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A oferta de entrada da Ecopetrol no capital da Brava Energia (BRAV3), com um acordo para comprar cerca de 26% das ações e o lançamento de uma OPA (oferta pública de aquisição) parcial para alcançar 51% do capital votante, estava longe de ser um choque para o mercado. Ainda assim, o anúncio não só falhou em empolgar os investidores como foi seguido por uma queda relevante das ações da companhia na B3 — um movimento que revela mais dúvidas do que entusiasmo em relação aos termos da operação e aos próximos passos da petroleira sob controle da estatal colombiana.
Na sessão do anúncio, as ações da Brava caíram cerca de 6%, passando de alta de 4,71% para baixa de 1,13% após a notícia, mesmo com a OPA oferecendo um prêmio em relação à cotação prévia, com proposta a R$ 23. Para analistas, esse aparente paradoxo ajuda a explicar por que a transação, embora estratégica no papel, foi recebida com cautela pelo mercado.
A primeira insatisfação se dá pelo desenho da operação, uma vez que Ecopetrol assinou um contrato de compra e venda (SPA) com acionistas relevantes — como Jive, Yellowstone e o veículo da Queiroz Galvão — e anunciou uma OPA voluntária e parcial, limitada ao número de ações necessário para chegar a 51% do capital votante.
Na prática, isso significa que, mesmo que todos os acionistas remanescentes desejem aderir à oferta, haverá rateio. Pelas contas da XP, se 100% dos investidores elegíveis tenderem suas ações, apenas cerca de 33,8% das posições seriam aceitas, deixando mais de dois terços do capital ainda exposto ao mercado, agora como participação minoritária em uma empresa controlada por uma estatal estrangeira.
Esse detalhe é central para entender a reação negativa das ações. O mercado passou a precificar o valor da OPA e o preço potencial das ações que continuariam em circulação após a operação. Nesse cenário, o papel remanescente pode negociar abaixo dos R$ 23, incorporando desconto por liquidez, incerteza estratégica e menor atratividade para investidores.
A oferta também subavalia a Brava, com a Genial Investimentos recomendando que os acionistas não aceitem a OPA ao preço proposto. Para a corretora, a oferta não embute prêmio de controle relevante e fica abaixo do valor implícito das reservas certificadas da companhia — inclusive no cenário mais conservador, usando apenas reservas provadas (1P) e taxas de desconto elevadas.
Além disso, o preço de R$ 23 está abaixo da maioria dos preços-alvo do consenso e não captura, na visão dos analistas, um ambiente de preços do petróleo estruturalmente mais altos em relação aos patamares considerados nas certificações anteriores. Pelas estimativas do mercado, a aquisição da Brava ocorreria a múltiplos de EV/Ebitda (valor da firma/lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) entre 2,1 vezes e 3,2 vezes para 2026 — considerados baixos para um ativo com escala relevante, portfólio diversificado onshore e offshore e licenças já emitidas.
Pesa também sobre o papel o risco de execução da transação, uma vez que conclusão do negócio depende de aprovação do Cade, de renúncias de credores e de consentimentos em contratos financeiros e comerciais da Brava. Até que essas etapas sejam superadas, investidores tendem a exigir desconto adicional para compensar a incerteza.
Mas o principal ruído está no “dia seguinte” da OPA. A Brava construiu, nos últimos anos, uma narrativa focada em disciplina de capital, otimização de portfólio e geração de caixa – um esforço para responder às críticas históricas de execução e governança que ainda marcam a percepção do mercado sobre a companhia.
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Com a entrada da Ecopetrol, cresce o receio de uma guinada estratégica. Analistas do Bradesco BBI e da XP destacam que a estatal colombiana tem interesse claro em ampliar produção e reservas, especialmente fora da Colômbia, onde enfrenta limitações políticas e geológicas. Isso pode significar uma estratégia mais agressiva de crescimento e maior intensidade de capex, potencialmente em detrimento de indicadores como retorno sobre capital (ROIC) e fluxo de caixa por ação.
Pontos positivos no radar, mas há dúvidas
Nem tudo, porém, é visto como negativo, uma vez que a Ecopetrol é reconhecida como uma operadora experiente em ativos onshore, com histórico robusto de adição de reservas via recuperação secundária e terciária. Há também possíveis sinergias financeiras: o custo de dívida da estatal é significativamente menor que o da Brava, o que pode reduzir despesas financeiras rapidamente.
No offshore, onde a Brava concentra alguns de seus ativos mais valiosos, como Atlanta, analistas avaliam que a Ecopetrol deve buscar parcerias com operadores experientes — o que pode destravar valor via M&A (fusões e aquisições) ou reorganização do portfólio. Ainda assim, essas potenciais vantagens são vistas mais como opcionais de longo prazo do que como catalisadores imediatos.
O que esperar a partir de agora
No curto prazo, o consenso é que o preço de R$ 23 tenda a se tornar uma âncora para as ações da Brava, limitando o upside até que haja maior clareza sobre o cronograma, o sucesso da OPA e, principalmente, a estratégia da Ecopetrol à frente da companhia. Morgan Stanley, por exemplo, revisou seu preço-alvo de R$ 28 justamente para esse nível, citando efeitos técnicos e a nova estrutura de controle, também cortando a recomendação das ações de overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) para equalweight (exposição em linha com a média, equivalente à neutra).
Para os acionistas, a decisão entre aderir ou não à oferta passa menos pelo prêmio imediato e mais por uma avaliação de longo prazo: aceitar um preço considerado baixo por parte do mercado ou permanecer como minoritário em uma empresa que pode mudar de forma relevante seu direcionamento estratégico.
