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SÃO PAULO – Quase todos sabem que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa de juros básica da economia, também conhecida como Selic, inalterada em 18,50% ao ano nos últimos dois meses. Porém, muitas pessoas se perguntam o porque desta decisão.
Parte do mercado certamente apostava em uma atitude menos conservadora da autoridade monetária, de forma que a queda de mais de 2% do Ibovespa no final do dia, depois da bolsa ter chegado a subir forte pela manhã, não chega a surpreender. A dúvida que fica na cabeça do consumidor, que aguarda por uma redução nos juros, é o que precisa mudar para o Banco Central finalmente decidir cortar os juros? Para tentar responder esta pergunta, vamos por partes, começando por explicar o que é a Selic.
Mas afinal, o que é e para que serve a Selic ?
De forma simplificada a Selic é a taxa de juros referencial para todas as operações financeiras do mercado brasileiro, ou seja, quando um banco define o custo de financiamento, ou a taxa pela qual a sua conta de depósito vai ser remunerada, a taxa Selic é utilizada para definir o que chamamos de spread, isto é, a remuneração do banco na operação em questão.
Além disso, a taxa de juros é um importante instrumento de política monetária para o Banco Central, pois, em geral, o aumento dos juros tende a inibir o consumo, pois torna mais caro o preço do dinheiro para os bancos e, conseqüentemente, para os próprios consumidores. Mais adiante vamos discutir em maior detalhe como os aumentos ou reduções na taxa básica têm sido repassados para o consumidor final.
O que influencia a decisão do Copom?
Como fica evidente pela explicação de para que serve a Selic, a decisão de manter ou não os juros inalterados tem implicações significativas sobre a economia do país. Uma redução tende a impulsionar investimentos, ajudando, em última instância, no crescimento econômico do país e no aumento dos níveis de emprego e renda da população.
Como os efeitos para a economia de uma redução nos juros em geral são bastante positivos, fica ainda mais difícil para o consumidor entender porque o Copom está tão relutante em cortar os juros. Como o Governo é hoje o maior devedor do país, certamente ele seria o maior beneficiado por uma redução nos juros, que permitiria uma redução dos encargos da dívida pública.
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Dentre as variáveis que influenciam a decisão do Comitê estão a inflação, o cenário internacional, e a percepção de risco para o Brasil. Para entender melhor esta situação, imagine o Governo como um consumidor qualquer, que está pensando em levantar um financiamento. Agora imagine que este mesmo consumidor está no vermelho e só consegue levantar dinheiro junto às financeiras, pagando juros altíssimos.
Aumento do risco Brasil
A razão pela qual este consumidor é obrigado a pagar juros mais altos, não conseguindo levantar dinheiro junto a um banco, reflete o fato que, por estar no vermelho, ninguém está disposto a lhe emprestar dinheiro, a não ser que seja em troca de um retorno, na forma de juros, bastante elevado. Assim como no caso do consumidor endividado, se a percepção de risco Brasil aumenta, fica mais difícil para o Governo tomar dinheiro emprestado, e isto acaba forçando os juros a se manterem elevados.
Alta da inflação reduz retorno real
Voltando a analogia do consumidor endividado, o nível de inflação é importante porque define o retorno real para quem empresta o dinheiro. Se a inflação aumenta, o retorno real para quem emprestou o dinheiro para o consumidor é mais baixo. Como o risco de emprestar o dinheiro para este consumidor segue o mesmo, ou até mesmo aumenta com a alta da inflação, a financeira pode querer rever a taxa de juros cobrada de forma a pelo menos manter os juros reais inalterados.
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Por exemplo, imagine que os juros cobrados pela financeira sejam de 100% ao ano e a inflação é de 10% ao ano, o retorno real da financeira é de cerca de 90% ao ano. Se a inflação sobe para 12%, o risco do consumidor ficar inadimplente aumenta, pois o aumento dos preços compromete ainda mais seu orçamento, mas o retorno real, cai para 88%. É provável que a financeira tente manter os juros reais em 90%, o que implicaria em um aumento dos juros para 102% ao ano.
Risco externo aumentou
Da mesma forma, as maiores incertezas no cenário interno e externo aumentam o risco do sistema como um todo, e levam as financeiras a se tornarem mais exigentes na hora de emprestar o seu dinheiro, o que, em geral, se reflete em um aumento dos juros cobrados. Afinal, se o consumidor já enfrentava problemas para equilibrar seu orçamento antes do mundo entrar em crise, imagine como deve ficar sua situação em um cenário de crise internacional. É nisto que as financeiras pensam na hora de emprestar o seu dinheiro.
No caso da decisão do Copom parece que a maioria dos membros do Comitê acredita que a inflação de abril, o aumento do risco Brasil devido às incertezas com relação à sucessão presidencial, e, por último, o cenário ainda incerto de recuperação da economia mundial, com o agravamento da crise no Oriente Médio e novos rumores de atentados terroristas nos EUA, justificam a manutenção dos juros. Para o consumidor só resta esperar que pelo menos alguns destes fatores sejam revertidos até a próxima reunião no final de junho.