações do Ethereum com seu modelo de consenso atual de Prova de Trabalho (PoW, na sigla em inglês). Essa baixa barreira à entrada beneficia a descentralização e, por sua vez, a segurança da rede.

Além disso, o PoW requer poder computacional para aprovar transações, o que desloca o controle sobre o fornecimento do controle sobre a rede. Os validadores simplesmente não podem comprar mais ETH para obter poder desproporcional na blockchain.

Em vez disso, eles devem adquirir uma quantidade de poder computacional superior a 50% do total da rede para assumir o controle. O custo para isso é alto e destruiria o sistema (e, portanto, o investimento feito para adquirir os computadores), o que desincentiva os validadores de PoW a atacar a rede.

Depois que o Ethereum mudar para o mecanismo de consenso de Prova de Participação (PoS), será preciso adquirir 32 ETH para validar a rede. Isso equivale a cerca de US$ 84.400 no preço atual e cerca de US$ 155.800 quando o ETH bateu sua máxima histórica.

O requisito de capital para validar transações após o lançamento do ETH 2.0 parece assustador e pode reduzir o número de validadores na rede e, portanto, a descentralização do Ethereum – em termos relativos, no entanto, isso seria baixo.

A casa de análises Glassnode indica que existem cerca de 107.700 endereços com 32 ETH, o que significa que há mais de 100 mil validadores em potencial quando a migração estiver concluída. Isso é positivo de uma perspectiva de descentralização desejável.

Inovações no Ethereum

Inovações dentro e ao redor do Ethereum foram postas em movimento, em parte, por causa dos altos custos do ETH. O ETH 2.0, ou Serenity (nome da atualização), é o upgrade da rede (ainda em andamento) com foco em escalabilidade, sustentabilidade e eficiência. A peça central da atualização é a migração de seu mecanismo de consenso atual, o PoW, para o PoS. O PoS permitirá que o ETH 2.0 reduza seu impacto ambiental e implemente recursos de escalabilidade com comprometimentos marginais à segurança da rede.

O “shading” (etapa da atualização que irá dividir a infraestrutura do Ethereum em 64 partes menores com o objetivo de dimensionar a plataforma para que ela possa suportar muito mais usuários do que atualmente) terá taxas mais baixas e melhor escalabilidade. Se a demanda continuar a aumentar, no entanto, o impacto líquido nas tarifas pode ser marginal ou negativo em alguns casos, devido ao mecanismo de tarifas de gas da rede.

Dividir a blockchain em 64 cadeias permitirá que ela seja dimensionada e consiga suportar 100.000 transações por segundo (esse número é uma estimativa). Isso seria um aumento substancial acima da capacidade atual da rede de 30 transações por segundo. No entanto, o tempo de lançamento desses novos recursos ainda é amplamente desconhecido.

O desenvolvimento e a adoção de uma camada 2 (uma rede secundária para desafogar a principal) contribuiu para dimensionar o ETH no presente, reduzindo as taxas e aumentando o rendimento transacional. As transações tratadas na camada 2 são feitas fora da cadeia principal do Ethereum.

Aplicativos de finanças descentralizadas (DeFi) e empresas centralizadas se voltaram para as camadas 2. A Uniswap (UNI) lançou recentemente a v3 (uma atualização) de sua plataforma na Polygon (MATIC), e a exchange CEX.IO também se integrou à solução de dimensionamento de camada 2. Apesar de estar em um estágio de desenvolvimento, a quantidade de valor bloqueado no Ethereum em redes subjacentes chegou a US$ 5,5 bilhões (há cerca de US$ 1,7 milhão de ETH distribuídos pelo ecossistema).

Melhorias e aumento de volume

As voláteis e muitas vezes caras taxas de gas do Ethereum podem dificultar a utilização da rede às vezes. No entanto, o uso sustentado da blockchain em meio a altas taxas, junto com o crescimento do uso da camada 2 e os outros desenvolvimentos do projeto, trazem uma mensagem clara à tona. As altas taxas de ETH realmente provam que os usuários consideram a rede superior e, como tal, os custos estão sendo endereçados de várias maneiras. As melhorias no alcance e na usabilidade do ecossistema continuarão à medida que os fluxos de capital se sustentarem e mais usuários utilizarem a plataforma.

*Konstantin Anissimov é head de vendas institucionais da exchange CEX.IO

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