Teste de Mercado

Por que o Brasil está em “lua de mel” com os investidores se a realidade ainda é tão ruim?

A atuação "pró ou contra" da parte dos investidores se concretiza a partir da análise de riscos e de retornos

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Na última sexta-feira (25/8/2017) o Índice Bovespa fechou acima dos 71 mil pontos. Nos últimos 12 meses a Bolsa de Valores brasileira subiu 23% (+18% em 2017). Do lado da renda fixa, o risco-Brasil, representado pelo contrato de CDS (Credit Default Swap), apresentou uma queda de 29,3% em 2017, ou seja, acredita- se que a posição de “bom pagador” do Brasil melhorou nessa proporção. Vive-se, como se pode constatar, uma luminosa “lua-de-mel” em relação ao país, pelo menos da parte daqueles que transacionam com os títulos e valores mobiliários do país. Isso tudo faz sentido?

A primeira explicação para esse notável desempenho dos mercados em relação ao Brasil encontra-se no fato de que a liquidez internacional tem inundado os segmentos mais arriscados do mercado financeiro e de capital com recursos de investidores em busca de maior rentabilidade. Com efeito, aceita-se mais risco em troca de maior rentabilidade. Não à toa que os mercados de ações dos EUA, para citar o exemplo mais significativo, continuam batendo recordes e mais recordes em termos de rentabilidade: esse ano o Índice S&P500 que representa o desempenho das ações das 500 maiores corporações dos EUA, subiu 9% (+12,5% nos últimos 12 meses). Portanto, o desempenho brasileiro está longe de encontrar respaldo apenas nessas terras abaixo do Equador.

A extensa e volumosa liquidez registrada ao redor do globo ainda é efeito direto da grande crise de 2008. As autoridades fiscais e monetárias das economias centrais do capitalismo mundial persistem com taxa de juros primárias, praticadas pelos Bancos Centrais, negativas ou baixíssimas e, em alguns casos, com assistência direta do Tesouro para garantir o suprimento de crédito para o consumo e o investimento. Depois de quase dez anos daqueles eventos de 2008 que quase dragaram o sistema financeiro norte-americano, pode-se afirmar categoricamente que a política de farta oferta de dinheiro para a economia foi um sucesso: evitou-se uma enorme depressão econômica mundial. Todavia, esse sucesso é relativo vez que o crescimento econômico e a percepção de melhora na qualidade de vida dos cidadãos não são acentuados. Ao contrário: vê-se que o investimento (produção de novos bens) é baixo dentre os países ricos e o consumo ainda oscila, sobretudo nos países da Europa Ocidental e no Japão. Apenas a China persiste como “motor” mundial, com crescimento do PIB solidamente acima dos 6%. De toda a forma, no segundo trimestre da pesquisa da OCDE, organização dos países mais ricos do mundo, todas os afiliados dessa entidade (35 países) apresentaram crescimento do PIB! As perspectivas são igualmente promissoras.

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De forma bastante sumária esse é o cenário que estamos a registrar. E lá está o Brasil, esse gigante adormecido, amplamente favorecido por um cenário mundial senão totalmente benigno, certamente muito favorável.

Quando saímos dessa leitura mais geral da conjuntura econômico-financeira e adentramos nas entranhas do que ocorre por aqui é bem possível que os investidores estejam sublimando riscos substantivos. Não se trata propriamente de “irracionalidade”, mas possivelmente do “modelo de análise”. De fato, o que está a prevalecer no momento é a visão estreita daquilo que poderíamos denominar de financismo. Por esse critério de racionalidade, os temas políticos e sociais do país ficam relegados a segunda instância. Os investidores estão focados no curto prazo e o “resto fica para depois”. O que mais importa para se ganhar dinheiro no tal do mercado é “seguir para onde vai o dinheiro”: movimentos dos fluxos de capital produzem elevações relevantes, mesmo que momentâneas dos preços dos ativos, principalmente em países com mercados menos relevantes (menos líquidos) como é o caso do Brasil.

Vale dizer que o capitalismo não é propriamente um modelo de preferências ideológicas. Em havendo liberdade para o capital (para investir e resgatar recursos), investidores fazem negócios com qualquer ativo ou país, da Coreia do Norte à China, do Zâmbia à Austrália. O que guia o capitalismo financeiro é unicamente a possibilidade de obtenção de ganhos. Isso pode ser realizado em cenários favoráveis em termos de fundamentos (econômicos, políticos e sociais), mas também ocorre em situações de colapsos, como no caso da Grécia (a partir de 2008) ou do Brasil (no início dos anos 1980 e por três vezes na administração de FHC).

A atuação “pró ou contra” da parte dos investidores se concretiza a partir da análise, mais ou menos meticulosa, das variáveis de riscos e de retorno. De forma simplista: quando os riscos são elevados e os retornos esperados são baixos, os investidores atuam “vendendo” ativos. É o denominado “short market”. Inversamente, quando os riscos frente aos retornos esperados compensam os investidores atuam “comprando”. É o “long market”.

A questão central dessa lógica é que o “mercado” dá sinais muito específicos de quando passa de uma situação “comprada” para “vendida”. Aqui, em verdade, há mais arte do que técnica, muito embora acadêmicos e grandes investidores se debrucem intensamente para estudar essa temática.

Vale notar que o capitalismo (financeiro ou não) não se guia por uma lógica que contenha base ética ou moral ou, ainda, que leve em consideração os efeitos produzidos pelos caminhos do capital. De fato, ao longo da história, o controle da lógica do capital foi exercido pela criação e desenvolvimento do Estado que com a “divisão funcional” entre Legislativo, Executivo e Judiciário, bem como pelo “voto”, acabou por moderar os “efeitos do capital” por meio de políticas e práticas.

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Agora faço um convite aos leitores que tiveram a paciência de ler esse artigo até aqui. Em vista dos fundamentos que verificamos no nosso país, as condições da política e da economia, tais quais, o funcionamento das instituições do Estado e do governo, a estabilidade social, o nível de criminalidade, a escolaridade dos jovens, a situação da Academia, a estrutura e conjuntura federativa, o sistema de representação (partidos políticos), as perspectivas eleitorais e assim por diante, você acredita que o cenário “róseo” do mercado financeiro se justifica?

Por fim, saiba que mesmo sem comprar uma ação na bolsa ou um título financeiro, você está inserido no tal do mercado. Para o bem e, eventualmente, para o mau. Boa sorte!